Conto “À TOA”

Caros,

posto abaixo um conto, escrito por mim mesmo em ritmo quase frenético e finalizado há poucos minutos. Dá três páginas de word ou 10.000 caracteres. Leiam e digam se gostam.

por Manoel Galdino:

À Toa

 

Dois amigos, Paulo e Joaquim, voltavam para suas respectivas casas se entretendo numa animada conversa. Estiveram num bar em perdizes até tarde da noite com amigos, onde puderam conversar sobre vários assuntos, desde os mais sofisticados até as brincadeiras mais pueris. Era uma noite agradável que se finalizava de forma agradável.

 

A conversa era tão animada – isso à despeito da hora já avançada – que um dos amigos – Paulo -, que estava dirigindo, esqueceu-se de pegar o caminho da casa de Joaquim e foi em direção à sua casa. Apenas passado algum tempo perceberam o erro e quão concentrados estavam na animada discussão. Discutiam teorias conspiratórias sobre o 11 de setembro, com um dos amigos defendendo vigorosamente o papel da CIA por trás dos ataques, enquanto o outro assumia o papel do cético.

 

Mas não se preocuparam muito com o erro de percurso, pois moravam pertos e era fácil corrigir o caminho. Contornando à direita e depois à esquerda, bastavam passar o próximo semáforo e já estariam na rota correta. Não deram mais importância ao ocorrido e, enquanto retomavam a discussão, o carro fazia as correções de rumo.

 

Eis que então, parados no semáforo, à espera do sinal verde, dois carros postados lado a lado começam a produzir sons típicos de gritaria. Ambos os carros se encontravam imediatamene em frente ao carro onde estavam os dois amigos. Naturalmente a atenção deles é chamada para o que está acontecendo.

 

Uma pessoa, sentada no banco do passageiro da frente em um corsa branco põe a cabeça do lado de fora e grita com pessoas no carro ao lado:

  • Desça do carro e venha dizer isso para mim aqui fora se você for homem!

Sons não muitos distiguíveis de resposta são ditos por alguém do outro carro, mas os amigos imaginam que é alguma resposta desafiadora.

     

    Então, pessoas de dentro do corsa branco começam a descer do carro e andam viogorosamente em direção ao outro carro, um gol vermelho. Mas andam com aquele ar de violência, com passos ritmados e com o corpo e a cabeça levemente inclinados para a frente, como que para impor respeito e mostrar destemor. Surpreendentemente começam a sair pessoas e mais pessoas do carro. Um carro que parecia à primeira vista vazio vai se mostrando como um poço sem fundo de onde vão saindo várias e várias pessoas, umas após as outras. A cena parece uma daquelas de desenho animado quando um personagem tira do bolso inúmeros objetos de tamanhos inimagináveis, que não poderiam caber num bolso de uma calça. Mas com uma correção na metáfora: a cena não era nada engraçada.

     

    Essa cena se parece com muitas outras que já vimos milhares de vezes; tantos os relatos que já ouvimos a respeito da violência urbana ou no trânsito. Na verdade nem precisamos ter presenciado ou visto nos jornais, pois essa formidável máquina que é o cérebro já formou imagens em nossa mente com todo un enrendo e um grand finale. E tudo se passa em nossas mentes como um filme repetido da sessão da tarde em que já sabemos as cenas mais importantes.

     

    Paulo começa a imaginar se algumas das pessoas não estará armada. Se não correm o risco de uma bala perdida atingi-los. Pensa em sair dali o mais rápido possível. Olha para os lados, tentando visualizar rotas de fuga. Há um carro ao seu lado que o impede de ultrapassá-los pela esquerda. Do lado direito há uma calçada, mas pode ser uma má escolha se esse movimento brusco precipitar as coisas ou incitar os outros a acharem que querem participar da confusão. Rapidamente lhe vem a idéia de dar marcha à ré e sair dali. Engata a ré. Na escuridão da madrugada sente a luz da ré acendendo na traseira do veículo e iluminar o caminho. Olha no retrovisor para evitar carros e começa a acelerar o carro vagarosamente. Então vê aquelas luzes redonda vindo em sua direção. A princío não distingue nada e imagine se não estara morto a essa altura. Mas é um caminhão amarelo que vem na direção deles e pára exatamente atrás do carro onde estão. Não há mais a opção da ré. Todos os lados encontram-se bloqueados.

