Filosofia e Sociologia no ensino médio

Recebi, via RSS, um texto de um blog que defende o ensino de filosofia e sociologia no ensino médio. Até sou a favor. Mas com certeza não é pelos motivos que o autor expõe. Eis o porquê:

Antes de mais nada, esclarecimento, para que os argumentos de autoridade não tenham vez aqui e não venham dizer que falo porque não estudei filosofia – aliás não deveriam ter nunca: sim, eu estudei filosofia (graduação).

1. “Não há instrumento mais valioso para o ensino da expressão escrita do que noções de lógica – o que inclui a lógica da não-contradição, a lógica transcedental e, sim, a lógica dialética.”

Pelo contrário, a impressão que tenho é que apenas quem não estudou lógica nos cursos de filosofia é que acha que cursos de lógica ajudarão a organizar pensamento. Cursos de lógica não ajudam a organizar pensamento. Quando muito, ajudam a pensar matematicamente. A lógica está em todo canto, e não é preciso aula disso pra ensiná-las aos alunos.
O nosos idioma, o português, por exemplo, é lógico. Se uma paroxítona terminada em A não se acentua, então a oxítona se acentua. É uma relação lógica de exclusão. Basta aprender acentuação em português e o porquê, que já se terá ido mais longe na lógica do que com cursos de lógica.

2. “aulas de filosofia não são a mesma coisa que aulas de história da filosofia; que é perfeitamente possível ensinar uma coisa antes, ou de forma relativamente independente, da outra; que é factível lecionar rudimentos de pensamento dialético, por exemplo, a um grupo de alunos que ainda não está em condições de ler a Fenomenologia do espírito”.

Esse tipo de pensamento é o que acho que faz mais mal do que bem aos alunos. Não dá pra explicar a dialética e fazer o aluno ter a ilusão de que entendeu do assunto. O conhecimento é difícil, requer esforço, inteligência e tempo de maturação. Não se aprendem coisas fáceis de modo fácil e do dia para a noite. Melhor seria ensinar ao aluno desde cedo que o conhecimento é como uma deusa que é preciso conquistá-la todos os dias, com dedicação.  É por essas e outras que hoje em dia ninguém liga de sair por aí falando asneira. Virou quase uma qualidade falar asneira sem se importar com isso. São pessoas desinibidas, motivadores, que sabem falar em público. misturam um conhecimento superficial de um assunto com achismos e lugares comum e o que temos: um discurso pseudo-intelectual sofisticado, que engana somente os incautos incultos. são os tempos espetaculares, é verdade, mas defender essa prática?

Com relação à história da filosofia vs filosofia, tenho apenas o seguinte a dizer: sim, pode-se ensinar filosofia sem referência à história da filosofia. Mas o que se ganha com isso? Não é melhor apresentar a filosofia no seu sentido histórico, como um grande diálogo no qual os pensadores dialogam com a tradição do pensamento, ao invés de criar as coisas num vácuo, do nada? Não é melhor ensinar aos alunos que o pensamento se insere numa tradição e que nós estamos inseridos nessa tradição, e dar exemplos disso?

3. “Minha filha de 8 anos tem aulas de filosofia desde os 5, com um excelente professor. É uma de suas matérias favoritas. Estão, agora, trabalhando a questão da temporalidade. Não, não estão lendo Bergson. Começaram com perguntas bem básicas, sobre o que fazem agora e não faziam dois anos atrás. Daí se puseram a pensar o que não fazem agora e passarão a fazer no futuro. Amanhã, visitarão um asilo de idosos para conversar com eles sobre o tempo”.

Acho ótimo esse tipo de prática com os alunos. Eles têm de reaprender a se surpreender com as coisas, pensar abstratamente, investigar, ser crítico e etc. Mas isso não é filosofia nem sociologia. É uma formação educacional adequada. Não deve ficar restrita a pseudo aulas de filosofia e sociologia. Qual a filosofia em se perguntar o que se faz agora, mas não se fazia antes?

Em suma, não acho que seja por esses motivos que filosofia e sociologia devem fazer parte do ensino médio. Devem fazer parte porque é bom conhecer o pensamento filosófico e sociológico. É bom para nos entendermos como sociedade. É bom para abrir os horizontes. É bom para enriquecer nosso vocabulário. É bom para ajudar a enraizar o estudante na cultura ocidental, da qual fazemos parte, pro bem e pro mal. Em suma, é bom pelo mesmo motivo de que educação e conhecimento sempre são coisas positivas em si, e não porque servem como meios para atingir um outro fim quaquer.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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8 respostas para Filosofia e Sociologia no ensino médio

  1. Silvano disse:

    Falou bem.
    Eu tinha gostado do texto supracitado, mas realmente fui um desses incautos incultos que você falou (alias adorei o termo =p).

