Caso ou acaso?

Diante das reportagens sobre os estudos de efeito dos anti-depressivos, no Blog do Nassif houve vários comentários de pessoas afirmando coisas como: pode funcionar em alguns casos. Só sabem quem toma anti-depressivo. Pra minha tia funciona etc.

Porém, esse tipo de reação, conquanto compreensivo do ponto de vista emocional, mostra a total incompreensão sobre o funcionamento da ciência. O que também explica alguns comentários sobre fenômenos quotidianos que poderiam ser evitados.

Basicamente, o erro fundamental desse ponto de vista é desconsiderar que há fatores aleatórios em quase tudo na vida, desde os fenômenos naturais, até sociais e psicológicos. Isso porque, se há fatores aleatórios, sempre é possível que um fenômeno qualquer observado se dê por causa de fatores aleatórios e não por algum outro fator determinista.

Mas se é assim, quando observamos um único caso não podemos saber se é por fatores aleatórios ou por outro fator qualquer que está causando aquele fenômeno – como observar minha tia tomando depressivo, ver que ela melhora, e não saber se ela melhorou porcausa do remédio ou outros fatores aleatórios.

O exemplo mais trivial disso é se alguém pensar positivo – pedindo dinheiro por exemplo-  e obtiver o o que pediu pelo pensamento positivo. Como saber se foi o pensamento positivo ou se foi o mero acaso que gerou aquele resultado?

Por isso que é necessário observar muitos e muitos casos. Isso porque, após muitas observações, os acasos tendem a se cancelar. No popular, o azar tende a ocorrer tanto quando a sorte. Por isso que um jogador que tem um ou dois anos muito bons (como Ronaldinho Gaúcho) no terceiro ano acaba piorando seu desempenho. Apesar de todo mundo sempre dizer que é por falta de motivação, baladas ou porque está mais visado, pode simplesmente ser algo mais trivial: apesar de todo o talento, no ano bom o acaso favoreceu ele (aquela bola que desvia no zagueiro e entra, o passe errado que dá certo, a bola que bate na trave e entra, o goleiro que falha etc.). Porém, no longo prazo, o acaso deve “zerar” e após sucessivos acasos bons, a probabilidade de “azar” aumenta, reduzindo assim o desempenho do jogador.

Desse modo, apenas mediante a observação sistemática de muitas observações, poderemos saber efetivamente se algo aconteceu por mero acaso – mera chance – ou se há algo mais por trás de um fenômeno. Obviamente a prática científica vai além disso. Por exemplo, a prática científica requer não somente muitos casos, como também o controle para discernir que fatores determinam um fenômeno. Mas esse é assunto para um outro post, onde discutirei o chamado efeito placebo.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para Caso ou acaso?

  1. Proview disse:

    Sabe que esse texto me lembrou de uma conversa que tive com os meus amigos em Maceió, quando me disseram q ‘sorte’ não é algo científico =p

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