Reflexões sobre A luta de Classes

Participando e observando a esquerda socialista, percebo que há algumas palavras que não saem do discurso político do atores políticos. Luta de classes, vanguarda, partido, proletariado, exploração do homem pelo homem etc. Há como que uma relação sentimental com essas palavras, de tal forma que abrir mão delas é como abrir mão de uma identidade.

Porém, uma tal relação, parece-me, impede uma reflexão adequada sobre o significado desse discurso, sua efetividade e até onde ele nos leva. Se não acho que o meu mundo é a minha linguagem, certamente acho que meu mundo é limitado em grande parte pela minha linguagem. Tô em linha com o pensamento de Orwell tal como exposto em 1984. Mas deixemos essa discussão mais abstrata para nos concentramos em uma questão (um pouco) menos abstrata: o conceito de luta de classes.

O problema, a meu ver, fundamental, com o conceito de luta de classes é que: é um conceito totalizador . Não que eu seja um pós-moderno, avesso às grandes narrativas e todo esses blá blá blá. Mas o problema, concretamente falando, é que a luta de classes implica necessariamente em categorizar as pessoas numa classe ou noutra. Implica em conceber as coisas como disputa de classes. Em suma, como uma guerra.

É claro que há efetivamente opressão e disputa de poder no mundo, e a crítica à concepção de luta de classes não pode partir da negação dessa verdade. Porém, penso que essa é uma verdade unilateral e, como tal, não é toda a verdade.

Toda dominação é também uma relação de dependência entre dominador e dominado, e, por mais que as coisas sejam melhor para a turma do andar de cima, ainda assim não é algo unilateral. O senhor que manda no escravo é dependente do escravo, do mesmo modo que a “patroa” quando explora a empregada doméstica depende dela, inclusive para explorar. Isso não ignifica que a relação entre ambas seja de igualdade. Seria tolice pensar que é.

Porém, quando se pensa numa reestruturação das condições de trabalho e que impactará na forma como a “patroa” domina a empregada, há aí um eixo de disputa que pode tanto se revelar como no arquétipo da luta de classes, como também em outra disputa – que chamarei de disputa por um outro olhar.

Um outro exmplo é ilustrador do que quero dizer. Quando, durante o Nazismo, alguns alemães ajudavam alguns judeus a jugirem e outros não, o que estava em jogo era a forma como se olharia o judeu. Ele poderia ser visto como um pai de família, como um filho, como um trabalhador etc., enfim, como um igual. Mas também poderia ser visto como o outro, espelhando tudo aquilo que um alemão comum detestava – ladrão, destruidor da pátria, causador de falências etc. Então, no fim, tudo se resumia ao olhar que se teria a respeito daquele que ali estava. Potencialmente, qualquer olhar era possível.

Penso que a tarefa da esquerda, nesse sentido, não é alimentar o ódio de classes numa disputa fratricidade com os nosos iguais – que antes de serem capitalistas e trabalhadores são seres humanos -; mas é lutar por uma rediscrição do olhar sobre cada um de nós para com todos, reconhecendo que nese processo muitas vezes iremos fracassar e que esse fracasso dará ensejo a uma guerra entre posições entricehiradas, com olhares de classes um sob o outro.

Nesse sentido, a luta de classes não passa de um momento da luta geral pela redescrição da forma como olhamos o outro. Um momento de fracasso em que não podemos recuar para não aceitar a opressão, mas ao mesmo tempo que será marcado pela tristeza do fracasso que implicará em rejeitar toda a complexidade humana para reduzi-la a uma categoria de guerra.

É muito como que a esquerda se agrupe em torno daqueles que pensam iguais, para juntos, se regojizarem dos mesmos diagnósticos sobre o outro. E assim continuamos a lutar por um mundo em que o outro não seja um igual, mas um diferente que é meu inimigo. E assim reproduzimos o fracasso de uma política que não consegue deixar de ser tão unilateral quanto a própria concepção que é sua base, a concepção da luta de classes.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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