    Eu tive filosofia no colégio, e muito pouco dela foi agregado a história da filosofia (embora tenha tido aulas sobre o trio grego mais famoso, descartes, nieztche, kant, entre outros, estas foram poucas nos 6 anos em que tive essa matéria) e realmente era uma de minhas amtérias preferidas e acho que me ajudou a desenvolver um certo de senso crítico. Mas talvez eu tenha superestimado a matéria.

    De qualquer forma concordo com você!

  2. Manoel Neto disse:

    Não sei se você superestimou a matéria. O problema é que ela não devia ser a unica (nao sei se foi) a estimular o senso crítico. Até matemática é pra estimular o senso crítico. Basta ver o meu blogue pra ver quantos posts de estatísticas eu coloco aqui, e relaciono com erros de raciocínios comumentes cometidos. Sabendo estatística, probabilidade, aprendemos a nao cair em algumas canoas furadas.

    Ok, estatística e probabilidade não é matemática, mas no ensino médio não tem essa diferenciação.

  3. Diego disse:

    Maceió,

    Acho que seu argumento segue um ponto de vista muito técnico da filosofia. Aliás, acho que o ponto de vista técnico é um problema grave do ensino médio brasileiro. A matemática, por exemplo, é ensinada como uma série de corpos teóricos, dos quais o aluno deve tomar conhecimento e fim de papo. Isso pode ser verdade para matemáticos, mas não é verdade para o resto da população, que deve entender não quais são os corpos teóricos, mas por que eles existem, ou seja, que tipo de aporias eles vêm resolver.

    É por isso que sou obrigado a concordar com o Idelber e discordar de você em relação, por exemplo, ao ensino da dialética. Ao adolescente, você não precisa ensinar todas as sutilezas da dialética hegeliana. Quem tem que entender isso é o professor, não o aluno, a não ser que o aluno queira virar filósofo, e aí ele que vá aprender dialética na universidade. No ensino médio, ensinar dialética não implica nem mesmo mencionar a palavra DIALÉTICA… É expor os alunos ao fato de que existe uma maneira de entender o mundo que não é meramente linear, e que o aluno deve estar sempre de olho aberto para isso. Esse é o intuito da filosofia do ensino médio. Não é criar um monte de filósofos de bar que saem arrotando Hegel, desses que a gente vê tanto por aí.

    Sobre a questão da história, o que o Idelber quis fazer foi uma crítica ao modo mais preguiçoso, logo comum, de dar aulas de filosofia, e que é uma derivada desse ponto de vista técnico de que falei acima. Primeiro vieram os pré-socráticos, procurando a arkhè, depois os sofistas que ganhavam para ensinar, aí Sócrates e Platão, buscando as verdades eternas, depois Aristóteles, classificando a natureza, duas palavras sobre a filosofia helenista e os medievais e caímos em Descartes, a descoberta do Sujeito, quem sabe falar um pouco de Leibniz, mas o importante é cumprir o programa, então Opa, Kant descobre que não podemos dizer se Deus existe ou não, olha Hegel aí falando do movimento histórico, Nietzsche critica a racionalidade e oba, chegamos no século XX, que tem Heidegger, Sartre, existencialismo, muito bem, revisem tudo, prova. Onde está a filosofia nisso tudo? Não estou dizendo que é isso que você defende. Mas é isso que costuma acontecer nos cursos de filosofia baseados em história. Aliás, é só se lembrar da escola, aposto que a sua também era assim: Literatura: quinhentismo, renascimento, barroco, neo-classicismo, que mais… ah sim, Madame Bovary, romantismo, Byron, simbolismo, Baudelaire, vamos falar do Brasil um pouco? OK, então José de Alencar, que merda, bom mesmo é Machado, viva, temos um escritor, aí vêm os modernistas dizendo que tudo isso era tolice (e não foi nada disso…), Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, rápido, o ano está acabando e ainda temos que fazer essa molecada de 15 anos ler o Grande Sertão e o São Bernardo, putz, nem mencionamos Clarice Lispector… Onde está a literatura?

