Ensino de Filosofia e Sociologia II, A missão!

O Diego escreveu uma resposta ao meu comentário sobre ensino de filosofia e sociologia no ensino médio. Como foi interessante, posto abaixo:

Por Diego:

Acho que seu argumento segue um ponto de vista muito técnico da filosofia. Aliás, acho que o ponto de vista técnico é um problema grave do ensino médio brasileiro. A matemática, por exemplo, é ensinada como uma série de corpos teóricos, dos quais o aluno deve tomar conhecimento e fim de papo. Isso pode ser verdade para matemáticos, mas não é verdade para o resto da população, que deve entender não quais são os corpos teóricos, mas por que eles existem, ou seja, que tipo de aporias eles vêm resolver.

É por isso que sou obrigado a concordar com o Idelber e discordar de você em relação, por exemplo, ao ensino da dialética. Ao adolescente, você não precisa ensinar todas as sutilezas da dialética hegeliana. Quem tem que entender isso é o professor, não o aluno, a não ser que o aluno queira virar filósofo, e aí ele que vá aprender dialética na universidade. No ensino médio, ensinar dialética não implica nem mesmo mencionar a palavra DIALÉTICA… É expor os alunos ao fato de que existe uma maneira de entender o mundo que não é meramente linear, e que o aluno deve estar sempre de olho aberto para isso. Esse é o intuito da filosofia do ensino médio. Não é criar um monte de filósofos de bar que saem arrotando Hegel, desses que a gente vê tanto por aí.

Sobre a questão da história, o que o Idelber quis fazer foi uma crítica ao modo mais preguiçoso, logo comum, de dar aulas de filosofia, e que é uma derivada desse ponto de vista técnico de que falei acima. Primeiro vieram os pré-socráticos, procurando a arkhè, depois os sofistas que ganhavam para ensinar, aí Sócrates e Platão, buscando as verdades eternas, depois Aristóteles, classificando a natureza, duas palavras sobre a filosofia helenista e os medievais e caímos em Descartes, a descoberta do Sujeito, quem sabe falar um pouco de Leibniz, mas o importante é cumprir o programa, então Opa, Kant descobre que não podemos dizer se Deus existe ou não, olha Hegel aí falando do movimento histórico, Nietzsche critica a racionalidade e oba, chegamos no século XX, que tem Heidegger, Sartre, existencialismo, muito bem, revisem tudo, prova. Onde está a filosofia nisso tudo? Não estou dizendo que é isso que você defende. Mas é isso que costuma acontecer nos cursos de filosofia baseados em história. Aliás, é só se lembrar da escola, aposto que a sua também era assim: Literatura: quinhentismo, renascimento, barroco, neo-classicismo, que mais… ah sim, Madame Bovary, romantismo, Byron, simbolismo, Baudelaire, vamos falar do Brasil um pouco? OK, então José de Alencar, que merda, bom mesmo é Machado, viva, temos um escritor, aí vêm os modernistas dizendo que tudo isso era tolice (e não foi nada disso…), Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, rápido, o ano está acabando e ainda temos que fazer essa molecada de 15 anos ler o Grande Sertão e o São Bernardo, putz, nem mencionamos Clarice Lispector… Onde está a literatura?

Sobre a lógica, acho que você inverteu a cadeia causal. O fato de que toda língua tenha uma estrutura lógica (é claro que tem, mas pra entender por que isso é tão evidente, é necessário conhecer Wittgenstein, não uma gramática) não significa por si só que ela confira a seu usuário uma capacidade de raciocínio lógico. Isso seria absurdo; se fosse verdade, não existiriam tantos erros de raciocínio e a lógica não seria necessária. Já entendi que você só estudou um tipo de lógica na faculdade (proposicional, suponho). Por isso você diz que lógica só ajuda a pensar matematicamente. Lógica ajuda a entender quais são as armadilhas do pensamento em que caímos sempre, ajuda a entender por que é tão importante discernir claramente no discurso o que é substância e o que é modo, mostra como podemos cair em erros (às vezes até por querer… ao não deixar claras as fronteiras de cada elemento que evocamos, expõe os pecados de quem acha que chegou a um sistema perfeitamente coeso, mas só chegou mesmo foi a uma tautologia e, finalmente, explica exatamente qual é o papel de coisas como a ontologia e a estatística, que por sinal foi uma criação fantástica da humanidade pra lidar com a impossibilidade do rigor de definição, mas que virou uma ferramenta pra dizer qualquer bobagem, simplesmente por falta de conhecimentos de… lógica. Como economista, você deve ter se deparado com esse tipo de situação milhões de vezes.

Maceió, desculpe a grosseria, mas se você não sabe onde está a filosofia em se perguntar o que se fazia antes e não se faz agora, considerando que é para uma criança de oito anos, você precisa repensar sua concepção da filosofia. Você não espera que se comece ensinando a crianças de oito anos quais são os três modos da temporalidade de Heidegger, imagino. Mas essa é uma forma corretíssima e brilhante de demonstrar o problema da temporalidade a alguém que simplesmente não tem memória de quase metade da própria vida (minha memória mais antiga é de quando eu tinha três ou quatro anos, e é só uma passagem muito esfumaçada). E o problema do tempo está na base de TODOS os outros problemas filosóficos. Os professores da filha do Idelber estão de parabéns, estão corretíssimos.
Do jeito que você está colocando, parece que o ideal é que se ensine filosofia (e sociologia, claro) da mesma maneira como hoje se ensinam a matemática, a literatura, a física, a biologia e assim por diante no Brasil. (Putz, acabei de lembrar das aulas sobre a anatomia das flores. Não lembro nada daqueles nomes…  É técnico, é errado, o tempo que os alunos deveriam usar para aprender essas matérias, eles perdem acompanhando a lenga-lenga tecnóide do nosso ensino…

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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