O Marxista mais marxista de todos

Acabo de dar uma rápida olhada num texto marxista de Rodrigo Teixeira, que discute alguns temas interessantes e atuais do capitalismo, a saber: a chamada economia do conhecimento, com suas patentes, direitos autorais, marcas etc. que vi no blog de um amigo. O texto é um crítica a um outro texto de Eleutério Prado, em que este autor faz uma aproximação entre o dinheiro ganho com as patentes e o dinheiro (juros) ganho com empréstimo de capital.

O artigo parece-me bom no que tange a uma discussão da correção da interpretação que Prado faz de Marx, mas é só isso. Quer dizer, é uma boa discussão sobre a leitura correta de Marx, mas isso é para mim insuficiente.

Além disso, há algumas passagens, que me parecem excessivamente preocupadas em ser marxistas e dialéticas na forma, mas que não se explicam as coisas que são ditas. A esse respeito, vejam essa passagem:

“Entretanto, o que falta é exatamente uma abordagem dialética do capital portador de juros enquanto mercadoria. Se quisermos seguir a terminologia de Keynes, chegaríamos ao seguinte juízo: “o valor de uso da máquina é … o ganho que ela proporciona (q – c)”. Mas isto é incorreto, pois falta aqui a mediação. Dialeticamente, nesse tipo de juizo, só o predicado é posto e o sujeito se nega nele (daí, graficamente a necessidade da colocação das reticências, já que se trata de um juízo de reflexão14). Só podemos fazer tal afirmação ao custo de perder justamente a distinção entre a máquina como meio de produção e o dinheiro enquanto elemento inescapável para o acesso a qualquer meio de produção, ou, em outras palavras, ao custo de perder a distinção entre o dinheiro como valor por excelência, como mercadoria absoluta, e as mercadorias ordinárias.” (p. 28, grifos meus).

Notem que minha implicância não está com o fato do autor achar relevante uma abordagem dialética. Mas está no fato de que isso se transforma apenas em uma caixa de ferramentas mais formal do que substantiva de falar das coisas. Em outras palavras, não se vê qual é o ganho efetivo de uma abordagem dialética e o autor inda parece se perder em questões lógicas-gramaticais que apenas obscurecem a questão.

Vejam a frase: “Mas isto é incorreto, pois falta aqui a mediação. Dialeticamente, nesse tipo de juizo, só o predicado é posto e o sujeito se nega nele (daí, graficamente a necessidade da colocação das reticências, já que se trata de um juízo de reflexão)”. A nota diz que Fausto analisa os diferentes tipos de juízo, inclusive o de reflexão, mas, qual o significado disso mesmo? E qual a relevância substantiva – que é o que importa?

Analisem a passagem. “Falta Mediação”, diz o autor. Mas que mediação? Qual é a mediação que falta? Mediação refere-se a um meio que media duas pontas. Qual é esse meio? O autor não nos diz. Mais para frente tenta explica a mediação que faltaria, mas não explica. Não falta mediação. Pode faltar outra coisa, mas não mediação. Em seguida, ele diz ainda: “nesse tipo de juizo, só o predicado é posto e o sujeito
se nega nele”. Que tipo de juízo? Ele replicará, juízo de reflexão. Mas o que faz desse juízo um juízo de reflexão – seja lá o que isso for – e não um outo juízo qualquer?

E o que quer dizer que “só o predicado é posto e o sujeito se nega nele”? Minha implicação aqui não é com o aspecto formal. Basta (e esse é um grande basta) ler a Fenomonologia do espírito para ver a passagem do sujeito no predicado, que é o que imagino quer dizer o autor quando fala em sujeito se negar no predicado. Mas não é porque na Fenomenologia – e n’O Capital, vá lá – há esse tipo de esquema formal que se está autorizado a sair por aí achando isso tudo em todos os lugares.

