Comparem os dois vídeos. São a mesma música, a original, por Fernando Mendes, e o novo arranjo do Caetano. A diferença que os recursos (financeiros e artísticos) fazem pra música é impressionante. Notem a diferença no começo da música (a versão do caetano tem muito mais instrumentos) e a diferença na percussão (batidinha básica na música orginal).

Isso é resultado de mais recursos financeiros (mais instrumentos disponíveis, pessoas capazes de executar bem os outros instrumentos etc.) e artísticos (a capacidade de incorporá-los na música, de perceber como eles podiam melhorar a música etc.). Além disso, a música do Fernando Mendes é cheia de excessos e clichês (os solos, as segundas vozes); tudo isso beira ao mau gosto. Caetano chega e retira os excessos, e incorpora outras coisas à música, trazendo sua simplicidade mas enriquecendo-a com outros sons.

Original:

Versão do Caetano:

ps.: Esses dois vídeos ajudam a mostrar porque a música não é só a letra, que a forma como ela é executada incide diretamente no conteúdo, no que ela produz de sentimento (ou, de outro modo, em como nossa sensibilidade recebe a música).

Em uma discussão passada com o Psico (um grande amigo), analisávamos sambas de alguns compositores clássicos, principalmente Cartola, Adoniran e Noel. Eu sempre procurava por samba-canção com letras profundas, menos interessado na musicalidade e com foco maior na letra. Já o Psico, com a veia musical mais forte que a minha, achava que no conjunto importava mais a musicalidade.

Dividimos assim os sambas entre os sambas pretensiosos e os despretensiosos. No primeiro haveria letras profundas e uma temática mais engajada, seja em política, amor, paixão, etc. Os sambas despretensiosos seriam com uma temática mais cotidiana, assuntos corriqueiros do dia-a-dia…

Nesse primeiro momento achei que Saudosa Maloca do Adoniran Barbosa fosse um samba despretensioso, contando um “causo” comum da vida: um despejo de um cortiço.

Porém, vi um vídeo no YouTube (postado abaixo) que mudou um pouco a minha concepção sobre essa música. É um especial de Adoniran e Elis Regina de 1978, onde essa música é cantada mostrando cenas da cidade São Paulo da época.

Cheguei a conclusão que se trata de um música que conta a história da cidade de São Paulo, em especial do bairro do Bexiga…

O Bexiga e os bairros do centro de São Paulo não conservaram ao longo de sua modernização a arquitetura original com casarões e prédios antigos. Ao contrário disso, derrubavam tudo e reconstruiam com uma roupagem mais moderna. Isso bate totalmente de frente com a concepção de cidades européias como Madrid, Lisboa e Barcelona, que procuram preservar seus prédios antigos mantendo internamente em perfeitas condições de uso a sua estrutura e externamente conservando a arquitetura. A cidade acaba perdendo sua identidade e sua história…

“Ali onde agora está esse adifício arto
Era uma casa véia, um palacete assobradado
Foi ali, seu moço
Que eu, mato Grosso e o Joca
Construímo nossa maloca”

As casas térreas com arquitetura mais antigas foram todas demolidas dando lugar a modernos e altos edifícios. A história da arquitetura da cidade foi perdida nessa transição…

Retirei umas tomadas desse video do YouTube para evidenciar essa transição:

maloca01

maloca03

As memórias de Adoniran acabam sendo demolidas junto com os antigos casarões do centro da cidade. Interessante notar que o Adoniram não se opõe a essa transformação, de certa forma a considera legitima, conforme trecho a seguir: “Os home tá com a razão, nóis arranja outro lugá”…

Talvez possa estar “descobrindo a pólvora”, mas sempre considerei essa música bem despretensiosa não tinha pensado nela num prisma mais histórico da coisa… Enfim, são palavras de um economista sobre música, nada pra ser levado muito sério, hehe.

Segue o video abaixo, ele começa com a música Iracema, só depois começa Saudosa Maloca:

Aparece uma coisa dessas no YouTube!!

É simplesmente fantástico, uma ucraniana, Kseniya Simonova, faz uma animação na areia para retratar os efeitos da Segunda Guerra sobre seu país… Ela faz figuras dinâmicas apenas com areia, criando um enredo.

Tudo combina, as luzes de vela, a música de fundo, a velocidade com que ela mexe as mãos, as mudanças de tela pra tela, a areia voando formando as figuras…

Fantástico, de ficar arrrepiado mesmo…

(via Blog do Nassif que por sua vez pegou do Blog Jovem Nerd)

mam

Por toda a minha vida tive dificuldades com a arte, a arte plástica, a música como arte, a poesia, arte cênicas, enfim, todos os tipos de arte. Talvez influenciado pelo pensamento científico, na essência quando jovem, sem saber o que era pensamento científico com exatidão.