     

    Enquanto isso, a confusão continua entre os ocupantes dos dois carros. Há gritos e ameaças, mas nenhuma violência física ainda. De repente os membros do gol vermelho começam a sair do carro. O que parecia um carro com apenas um ou dois ocupantes mostra-se um carro cheio de gente. Não se sabe se isso alivia a tensão – pois pelo menos a luta será justa em número de oponentes – ou se apenas piora a situação, pois parece ser maior a chance de tudo sair errado com mais gente envolvida. Nesse momento muitas cabeças parecem pensar piores do que uma.

     

    Joaquim, rígido em seu banco do passageiro se agarra ao banco com as mãos, enquanto suas pernas enrijecem. Um enrigecimento similar ao início do espasmo, mas sem o relaxamente violento que se segue ao início do espasmo e que faz do espasmo um espasmo, não um enrijecimento de músculos. Não fala nada. Apenas olha para os lados em busca de uma saída e não a encontra. Olha para o seu lado direito e vê a calçada e o poste que não lhe faculta um caminho. Olha para os outros lados e torna a olhar para a calçada, talvez visrumbrando que deve haver alguma chance por ali, pois há espaços vazios. Talvez seja o caso apenas de pensar em como desviar do poste. Ou então quem sabe não alimente a esperança de vê algo que não vira anteriormente e que lance luz como rota alternativa. E quem sabe poderá dizer: – Paulo, pega a calçada e vai por ali!.

     

    Mas quanto mais olha para a calçada após passar em revista outras possibilidades, mais vê frustrada suas esperanças e mais alimenta a certeza de que não há nada a fazer. Cogita sair do carro a pé, deixando-o abandonado na rua a sua própria sorte. Pouco lhe importam a essa altura os perigos das ruas de são Paulo às três horas da madrugada. Mas pondera que essa não é uma bosa saída, pois os ocupantes dos carros à frente – agora já fora dos carros e não mais ocupantes – podem partir para cima dele, imaginando que vai se intrometer. Ou qualquer coisa do tipo.

     

    Decide ficar no carro e esperar, pois não lhe parece haver alternativa melhor. O sinal parece ainda estar vermelho, mas já não sabe se já não torna a ficar vermelho após ter ficado verde e ninguém ter saído do lugar. Parece que todos se quedam paralisados, como que por um veneno que os impede de sair do lugar. Talvez seja a morte chegando e que os impede de sair, ou então nada mais nada menos que a biologia do corpo humano que diante do pavor faz todos paralizarem.

     

    Paulo avisa assustado, mas ainda parecendo transparecer calma, que uma deles está armado. – tem uma armado, tem um armado – repete Paulo, não tão calmo assim, ainda que com voz baixa. Uma voz mais baixa do que quando discutiam o papel da CIA no 11 de setembro, o que pode revelar sua calma ou tão somente o temor de chamar a atenção de aluém e evitar, quem sabe, que alguma bala os atinja.

     

    A tensão evidentemente é crescente. Um dos ocupantes do gol vermelo e que apenas agora sai do carro pelo lado do motorista vai em direção ao outro lado e dá a volta no carro pela parte de trás. Ao passar pelo porta-malas parece que vai abri-lo e tirar uma arma de lá. Faz um movimento leve em direção ao porta-mala, como que tentando disfarçar o seu intento, mas não passa do seu andar ritimado. Segue em frente e vai em direção ao grupo do corsa branco que se encontram discutindo com um dos membros do gol vermelho, do lado da porta frontal do passageiro. Foi apenas um susto.

