Ciência, com C maiúsculo

Outro dia, conversando com dois jovens pesquisadores (pós-graduandos), eles disseram que ainda querem mudar o mundo. E eu recomendei a eles superarem isso logo.

Não é que eu seja cínico. Pelo contrário, acho o cinismo algo detestável e mesmo perigoso. Também conheço todo aquele papo de teoria crítica (em oposição à teoria tradicional). Meu ponto não era, e não é, que a gente não deve querer mudar o mundo. Mas é que, em geral, quando a gente quer mudar o mundo, a gente mais atrapalha do que ajuda, pelo menos no caso da ciência, ou melhor, em se tratando de pós-graduandos.

Como disse o Cosma Shalizi em um contexto completamente diferente, mas que é mais ou menos apropriado aqui, esse tipo de expectativa:

It is going to set the field back by years. On the one hand, scientists in other fields are going to think we’re all crackpots [...]. On the other hand, we’re going to be deluged, again, with people who fall for this kind of nonsense. I expect to have to waste a lot of time in the next few years de-programming students who’ll have read [...] before knowing any better.

A primeira e maior característica que um cientista não pode perder é o espírito crítico e a busca pelo rigor. Muitos dos trabalhos feitos por pessoas que querem mudar o mundo, infelizmente, é cheio justamente de espírito acrítico e falta de rigor. E os pós-graduandos que embarcam nessa canoa furada de mudar o mundo acabam justamente não aprendendo a serem rigorosos ou terem o espírito crítico.

Para não ficar na abstração completa, vou dar um exemplo. Em minhas pesquisas eu estudei legislação de patentes. Os leitores do meu blog sabem que eu sou completamente contrário às patentes. Porém, eu evitei em meus trabalhos gastar meu tempo tentando provar que as patentes eram erradas. Porque, embora eu acredite nisso, eu sabia que eu perderia o espírito crítico e o rigor na busca por condenar as patentes. Eu não examinaria as evidências com a criticidade necessária. E mesmo assim, todos aqueles que concordam comigo louvariam meu trabalho por argumentar na “direção certa”. E no meu doutorado, eu precisava aprender a fazer pesquisa com rigor e com espírito crítico.

Como acadêmico, eu terei muito tempo para estudar e defender argumentos que eu acredito que podem melhorar o mundo. Mas como pós-graduando, que estava aprendendo a aprender a pesquisar, eu precisava antes de tudo adquirir o treinamento de analisar rigorosamente e criticamente argumentos e evidências.

Há é claro um risco de seguir esse caminho, que é terminar onde a Economia terminou, na maior parte dos casos. Aquilo que Sheldon Wolin, num artigo muito bom, mas pouco lido por “metodologistas”, chamou de metodismo. Como ele nota,

This is but to say that there are inherent limits to the kinds of questions which the methodist deems appropriate. The kind of world hospitable to method invites a search for those regularities that reflect the main patterns of behavior which society is seeking to promote and mantain.

Então, não é que eu defenda algo como o metodismo criticado por Wolin. Eu sei bem onde vai dar esse metodismo, e eu saí da economia (e nunca quis voltar) fundamentalmente por causa desse metodismo. Mas é preciso ter ciência do risco oposto, que eu delinei acima, e que a maior parte dos pós-graduandos entra precisando ser de-programado. Ele precisa saber mais, e escolher seu próprio caminho após a pós-graduação. Mas certamente não é nem conhecendo um único caminho que ele atingirá o que o um cientista normalmente busca (ou deveria buscar) um conhecimento maior do mundo.

 

 

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Sobre Manoel Galdino

Conrthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, orquídeas selvagens e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Ciência, com C maiúsculo

  1. Rafael disse:

    Na condição de jovem (a-hem) pesquisador, concordo inteiramente com o argumento do post. Não lembro como a discussão desandou para a ideia de “mudar o mundo” no domingo, mas a minha divergência inicial era (e ainda é) com o pessoal que disse ter se resignado com a ideia de que a pesquisa científica é inútil.

    Acredito, sim, na utilidade de uma pesquisa bem feita, ainda que ela não se manifeste como uma solução imediata para um problema concreto ou como uma denúncia contra o que está errado e não deveria ser como é (para isso existem os centros de policy e os jornalistas, respectivamente). Mesmo que o impacto direto seja reduzido, uma pesquisa que desmonta uma falso consenso ou que estabeleça com rigor uma relação causal qualquer tem influência na formação do pessoal que vai colocar a mão na massa.

    Daí a “mudar o mundo” é outra conversa.

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