De alguns anos pra cá, tenho sido mais aberto à arte, acho que em muito pela influência do amor… O amor e essa impossibilidade de defini-lo filosoficamente (dêem uma olhada no texto do meu casamento, onde arranho o tema). Com o amor, o pensamento científico e a racionalidade podem ser postos de lado, em um papel secundário. O amor é mais sentir e percepção, e se assemelha com a arte por esse aspecto. Talvez, amar seja uma arte, mas isso é apenas um pitaco meu, não tenho base sólida para fazer essa comparação. E talvez por isso, a música como arte tenha muitas vezes o amor como tema…

Em uma visita dominical ao MAM (Museu de Arte Moderna de SP), notei um aviso que nos alerta como perceber a arte. Achei o aviso interessante pois consegue expressar o que tentava me convencer a respeito do papel da arte… Dá até pra fazer um paralelo arte/amor (como fiz acima), ao ler esse aviso… Copiei manualmente trechos do aviso e colo abaixo:

“Na tradição do pensamento ocidental, é recorrente a idéia de que arte é apenas ilusão. Em vez de revelar o mundo que está aí, ela o encobriria e nos afastaria dele. A ciência seria então a única maneira de garantir acesso verdadeiro às coisas. O pensamento científico tenta explicar tudo a partir de teorias racionais. Mas a arte permite um outro contato com o mundo. Diversamente da compreensão científica, a aproximação de uma obra de arte se dá antes de tudo pela percepção, que é sempre indeterminada e ambígua.

A arte nos permite reatar o contato direto com o mundo antes de fazer qualquer reflexão ou análise. Com a arte, aprendemos a retornar às coisas, aos fenômenos que observamos, e podemos descrevê-los como os percebemos. Essa percepção não pode ser substituída pelo pensamento, nem derivada de uma teoria.(…)

Nenhuma visão ou percepção de arte pode esgotá-la de uma vez por todas, nem abarcá-la completamente. Toda arte é indeterminável; ela se oferece a nós parcialmente. Ela pode nos proporcionar sempre uma próxima experiência, um infinito recomeço. Essa experiência não pode ser dissociada do tempo, já que o nosso contato com ela acontece no tempo e na história. (…) A experiência da arte pode nos dar acesso pleno ao mundo.”

dilbert

A noção de esquerda e direita como opostos deriva, implícita ou explicitamente, da idéia que que há uma dimensão básica na política que explicaria ou orientaria o comportamento político das pessoas.

Deram essa idéia por sepultada com o fim do Marxismo, mas os estudos legislativos ao redor do mundo (clique aqui para uma breve introdução às técnicas desss estudos) têm mostrado que por volta de 80%, 90% dos votos dos legisladores nas câmaras é explicado por uma única dimensão, em geral (supõem-se) o contínuo esquerda-direita.

Pois bem. Acho que eu faço parte dos 10% que não se encaixa nesse reducionismo. A cada dia me sinto mais longe da esquerda, sem com isso me aproximar nem um milímetro da direita.

Eu acho que até ontem eu era o único que acreditava (em certo sentido) no livre comércio e era socialista. Já não acredito mais por causa das externalidades ambientais provocadas. Mas quem iria acreditar em livre-comércio sendo socialista?

Mas eu confesso que aí já é idiossincracia demais. Mas vejamos outros exemplos: não acredito em luta de classes, não acredito em revolução, gosto de competição, não acredito no surgimento de um homem completamente diferente do que existe hoje.

Mas acredito, por outro lado, que poderíamos viver numa sociedade menos consumista, mais sustentável, menos mercantilizadora, menos violenta, menos preconceituosa, feita de relações mais sinceras e menos cínicas.

Mas pra isso precisaríamos que as pessoas tivssem espírito artístico e científico, combinados na mesma pessoa.

Espírito artístico porque ele exige a experimentação, a necessidade de buscar um outro olhar para velhas questões, o auto-questionamento de si e dos outros, a necessidade da auto exposição ao público.

Espírito científico porque exigiria a crítica permanente, a dúvida e o questionamento, a não aceitação do que recebemos passivamente, a exigência do rigor na argumentação e na representação das idéias, a aceitação de um solo comum para o diálogo.

Mas eu reconhecço que é difícil e, possivelmente, tão utópico esperar isso dos homens quanto as utopias da esquerda que eu critico. Mas estou disposto a abandonar essa utopia se de fato ela for assim, uma miragem. Mas estaria também a esquerda?

Talvez eu seja apenas uma pessoa que gosta de ser do contra e tem dificuldade de concordar com todo mundo e fazer parte da onda que leva todos ao mesmo lugar. Talvez por isso goste tanto do poema do Frost, The Road Not Taken. Talvez por isso eu tenho vindo pra São Paulo e deixado Maceió. Talvez por isso eu tenha esolhido fazer filosofia após economia. Talvez por isso eu esteja agora tentando matemática. Talvez por isso eu larguei meu emprego no Mackenzie. Talvez por isso eu tenha decidido vender meu carro sem precisar do dinheiro. Talvez por isso não me contento com o mesmo caminho de todo mundo.

Mas se for isso mesmo, ainda assim haveria um lugar para mim. E seria justamente fazer as críticas que muitas vezes quem segue o caminho de todo mundo nao pode o não consegue fazer.

 Cartier-Bresson

Outro de mim mesmo

É um amor de exilado
Que dói nos olhos não no peito
Perseguindo-me como minha própria sombra

Já não posso mais voltar
Sem a mim mesmo me trair
E já não posso mais ficar
Sem aquele outro eu ser traído

Só posso sentir o auto-exílio
Desterrado noutra terra que agora é minha
Desolado de soslaio

Vivo minha própria guerra
abatendo a cada dia
um pedaço de mim mesmo
Andando léguas e léguas
Numa luta sem tréguas

Pergunto e repergunto
Inquiro e reinquiro
Será demais a um só
A política e a poesia?