    Sobre a lógica, acho que você inverteu a cadeia causal. O fato de que toda língua tenha uma estrutura lógica (é claro que tem, mas pra entender por que isso é tão evidente, é necessário conhecer Wittgenstein, não uma gramática) não significa por si só que ela confira a seu usuário uma capacidade de raciocínio lógico. Isso seria absurdo; se fosse verdade, não existiriam tantos erros de raciocínio e a lógica não seria necessária. Já entendi que você só estudou um tipo de lógica na faculdade (proposicional, suponho). Por isso você diz que lógica só ajuda a pensar matematicamente. Lógica ajuda a entender quais são as armadilhas do pensamento em que caímos sempre, ajuda a entender por que é tão importante discernir claramente no discurso o que é substância e o que é modo, mostra como podemos cair em erros (às vezes até por querer…) ao não deixar claras as fronteiras de cada elemento que evocamos, expõe os pecados de quem acha que chegou a um sistema perfeitamente coeso, mas só chegou mesmo foi a uma tautologia e, finalmente, explica exatamente qual é o papel de coisas como a ontologia e a estatística, que por sinal foi uma criação fantástica da humanidade pra lidar com a impossibilidade do rigor de definição, mas que virou uma ferramenta pra dizer qualquer bobagem, simplesmente por falta de conhecimentos de… lógica. Como economista, você deve ter se deparado com esse tipo de situação milhões de vezes.

    Maceió, desculpe a grosseria, mas se você não sabe onde está a filosofia em se perguntar o que se fazia antes e não se faz agora, considerando que é para uma criança de oito anos, você precisa repensar sua concepção da filosofia. Você não espera que se comece ensinando a crianças de oito anos quais são os três modos da temporalidade de Heidegger, imagino. Mas essa é uma forma corretíssima e brilhante de demonstrar o problema da temporalidade a alguém que simplesmente não tem memória de quase metade da própria vida (minha memória mais antiga é de quando eu tinha três ou quatro anos, e é só uma passagem muito esfumaçada). E o problema do tempo está na base de TODOS os outros problemas filosóficos. Os professores da filha do Idelber estão de parabéns, estão corretíssimos.
    Do jeito que você está colocando, parece que o ideal é que se ensine filosofia (e sociologia, claro) da mesma maneira como hoje se ensinam a matemática, a literatura, a física, a biologia e assim por diante no Brasil. (Putz, acabei de lembrar das aulas sobre a anatomia das flores. Não lembro nada daqueles nomes…) É técnico, é errado, o tempo que os alunos deveriam usar para aprender essas matérias, eles perdem acompanhando a lenga-lenga tecnóide do nosso ensino…

  4. Diego disse:

    PS: Esses emoticons bizarros não fui eu que coloquei, não!

  5. hum….
    Boa Reflexão…
    Vou postar no Blog como um texto seu em resposta ao meu, pode ser?
    Só voi tirar o vocativo Maceió, ali em cima…

    Com relação aos comentários, tenho o seguinte a dizer:
    1. Ok quanto à história da filosofia.
    2. Quanto ao que você falou de ensinar dialética, expondo que há várias formas de raciocinar, não sei porque, insisto, isso tem que ser matéria de filosofia. Isso cabe a todos os professores. Matemática dá uma forma de ver o mundo, literatura outra…
    3. Com relação à lógica, não entendi muito bem, creio. Eu tive lógica proposicional e aristotélica. Regras do silogismo etc. Mas não consigo mesmo ver como isso ajudaria um aluno de segundo grau.
    Eu continuo insistindo que é em português que deveríamos aprender lógica. Embora eu não tenha dito que sabendo português se aprende lógica. Mas que a língua portuguesa é lógica (mais od que o inglês, pelo que me parece) e que os textos obedecem a um nexo lógico. Então, na leitura do texto, na grmática etc., é possível aprender a relação entre argumentos, como argumentar, argument ode autoridade, o papel da evidência empírica, o que é essencial num texto ou acessório.

    É claro que isso estará presente na filosofia, mas deveria estar fundamentalmente presente nas aulas de português e lieteratura.

    4. Estatística. Eu acho que se fala bobagem em estatística ou por desconhecimento de estatística ou por falta de Bom senso, e não por falta de lógica.

    5. Eu não sei bem quão errado está o ensino atual. Eu acho que ele é errado quando pressupõe que todos aprendem do mesmo jeito. Agora, com relação ao conteúdo em si, tem um monte de coisa que eu não lembro, mas gostaria de lembrar. Eu acho que muitas vezes é por meio da técnica que aprendemos o substantivo da coisa. Não vejo essa dissociação. É fazendo muit oexercício de matemática que depois aprendemos a extrapolar o que de início era meramente mecânico.

