Ainda na revista Dados, saiu um artigo de Tostes sobre o apoio dos eleitores aos (novos) partidos de extrema direita nos países ocidentais da União Européia. Como fiz no post anterior, vou fazer comentários metodológicos ao artigo.

É uma pergunta interessante entender as razões do crescimento dos partidos de extrema  direita (PEDs) em alguns países da UE. Porém, o artigo não me convenceu e vou explicar minhas razões.

1. A autora apresentou dados indicando um crescimento dos PEDs em alguns países. Porém, senti que faltou mais discussão teórica/substantiva. Por exemplo, pouco é discutido sobre como eleitores podem usar eleições menos importantes para sinalizar mensagens para as elites políticas.

2. Como no artigo anterior, a autora fala em teste z (no outro artigo, falavam em teste t). Normalmente teste z é para teste de hipótese com a distribuição normal. Mais uma vez, seria melhor uma linguagem diferente para efetivamente comunicar o método e permitir a replicação.

3. Ainda sobre o tal teste z. Eu confesso que não entendi o teste. Testes de diferenças de média em geral usam o teste t, pois a variância é sempre desconhecida. A mim não fez sentido o teste que aparece no texto.

4. De todo modo, mesmo se tudo foi feito corretamente no programa estatístico utilizado, ainda assim esse não é um bom teste a ser feito. Não quero repetir aqui a lenga lenga sobre p-valor, mas teste se a diferença de média é zero é pedir pra concluir que a diferença não é zero. Se a diferença verdadeira ( o famoso parâmetro) for 0,5, então um bom teste rejeitaria a hipótese nula. Porém, teríamos pouca significância empírica.

5. Saindo dos problemas abstratos do teste de média e entrando nos problemas concretos do artigo, noto primeiramente que a amostra é de 15 países, sendo 3 num grupo, e 12 no outro grupo, conforme a tabela 2. Ora, é evidente que a inferência estatística fica complicada com apenas 3 observações num dos grupos sobre o qual está se testando a diferença de média.

6. Problema talvez mais grave do que o anterior é o critério para seleção dos dois grupos para realizar o teste de média. A autora colocou no grupo A os países com média zero de suporte a PEDs e no grupo B países com suporte positivo a PEDs. Ora, é sabido que a amostra de cada grupo deve idealmente ser aleatória. Porém, mesmo quando não é, espera-se que o processo de seleção não viese os resultados. Porém, aqui a autora viesou os resultados de propósito.

7. A autora foi confusa no que tange à interpretação dos resultados. Por exemplo, ela afirma:

“a variável dependente do teste é o suporte dos eleitores, ainda que eventual e minoritário, a PEDs em países europeus ocidentais. Chamamos de suporte “a atitude de votar em PEDs”, independentemente do efetivo sucesso eleitoral em termos de aquisição de assentos nos Parlamentos nacionais”

E dois parágrafos adiante, ao analisar o resultado da tabela 2,

“O segundo resultado é o que se refere às variáveis de representação dos países-membros nas instituições europeias. As diferenças de médias, nesse caso, não apresentaram relevância estatística, mas, diferentemente das expectativas, apresentaram resultados positivos. O grupo dos países cujos eleitores mais tradicionalmente suportam PEDs possuem mais cadeiras no Parlamento Europeu e mais votos no Conselho, logo, possuem mais instrumentos de interferência nas decisões sobre as políticas regionais. Como a mudança no número de cadeiras e de votos no Conselho é muito pouca, e os dados, no caso dessas variáveis, variam mais raramente do que os demais, um exercício econométrico que considerasse uma série temporal longa seria mais preciso, o que poderia tornar os efeitos dessa variável mais esclarecedores”.

Eu confesso que não entendi a análise. A VD é o suporte (voto) dos eleitores a PEDs. Porém, acredito que na tabela 2 ela compara não o voto, mas o apoio tal como detectado em surveys do eurobarômetro etc. De todo modo, o problema é que ela fala em relações causais dessas variáveis (votos no conselho e assento no parlamento) tendo efeito em alguma coisa. Só que as variáveis eram VDs, não VIs. Como as VDs podem ter efeitos causais?