Por que diabos haveria aí negação do sujeito no predicado? Não há. Ou, pelo menos, o autor não faz esforço para demonstrar que há. Ele só transformou a dialética numa caixa de ferramentas capaz de ser aplicada indistintamente a todos os objetos. A dialética não está nos objetos, ele não descobre no objeto dele, mas a coloca lá, de fora. Que é, parece-me, um problema de mutios marxistas, que ficam tão preocupados em parecerem marxistas, dialéticos etc., que esquecem do substantivo.

Do ponto de vista de uma leitura correta de Marx, o que mais me chamou a atenção foi a leitura da passagem dos Grundrisses de Marx tão citada, segundo a qual o tempo de trabalho deve deixar de ser a fonte da riqueza. Teixeira sugere que nessas e noutras passagens, Marx está pensando no aspecto de valor de uso da produção (e da riqueza) e não no aspecto da valorização da produção. Lembrem do duplo caráter da mercadoria – valor de uso e valor de troca.

É interessante como leitura. Pareceu fazer sentido. É uma pena que o artigo enfoque mais na questão da correção da leitura de Marx do que em analisar até que ponto essa leitura correta seria adequada à realidade. Particularmente quanto algumas questões da contemporaneidade, a saber:

1. Fala-se muito em custo fixo da produção baseada no conhecimento, mas há efetivamente sunk costs, ou custos irrecuperáveis. Faz diferença isso?

2. Há também, parece-me, uma confusão entre alguns produtos (bens de consumo) imateriais e o conhecimento como insumo da produção. Como produto (bem final) o custo de reprodução é baixo, mas não zero (há o tempo, além de alguns custos irrecuperáveis, como o computador e saber mexer nele). Como inusmo, o conhecimento tem que estar na cabeça dos homens e é custoso para se repassado para outros. Ou seja, é razoavelmente custoso reproduzir uma medicamento por exemplo, pois requer certo conhecimento para sua produção, ainda que a produção do medicamento envolva custos irrecuperáveis na sua produção (P&D). Já o Windows tem custo de reprodução baixo, próxim ode zero (mas não zero). Qual o impacto dessas diferenças para a produção desses bens?

Em resumo, tudo se passa como se o importante fôssemos ser fiéis a Marx e ao que ele disse, inclusive sendo dialéticos. Mas tudo isso parece artificial e colocado de fora, sendo esquecido que o importante mesmo – como era para o Marx – é a realidade mesma e nosso entendimento dela. Não há disussão empírica sobre posições diferentes – sobre a visão de Keynes e de Marx, por exemplo. Há apenas a tentativa de apontar a incorreção de uma leitura de Marx. É importante, mas insuficiente.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , . Guardar link permanente.

4 respostas para O Marxista mais marxista de todos

  1. Tomas Rotta disse:

    Manoel,

    Acho que você tocou em um ponto muito importante. No tomo I de “Marx: Lógica e Política”, Ruy Fausto nos alerta para a tendência de transformar a dialética em lógica externa, sendo vítima justamente daquilo que ela mais critica. Como a F.E. de Hegel nos mostra, a dialética é uma lógica interna aos objetos e fruto de problemas práticos e empíricos enfrentados pelos indivíduos. Mas daí não se segue que devemos tudo ver como se fossem objetos contraditórios, universais-concretos.

    Se a dialética acusa a lógica do entendimento de ser formalista, pois externa, ela mesma corre o risco de também se transformar em lógica externa quando se quer usá-la independentemente do que o objeto lhe diga. Ou seja, transforma-se a dialética em puro formalismo, e que ainda aparenta ser algo rigoroso. É rigor que se interverte em não-rigor.