     

    De repente, como que superando o veneno que os quedava paralisados, um pálio cor vinho surge aparentemente do nada e começa a se mover. Parece que era esse pálio que os impedia de saírem pelo lado esquerdo. No entanto, nos seus olhares assutados em busca de uma fugam só conseguiram observar vultos e verstígios de carros bloquendo saídas, mas não seus contornos definidos e cores. Então, o pálio vinho se movimenta uma pouco para a frente, abrindo uma lacuna nos carros enfileirados, propiciando uma nova rota de fuga. Rapidamente Paulo, que já tirara há tempos a marcha a ré, engata a primeira e coloca o carro no espaço vazio.

     

    Contudo, o pálio vinho parece querer assistir à cena mais de perto e, inimaginavelmente, não anda quando há a possibilidade de seguir em frente e se posiciona paralelamente ao corsa branco e parece prestar mais atenção ainda ao que está acontencendo.

     

    Desesperado no carro, Joaquim deseja gritar para o pálio vinho ir embora e imagina apertando uma buzina. Mas rapidamente desiste da idéia, pois uma buzina ali, quando só se ouviam buzinas de carros ao longe, lá atrás, e que certamente não sabiam do que ocorria, poderia precipitar tudo. Como que numa conexão mental entre todos os veículos que ali estavam, ninguém buzinava nada nem fazia nada. Paulo então, talvez ouvindo os susurros mentais para não buzinar, desesperadamente corta luz para o pálio vinho, gritando em sussuros para ele seguir em frente.

     

    O pálio anda mais um pouco, pára novamente, anda mais um pouco, pára novamente, e não se concebe como é possível andar tão pouco tendo andado tanto. Mas ele ainda impede a passagem dos carros. Até que finalmente ele sai da frente, abrindo caminho para os que vem atrás. Paulo acelera rapidamnte, mas ainda tomando o cuidado para não fazer movimentos excessivamente bruscos com o carro, como uma arrancada. Cruzam o semáforo e vão embora.

     

    Joaquim nem nota se o semáforo estva verdade. Tudo para ele parecia ter demorado muitos minutos e não conseguia nem mesmo olhar para trás. Paulo ainda deu uma última olhada pelo retrovisor, quando acelerava e trocava a marcha novamente em direção à casa de Joaquim. Aliviados, finalmente começavam a relaxar seus músculos. Joaquim se ajeitava no seu banco, saindo da posição algo corcunda que assumia quando ficava tenso. Enquanto isso, Paulo se encolhia um pouco saindo da posição espichada que assumia quando nervoso.

     

    Próximos à casa de Joaquim, quase atropelam um cachorro que tentara cruzar a rua em plena madurgada. Mal sabiam eles que aquele cachorro estivera tão próximo da morte por um motivo à toa. Seu dono, uma criança, esquecera-o do lado de fora de casa e o cão acordou e foi dar uma volta às três da madrugada.

     

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    Sobre Manoel Galdino

    Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
    Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Manoel Galdino e marcado , , . Guardar link permanente.

    4 respostas para Conto “À TOA”

    1. Proview disse:

      Eu sou péssimo em comentar esses contos hehe

      Gostie do estilo leve embora meio tenso! Sim eu fiquei tenso… Me imaginei no lugar de Joaquim (alias teria a mesma reação q ele hehe).

      Quanto ao conteúdo, eu não sei bem o q interpretar… =p
      Digo talvez o título tenha me induzido a super-estimar a importância do Cachorro no texto ou talvez ele seja de fato muito importante, embora eu não tenha certeza disso…

      No final não disse nada de útil hehe
      Só que gostei do Conto!

    2. marcelusp disse:

      Vc não superestimou o cachorro, pelo que vi, o cachorro realmente tem função importante no texto.
      O texto realmente passa tensão ao leitor!

    3. disse:

      Duas perguntas:
      – Será que o conto tem algo a ver com algum episódio da realidade? OU é mera ficção? Talvez o autor esteja assistindo muito filme hollywodiano antes de dormir ou se concentrando muito na parte policial do jornal…
      – E o ser cachorro?

      Em breve mais comentários, vamo pra balada!

    4. Diego disse:

      Fala Manoel!
      Não sabia que vc era um contista de mão cheia. Bela novidade. Quer dizer então que vc tá partindo pros EUA? É o êxodo…
      Parabéns pelo blog,
      abraço,
      Diego

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