O discurso da mudança sem mudanças?

Torre de Babel

Faço parte de um coletivo, o Ecologia Urbana, que tem um Blog, o ecourbana, aqui mesmo no wordpress. Lá escrevi um texto, que acabou considerado grande pelos colegas do movimento. Nada de texto grande no Blog, pois as pessoas querem lê-lo. E texto sem foto ou imagem também não dá, sentenciou-se. Afinal, queremos passar a mensagem e temos de facilitar a vida do leitor, devem ter concluído todos. Que silogismo, não?

Como corolário, a idéia de que temos que fazer tudo à holywoodiana, pois é assim que as pessoas vão nos entender. É o que elas gostam e vão ver/ouvir.

Mas eu penso que esse tipo de postura decorre na verdade de uma total incompreensão da verdadeira natureza da mudança política, artística etc. Não me senti a vontade para discutir o assunto na reunião do movimento, pois não temos tempo para essas discussões intermináveis, temos que fazer as coisas – não, ninguém disse isso, mas é como sinto o espírito do movimento. Nada contra fazer coisas, mas esse zêlo em fazer e atingir as massas, no final, me faz pensar se é a estratégia correta.

Mas, sinto-me à vontade para colocar aqui minha impressão e visão das coisas. Inclusive para os próprios amigos e colegas lerem. Ei-la então.

A idéia de que temos que adequar a mensagem ao público, tornando-a mais didática possível, tem um aspecto positivo óbvio: se estamos nos comunicando é porque queremos ser entendidos. Logo, é melhor usar o meio mais adequado para tal. Daí a preferência pelo didatismo. Como subproduto, ou então uma outra forma de pensar o assunto, é dizer que é necessário ser claro. Mas, tal como entendo as coisas, clareza não quer dizer facilidade nem didatismo.

Nesse sentido, e procurando esclarecer o dito acima, comecemo por uma frase do Gláuber, sim, o Rocha: Ninguém tem que entender tudo no filme. Ninguém entende tudo de uma pintura e isso não é um problema. Então, porque querer entender tudo no filme? Nem tudo é pra ser entendido assim, com clareza.

Não sei se o Gláuber estava opondo sentimento a entendimento, e certamente ele discutia o paradigma romanesco literário como base para interpreta/avaliar um filme, quando defendia que o comparativo deveria transcender esses limites mais estreitos da obra escrita, especialmente a prosa. De todo modo, importa para mim a idéia de que nem sempre o objetivo da peça de comunicação é o entendimento límpido e claro da mensagem. A concatenação das partes tal como ela se apresenta ao receptor da mensagem, formando o todo, pode ser em si um dos objetos da comunicação, donde pode ser necessário sacrificar um pouco a clareza da idéia transmitida para salvaguardar a forma da mensagem.

Mas isso quando se trata de arte, dirão alguns, e eu até aceito que vale predominantemente para a arte. Mas se é assim, porque discutir uma comunicação que não é artística, mas política? Porque há, penso, um outro componente, mais sútil, na questão.

Voltemos então à sugestão de fazer uma comunicação à hollywodiana. Qual o problema? Bem, acontece que a comunicação envolve duas possibilidades: ou se comunica algo novo, ou se comunica algo já conhecido. Se já é conhecido, é redundante. Porém, se é algo novo, temos um problema. Pois a comunicação perfeitamente clara pressupõe o completo entendimento da mensagem. Ora, mas se há algo de verdadeiramente novo, há uma impossibilidade prática de colocar todo o novo em termos de uma linguagem antiga. Pois se fosse possível colocar em linguagem antiga o novo, não seria de fato verdadeiramente novo.

Então, é preciso achar a palavra justa, capaz de permitir uma passagem a menos acidentada possível entre o velho e o novo. Em suma, um texto que vai ter que recorrer ao contexto para poder ser entendido. Mas se é assim, é patente a inadequação de uma linguagem holywoodiana para uma mensgaem nova.

