Anti-depressivos e a prática científica

Esquema da serotononia no Cérebro, Lacasse e Leo (2005), PLos.

Há várias notícias nas últimas semanas na imprensa questionando a eficácia dos anti-depressivos, tomando por base estudos científicos que foram publicados nos principais journals médicos do mundo.

No New York Times saiu uma reportagem com base no artigo da equipe liderada por Turner e publicado no New England Journal of Medicine. Agora mais recentemente saiu um artigo na Folha de São Paulo e na BBC Brasil, na mesma linha do artigo do NYT, mas baseado em outra publicação, por outro grupo de cientistas, este liderado por Kirscher. O artigo da equipe liderada por Kirscher, publicado na PLoS Medicine, está disponível na versão on-line do journal (clique aqui). Há ainda um outro artigo, que também vale ser lido, embora pouco comentado.

Pra resumir a história, os estudos científicos sobre os efeitos dos anti-depressivos são feitos comparando o efeito do medicamento com o efeito do placebo, isto é, remédios que não contém substância alguma, as famosas pílulas de açúcar. O ponto é que nem quem receita o medicamento nem quem o toma sabe se está usando um placebo ou um remédio verdadeiro (é o que se chama de experimento duplo cego).

Só que se só forem publicados os estudos positivos, teremos uma distorção da realidade, pois às vezes um estudo dá um resultado positivo apenas por causa de fatores aleatórios. Assim, apenas com muitos estudos diferentes dando resultados similares é que se chega algo mais consensual. Se porém apenas os estudos positivos são publicados, acredita-se que há uma tendência geral de ter efeito da droga sobre o paciente quando não há efetivamente.

Mal-comparando, seria como selecionar os melhores momentos de um jogador, gravar num vídeo e mostrar para você dizendo: isso aí retrata a qualidade desse jogador. Ora, se selecionarmos só os melhores momentos de um jogador, ele parecerá melhor do que efetivamente é. E não saberemos efetivamente quão bom ele é, pois não sabemos qual a verdadeira freqüência com que jogadas como as apresentadas ocorrem, nem a regularidade do jogador. O mesmo acontece com os estudos. Continuarei a discutir o assunto e tentarei ler os estudos com mais cuidado. Assim poderei fazer um comentário mais cuidadoso sobre eles.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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4 respostas para Anti-depressivos e a prática científica

  1. Marcel disse:

    Alguns tipos de depressão já foram diagnosticadas como biológicas e não como psicológicas. Portanto, para alguns casos antidepressivos são parte fundamental do tratamento.

  2. Manoel Neto disse:

    Marcel,

    saiu um texto no times disutindo o tema. Parece ter uma posição mais próxima da sua. Farei um comentário a ele e também ao seu posto quando tiver mais tempo. Segue o link do texto do times:
    http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/camilla_cavendish/article3448700.ece

  3. Marcel disse:

    Sim, mas não estou dizendo que 100% dos tipos de depressão são curadas por remédios, há sim as que demandam tratamentos psicoterápicos. Mas há depressões que são causadas por falta de uma substância (ou da produção dela) no organismo, e o antidepressivo seria o mecanismo para recompor essa substância.

  4. mgaldino disse:

    Marcel,

    eu não disse que anti-depressivos não funcionam. Apenas questionei o viés de publicar artigos científicos mostrando que anti-depressivos funcionam quando tem os artigos dizendo que eles não funcionam. Claro que cada artigo que foi publicado e que não foi publicado tem sua peculiaridade e não é correto generalizar. Quer dizer, temos várias drogas no mercado, além de vários tipos de problemas depressivos.
    Vale a pena ler o que o Bem Goldacre escreveu, na coluna bad science. Tem um link no nosso blog.
    abçs
    Maceió

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