  2. mgaldino disse:

    Caro Tomás,

    O Ruy “me” falou isso uma vez, numa aula do Vladimir Safatle em que ele foi convidado a fazer uma exposição sobre a Fenomenologia. Aliás, falou pra sala isso numa pergunta minha. E no entanto, apesar dele saber que a dialética não é pra isso, tenho a impressão que no fundo, a contra gosto, ele acaba transformando a dialética num método externo ao objeto dele.
    É a tal da história do conceito ir contra a própria intenção do autor. De todo modo, um juízo desse requeriria mais estudo, por isso que coloquei como uma impressão.
    Obrigado pelos comentários, concordo 100% com você.
    abraços
    Manoel

  3. Rodrigo disse:

    Manoel,

    Tudo bem? Fico feliz que tenha lido o meu artigo. Não vou aqui entrar nos detalhes da sua análise nesse momento, apenas queria destacar dois pontos da sua crítica. O primeiro é que ainda que haja o perigo de se cair numa noção de “método dialético” puramente abstrato (questão também levantada corretamente pelo Tomás), deixar de lado a questão da lógica dialética ao ler Marx já produziu as distorções do estruturalismo, marxismo analítico e também do marxismo de cartilha do partido comunista da União Soviética. Em minha tese, a partir da qual produzi esse artigo (que nela é apenas um apêndice, conforme voltarei adiante), a dialética não é usada apenas para dizer que estou sendo dialético ou o “marxista mais marxista”, a questão lógica remete claramente a questões fundamentais no plano teórico, por exemplo a não considerar a renda do conhecimento como sendo da mesma natureza dos juros e também a possibilidade lógica de autonomização do capital portador de juros, outro ponto da tese que não trato no artigo. Ali fica claro que a dialética está intrinsecamente ligada ao seu objeto, no caso o objeto dinheiro, que orienta toda a discussão no capítulo anterior a este no qual trato da renda do conhecimento. O segundo ponto que destaco é sua crítica ao fato de que o texto não trata de questões substantivas ou da realidade. Na verdade, o texto é parte de uma tese cujo objetivo final é discutir a economia brasileira contemporânea em particular sob a ótica da teoria da dependência. Esse artigo é apenas um texto extraído de uma seção de um capítulo da minha tese (e também por isso a dificuldade de explicar tudo em detalhes, como vc se queixou, pois 70 páginas na tese tinham que se transformar em 25 no artigo. Creio que é necessário se questionar então a forma artigo). Assim, este texto não se esgota em si, trata-se apenas de primeiro resolver controvérsias teóricas para justificar o uso de uma abordagem, a da noção de dominância financeira, que vinha sendo criticada pelo professor Eleutério Prado no seu livro “Desmedida do valor”, que acabou resvalando também numa crítica ao professor Ruy Fausto quando ao interpretar o texto dos Grundrisse sobre a Maquinaria e Grande indústria, fala de um terceiro momento, a pós-grande indústria, no qual o tempo de trabalho abstrato estaria deixando de ser a substância do valor. Ou seja, essa discussão era necessária na tese porque não poderia simplesmente usar a noção de dominância financeira simplesmente ignorando as críticas do professor Eleutério. Mas ela não é o objetivo último da tese. Assim, pediria que vc lesse a tese para que possamos aprimorar o debate sobre as questões substantivas, pois também concordo que o mais importante não são as controvérsias teóricas, mas sim o debate sobre a nossa realidade. A seção de onde extraí o artigo, em minha tese, cumpre apenas a primeira tarefa. Mas a segunda também está lá. Fico feliz pois já apresentei esse artigo no encontro da ANPEC e no mês passado no encontro de Economia Política, e tenho recebido muitos elogios no que diz respeito à solução de controvérsias teóricas a que o texto se propõe, que é como tratar o conhecimento na produção capitalista bem como a produção capitalista do conhecimento. A tese pode ser baixada no site de teses da USP: http://www.teses.usp.br.

    Um abraço e obrigado por ter dedicado espaço a esse debate no seu blog.

    Rodrigo Teixeira

  4. Lucia disse:

    Por favor me informe onde encontrar a em Marx referencia de
    “[…] conhecer é conhecer objetos que se integram na relação entre o homem e o mundo, ou entre o homem e a natureza, relação esta que se estabelece graças à atividade prática humana.”
    grata
    Lucia

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