    Eu não estou aqui defendendo a decoreba e ensino baseado em não fazer o aluno pensar por si mesmo. Pelo contrário. Mas a técnica precisa estar junta do espírito crítico. Um sem o outro me parece vazio.

    Na verdade eu não tenho muita certeza disso tudo. Por exemplo, do seu parágrafo inicial, que dissocia alguns conhecimentos teóricos de matemática das aplicações práticas dela. Será que não devemos mesmo ensinar abstratamente, pela beleza que é a própria matemática em si? Será que não devemos juntar as duas coisas?

  6. Pingback: Ensino de Filosofia e Sociologia II, A missão! « Blog Pra falar de coisas

  7. G. Ferreira disse:

    Prezado Manoel.

    Gostei de teu comentário a respeito do texto do Avelar. Também dei o meu pitaco aqui (http://interesse.wordpress.com/).

    Conversemos.

    Abraço.

  8. Eber disse:

    Penso que antes de tratarmos do modo de se ensinar filosofia e sociologia no ensino médio, deveríamos resolver o problema geral da educação como um todo.

    Falo das turmas com mais de quarenta alunos; da falta de estrutura familiar de certos alunos, fazendo que o professor e a escola abandone em parte sua verdadeira função, que é a educação formal, para se dedicar, aos sermões e “castigos”; dos professores mal preparados, mal formados, mal pagos; das escolas caindo aos pedaços, sem poder sequer oferecer aos professores e alunos materiais importantes, como recursos visuais, “xerox” grátis dos textos necessários, etc.

    Resolvido os problemas “físicos”, teríamos que passar aos problemas estruturais. Como a educação massificante, voltada exclusivamente para a formação de mão de obra, que é um fracasso no mundo inteiro. Onde os alunos são induzidos a se formarem para se tornarem competitivos no mercado, onde se aprende ciências somente para tentar passar nas provas de concurso, vestibulares etc. O que se deve fazer, por exemplo, com o aluno que possui um péssimo comportamento, mas ao mesmo tempo seria um bom musico? Ou um desenhista, um artista plástico, um esportista? Ou até mesmo, um bom pedreiro, um agricultor, etc.? A escola obriga toda a diversidade humana presente em uma sala de aula a aprender o mesmo, levando em conta somente fatores econômicos, e não o desenvolvimento humano de cada um. O mercado de trabalho os obriga toda a forma de ciência, porque hoje em dia, até mesmo para o cargo de pedreiro há pré-requisito escolar. Nada contra tais profissões! Nunca! Eu mesmo já as exerci, e a sociedade não passa sem elas! O que não aceitável, é impingir certos conhecimentos inúteis à quem a exercerá.

    Somente citei problemas. Para soluções, há duas que são a base todas as outras: DINHEIRO, investimento maciço do estado. E uma mudança radical dos modos de vida contemporâneo, que a educação só busca reproduzir. Se um aluno dizer em voz alta na sala de aula, “Eu quero ser pedreiro!”, todos os outros alunos, até mesmo o professor, o olhará de “nariz torcido”. O considerarão “perdedor”.

    Percebem a complexidade da situação? Por qual motivo o Estado investiria pesado numa educação que pretende remodelar a base existêncial dos indivíduos, fazendo-os desacreditarem nas “regras do jogo”? Citem um exemplo de uma escola considerada “excelente” pelos meio de avaliação, que não possua em seu currículo o tal “empreendedorismo”! Não que este deva ser descartado. Mas não deve ser o único modelo. Sabe-se que qualquer instituição teme mudanças, transformações, prezam sempre o “status quo”.

    É um paradigma de difícil solução. Mudanças começam com educação, mas por sua vez, a educação necessita de mudanças. E quem seria seu financiador nunca esteve interessado, nem estará! Me dirão “Ah, mas nos países de primeiro mundo…”. Lá também a educação é um fracasso, verdadeira fabrica de deprimidos de colarinho branco, que gastam, consomem absurdamente para aliviar o “vazio existêncial”. Ou seja, nada mais conveniente do que essa fabrica de consumidores neuróticos.

    Por isso, mais importante do que o método de ensinar filosofia e sociologia, é o “mundo” em que estamos inseridos, o que eles espera, e o que podemos oferecer para o bem, não da sociedade, mas para os indivíduos que torna “real” e não somente um nome. Qualquer ciência, se não movida por uma curiosidade genuína daquele que a busca, ou quando tomada somente como um instrumento financeiro, é vã, fútil, sem sentido, desligada de suas raízes.

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