8. Outro problema da análise é perceber que a autora confunde significância estatística (ainda que precária, como vimos anteriormente), com significância empírica. Ela nota que a média de informações sobre a UE em um grupo é de 3,9%, e de 4,4% no outro grupo. Com uma média tão baixa, e com diferenças tão pequena, tem algum significado substantivo para o argumento dela sobre apoio as PEDs a informação sobre a UE? Além disso, mesmo que a diferença de médias fosse maior, há uma distância muito grande para fazer uma afirmação causal sobre o efeito dessa variável no apoio a PEDs.

Se  correlação (ou associação) não é o mesmo que causação, este é um exemplo claro. Quem garante que os mais informados não votam a favor da UE e são outras variáveis que explicam o apoio aos PEDs?

9. Minha conclusão geral é que o artigo ganharia muito mais se se resumisse a uma boa análise descritiva dos dados. O tempo gasto com um teste estatístico inútil e mal feito apenas torna o artigo confuso e não convence o leitor da tese principal.

Minha sugestão para o artigo é que, dado que o número de observações é baixo (15), que a autora escolha uma hipótese central apenas e aprofunde as investigações para corroborar essa hipótese. Testar o efeito de mais de 5 variáveis com 15 observações é inviável.

ps.: Há ainda outros problemas, mas esses me parecem os principais. Como de praxe, é mais fácil criticar que fazer bem feito. Porém, em minha defesa, a crítica aqui tem um papel construtivo, de refletir sobre artigos publicados em ciência política.

 

Nunca tinha ouvido falar da democracia líquida, até o momento. O nome não me agradou, pois faz referência aos tais “amores líquidos” e outras pós-modernidades que tem por aí.

Para os que querem saber uma poucos mais antes de clicar no link, eis um trecho do Blog onde vi o termo pela primeira vez:

“Como na democracia direta, a pergunta pode ser respondida por todo mundo mas, no caso da Democracia Líquida, a resposta pode ser “eu voto o que o fulano votar”. Cada pessoa pode escolher “assessores” para determinados assuntos, como os deputados fazem hoje.

Por exemplo, você não sabe nada sobre a matriz energética do Brasil e suas necessidades, mas tem um amigo engenheiro elétrico que sabe muito disso e que tem opiniões parecidas com as suas, então ele vira seu “assessor” em matérias de Energia: a não ser que você vote diretamente, o voto dele passa a valer um a mais. Ele, em determinadas questões, pode não estar completamente seguro sobre o assunto específico: ele é engenheiro elétrico, estão votando exploração do petróleo. Mas ele conhece um geólogo que entende e tem os mesmos valores que ele, então delega seu voto. O voto do geólogo passa a valer dois a mais (o seu e o do engenheiro elétrico).

Nos assuntos que te interessam mais e sobre os quais você entende melhor, você vota diretamente.

Se você simplesmente não se interessa por nada e não quer gastar seu tempo com isso, é só delegar tudo. Fica igual a nós todos hoje, com alguém votando tudo por nós sem nossa intervenção, com a exceção que, neste caso, quem vai votar por você serão pessoas que você conhece e com quem pode conversar pessoalmente se precisar, e você não precisa esperar 4 anos se quiser trocá-las.”

Agora você deve tá esperando meu comentário (possivelmente crítico), já que eu sou um cientista político! Acontece que teoria de democracia não é exatamente minha área. Vou pensar no assunto um pouco e faço um comentário mais detalhado depois.

Lembro apenas que todos os sistemas de agregação de preferências ou de escolha de alternativas, são imperfeitos em pelo menos dois sentidos:

1. Sempre é possível que alguém fique melhor não apresentando suas verdadeiras preferências (o famoso voto útil)  (teorema Gibbard-Satterthwaite)

2. Uma questao fundamental na democracia é quem escolhe a agenda, tanto do ponto de vista da distribuição de poder, omo também para que o sistema seja eficiente, isto é, que as decisões vencedoras sejam estáveis ao longo do tempo.