Lembremos que a linguagem tipicamente holywoodiana é aquela que entrega ao telespectador aquilo que ele já conhece. O que ele compra é mais do mesmo. E todos os clichês devem ser utilizados numa combinação adequada para entregar mais do mesmo, satisfazendo as demandas de reconciliação pressupostas pelo código moral, político e estético do telespectador. Daí porque, ao final, o mocinho deve ter um final feliz, o bandido tem de ser punido e a mocinha redimida de seus erros. Assim, numa sociedade puritana, a mocinha jamais fará sexo com outro que não o mocinho. O código moral puritano não aceitaria um final feliz para tal mocinha. Ela não poderia ser redimida, a não ser com uma morte ou algo do tipo (basta ler lucíola, para entender). Não por outro motivo a utilidade das pesquisas de marketing, avaliando, dentro do código estabelecido do telespectador, o que ele espera, aceita e não aceita. Mesmo não sendo uma ciência exata, dá alguma estabilidade.

Mas notem bem os dois elementos cruciais desse tipo de comunicação: 1) a aceitação do código e conhecimento previamente existente do receptor da mensagem, ao qual cabe se adequar. 2) a necessidade de recorrer a clichês para que justamente se consiga atingir aquilo que ele já conhece.

Voltemos então ao nosso caso. Faz sentido uma política de mudança que apele exclusivamente àquilo que o ouvinte já conhece e está acostumado, sancionando seus códigos morais, artísticos, éticos e políticos? Faz sentido pressupor uma identidade fixa, formada, a qual temos de conhecer o melhor possível para então adequar a mensagem a ela, se o que queremos é justamente mudar essa identidade, concebê-la como algo fluido, mutável e inconstante? Não é uma contradição nos termos? Não é um destino para o fracasso?

Não se segue disso, contudo, que não temos de fazer um esforço para sermos claros nem tampouco é um elogio a obscuridade. A obscuridade não é sinônimo de algo novo e de qualidade, mas justamente da incapacidade de acertar na difícil arte de combinar a transmissão de algo novo tendo de recorrer a uma mistura de signos conhecidos que devem, contudo, adquirir novo significado no novo contexto.

É essa tensão entre o velho num novo uso que faz com que algumas palavras e frases sejam metafóricas por um tempo, enquanto são novas, até que adquiram um significado literal, quando então estarão incorporadas como algo conhecido.

Com isso concluímos que a clareza é mais difícil do que parece num contexto de mudança, mas mais necessária do que nunca. Porém, isso não implica nem deve implicar uma submissão total aos códigos do receptor da mensagem. Ao contrário, deve exigir do emissor uma capacidade estética de combinar, de forma revolucionária, os códigos antigos com os novos propostos, a tal ponto que consiga estabelecer o novo, no futuro, como o novo costume.

Pode ser que o texto que eu publiquei no Blog, por ser longo, e por não ter imagem, não fosse a expressão mais bem acabada dessa estética da transformação capaz de aliar clareza com mudança num alto nível. Pode ser que os aspectos antigos que devem ser conservados sejam justamente a importância da imagem e do pequeno tamanho dos textos para atingir o seu público. Em suma, pode até ser que a crítica tenha acertado o alvo. Mas nunca pelos motivos alegados. E, o que é pior, apesar de eventualmente ter mirado errado e por acaso acertado no alvo, se aconteceu foi por mero acaso e não é de se esperar que essa perspectiva venha a obter sucesso. O discurso da mudança pressupõe… bem, mudança. Pode parecer óbvio, mas isso deve se refletir em todos os níveis do discurso. E isso não é fácil.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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4 respostas para O discurso da mudança sem mudanças?

  1. ecourbana disse:

    Pode comentar?

  2. mgaldino disse:

    Claro. Foi para receber comentários que eu postei.

  3. Proview disse:

    Eu parcialmente discordo =p

    Tipo depende muito do público-alvo, mas sendo mudanças no sistema virgente, então o público-alvo é a massa, que não vai se adaptar as mudanças na linguagem e formato do texto, sendo necessário o autor se adaptar a massa, talvez não completamente para não banalizar o texto. Usando a comparação pintura x filme, é por isso que não vemos grandes apreciadores de pintura dentro da massa, porque é “complexo” p/ eles e eles não gostam de coisas que não entendem, ignorando-as. Por isso Hollywood faz filmes seguindo a receita, pq o público-alvo pede isso. Nem sei se vc vai chegar a ler, mas enfim… hehe

  4. Drenagem disse:

    bem legal seu blog…gostei….

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