3. Segundo esse texto, a democracia líquida usaria o método do approval votting. Me agrada o método do approval votting, pois de fato me parece melhor que os atuais (como o do Brasil, que tem segundo turno).

Salvo engano, a academia brasileira não participa da blogosfera. E não estou necessariamente falando em participar de blogs como o do Nassif ou PHA. Estou falando em terem blogs próprios e/ou comentarem/lerem os blogs uns dos outros.

Pra falar a verdade, não posso falar da academia em geral, pois desconheço completamente o que se passa em outras áreas que não a ciênica política. Então, tudo o que disser (e já falei aí em cima) vale só pra política.

Uma razão possível para a quase inexistência dessa participação é que, bem, blogar custa tempo e os professores precisma pesquisar e dar aulas. Isso seria uma boa razão, aparentemente.

Mas, sinceramente, descarto essa possibilidade por duas razões. Uma é que nos EUA, onde os professores são claramente mais produtivos (qualitativamente e quantitativamente), os principais nomes da ciência política norte-americana tÊm blogs ou, quando não têm, comentam uns nos blogs dos outros.

Em segundo lugar, os cientistas políticos dos EUA usam os blogs para analiar a política de lá ou internacional com o conhecimento que têm e para discutir artigos deles e dos outros com os leitores e alunos, melhorando assim sua capacidade analítica, de exposição e conhecimento.

Claro que a minha evidência empírica não é sistemática, isto é, minha amostra é viesada, não é representativa da academia de lá e também aqui posso desconhcer alguns blogs de cientistas políticos. Mas o que me chama a atenção é ver que as maiores feras de lá participam dessa blogosfera, e aqui no Brasil, não.

O úiltimo exemplo que topei foi com uma discussão entre Keith Krehbiel e Nolan Macarthy, no blog do último, sobre a mudança da partido de um senador chamado Specter, que virou democrata. Fiquei sabendo da discussão pelo blog The Monkey Cage. E querem saber? Às vezes aprendo mais lendo alguns desses blogs e outros (especialmente do Gelman) que lendo alguns papers ou indo em seminários aqui no Brasil.

Não é que uma coisa substitua a outra, mas é cansativo ver que enquanto aqui, a maior parte dos professores são funcionários de universidadas públicas e se limitam a trabalhar para um público restrito, e lá fora o conhecimento produzido é cada vez mais compartilhado com um público maior. E não falo só dos Blogs não, falo também da disponibilização das aulas gravadas em universidades como Harvard e Yale.

Se alguém tiver alguma explicação para esse fenômeno, por favor compartilhe conosco. Quero entender a cabeça de avestruz que é a ciência política brasileira.

Tempos atrás, o Manoel comentava comigo sobre grandes nomes da política e economia brasileira darem pitacos em vários assuntos baseado em muitas vezes pelo senso comum.

Em geral, os assuntos que eles abordavam não estavam no núcleo dos seus estudos e mesmo assim eles não se furtavam a responder perguntas sobre o tema, mesmo sem dados que comprovassem essas opiniões. Muitas vezes, opiniões fortes e incisivas.

Lendo a Revista Veja da semana, vejo um pitaco do Francis Fukuyama sobre a política na América Latina, principalmente no Brasil. Ele começa falando sobre os presidentes “populistas” (termo utilizado por Veja) de Equador, Bolivia e Venezuela e prossegue analisando o caso brasileiro:

Por que o Brasil, onde as desigualdades sociais também são profundas, consegue evitar o populismo? Porque o Brasil é mais estável. É um estado federativo, com experiência na descentralização do poder. Além disso, o consenso a respeito da importância da participação política é muito maior na sociedade brasileira do que na maioria dos outros países da região.

Mas brasileiros vivem às turras com seus políticos… O problema no Brasil é o Legislativo. As regras eleitorais dificultam a formação de maiorias no Congresso, o que força os presidentes a criar coalizões com diferentes partidos. Um presidente brasileiro jamais tem uma maioria no Congresso, como o presidente Obama tem nos Estados Unidos. Além disso, os partidos brasileiros não têm disciplina. Isso é terrível. Os partidos não podem forçar seus membros a seguir a orientação do líder, o que obriga o presidente a fazer acordos paralelos. Esse modelo favorece a corrupção e dificulta a aprovação de leis.

Os grifos são meus, mas Fukuyama fala com todas as letras que os partidos políticos não têm disciplina.

Para o Manoel, que é mestre em ciência política, eu pergunto: existe dados que provem isso? Fukuyama pode afirmar algo assim?

Resposta (de Manoel): Na verdade, os dados mostram o contrário do que o Fukuyama está falando. Em primeiro lugar, os presidentes brasileiros desde a redemocratização formam maioria estáveis no congresso.  A taxa de sucesso (medida pelo percentual de leis enviadas pelo executivo e aprovadas) é alta e comparável às principais democracias do mundo. Não surpreendentemente, desde a promulgação da constituição em 88, já tivemos mais de 50 emendas constitucionais aprovadas, que exigem 3/5 dos votos (super maioria)! Por exemplo, estimou-se (em 1997) a probabilidade estimada de uma proposta enviada pelo executivo ser rejeitada, e esta era de míseros 2%. Atualizações para dados mais recentes chegam mais ou menos ao mesmo número.

Em segundo lugar, os partidos políticos são sim disciplinados.  Medindo disciplina como a porcentagem dos votos de deputados de um partido do governo que seguem a indicação do líder da bancada do governo, mesmo o PMDB no governo Lula pós mensalão tem taxas de 70%, 75% (numeros de cabeça). Pra se ter uma idéia, em regimes parlamentaristas, não é raro partidos com taxas de 90%. Usando dados de 1989 até 1999 (incluindo portanto Collor e Itamar, supostamente mais frágeis) a taxa média de disciplina é de  89%. Mais uma vez, atualização para o governo Lula mostra números parecidos.

Para o leitor do Blog interessado em conferir por si mesmo os estudos, basta procurar os artigos produzidos pela dupla Argelina Figueiredo e Fernando Limongi, disponíveis em sua maioria ao público, pelo scielo.  É ridículo que o Fukuyama fale uma bobagem dessas sobre o país. Bastaria ele se matricular no curso de Política I, do primeiro semestre de graduação do curso de ciências sociais da USP, para aprender esses fatos básicos.

update: para o leitor interessado, um boa visão mais recente (2006) pode ser encontrada aqui.

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Fiquei devendo, a pedido do Humberto, um posto sobre referências a respeito do tema desenvolvimento econômico e instituições.

Bom, segue algumas leituras que acho fundamentais.

Começaria com o livro do Easterly, The Elusive Quest for Growth. É um livro bom porque ele revisa as teorias do desenvolvimento desde os anos 50 até os 80 para um público não especialista. Minha única crítica é que o ceticismo dele à La Hayek acaba por fazer-nos concluir, no final, que não há boa política pro desenvolvimento. Mas isso é, em si, uma política, e temos um contradição interna.

A segunda referência é o livro do Przeworski et. al. Democracy and Development. Um dos co-autores (Limongi) é professor meu na Ciência Política na USP. O Livro é um primor na discussão dos limites metodológicos das ciências sociais. Os achados são ótimos e é muito rigoroso. Além de brilhante. Falta um pouco de teoria nele, mas ninguém tem teoria, então o problema não é só dos autores. Está desatualizado em algumas técnicas estatísticas, mas ainda assim vale a pena.

Por fim, acho que vale ler os artigos recentes do Acemoglu. Tem um texto dele em que ele compara o desenvovimento nos últimos 500 anos a partir de proxies para o desenvolvimento (taxa de mortalidade, tamanho das cidades etc.). Só acho que ele acaba concluindo aquilo que aprendemos no Colégio e depois aprendemos que era errado: As diferenças entre Brasil e EUA é que fomos colônias de Exploração e eles de Povoamento (tá, eu forcei a barra aqui, mas só um pouco).

Possivelmente também os textos clássicos do Douglas North, que eu não li nenhum e preciso ler.

E aí, mais alguma coisa importante que eu esqueci?