Aquecimento Global, uma vez mais

Saiu esses dias, na Folha de São Paulo, na página 3, artigo de um físico (clique aqui para lê-lo), prof. José Carlos Azevedo, doutor pelo MIT, descendo o cacete na tese do aquecimento global antropogênico (para mais sobre essa tese, clique aqui e aqui). Eu, que não sou doutor em nada, nem sou da área de climatologia e afins – relacionadas aos estudos do aquecimento global – queria discutir o artigo. Para tanto, vou buscar elementos nos pesquisadores da área tal como eles conseguem divulgar conhecimento científico especializado para o público leigo.

Há algumas teses no texto que merecem ser desmentidas. A primeira tese é que os que acreditam que o aquecimento global é causado pelos humanos sofre descrédito crescente.  Ele dá evidências anedóticas e virtualmente não verificáveis em apoio a tese. Triste para um cientista, mas é isso mesmo. Senão, vejamos:

Quais evidências desse descrédito crescente? Evidência 1: Al Gore teria desaparecido. Em primeiro lugar, desparecido de onde? Da mídia? Bem, acho que vi o Al gore discursando na convenção que lançou o Obama. De todo modo, o que significa o fato do Al Gore aparecer menos na mídia? Aliás, tendo passado o furor pelo filme vencedor do Oscar e pelo prêmio Nobel da Paz, alguém acha estranho que a mídia dê menos atenção para ele?

Na verdade, o prof. Azevedo quer vender gato por lebre. Ele menciona o Al Gore porque é o filme do Al Gore que é conhecido do grande público. E pretende desacreditar a mensagem do filme falando que o Al Gore tinha outros interesses escusos. E se é verdade que full-disclusure é importante, mais importante é lembrar que um argumento importa pelo argumento, não por ataques a quem os enuncia.

Com relação as demais pessoas citadas, segundo a qual estariam desacreditas, o argumento é pobre que chega a dar dó. Primeiro, o secretário-geral da ONU (não presidente, pois este cargo inexiste) ficou quieto em relação à quê? Simplesmente ficar quieto é algo que todos fazemos em vários momentos de nossa vida. Ou ficamos quietos em relaçao a algo em específico, ou isso não quer dizer nada. Segundo, o que o secretátio-geral disse foi que a Amazônia se transformará em Savana se o pior cenário do IPCC se tornar realidade, o que sutilmente diferente mais não de somenos importância. E falou isso respaldado pelos cientistas do IPCC.

Mais uma vez, com relação a Jean Ziegler, calou-se contra quem ou o quê? Por acaso o prof. Azevedo nunca se cala, nunca para de falar?

Com relação aos biocombustíveis, há evidências de que eles não resolvem o problema do aquecimento global, embora no Brasil não seja exatamente o ponto a ser discutido preferido pelo governo. Ademais, é possível explicar exatamente de quais crimes da humanidade falava Ziegler, mas o prof. Azevedo não quer discutir, mas destruir.

E o que fará a humanidade sem os biocombustíveis? Bem, parece que a humanidade fez muitas coisa sem eles até há pouco tempo na história. É verdade que em alguns estudos (por exemplo, clique aqui) os biocombustíveis aparecem como uma das alternativas (clique aqui para uma versão do artigo supracitado publicado na Science). Porém, o mesmo pode ser dito dos combustíveis fósseis: alguém tem uma resposta fácil sobre como parar de usar completamente combustíveis fósseis, embora nós saibamos que devemos praticamente extinguir o seu uso? Então, fazer a crítica dos biocombustíveis e demandar que paremos de utilizar é errado quando sabemos que não resolverão nossos problemas e podem até agravá-los?

Com relação ao argumento de que o CO2 seguiu-se ao aumento de temparatura e não o precedeu, logo não faz sentido falar que o CO2 causa o aquecimento global, bem… Esse é o mais repetido e talvez o mais refutado argumento dos céticos. Para resumir a história, coloco a explicação abaixo com o link de onde a tirei.

Alguns estudos das calotas de gelo mostraram que o aumento pronunciado na temperatura global que marcaram o final de eras do gelo em períodos anteriores aconteceram cerca de 800 anos antes do aumento no nível de CO2. Ou seja, o aumento na temperatura veio antes do aumento do CO2. Porém, isso não significa que o CO2 não cause aumento da temperatura.

A razão é que o aquecimento dura um período de cerca de 5000 anos no total, de forma que o lag é de apenas 800 anos. Tudo o que o lag mostra é que o CO2 não causou o início do aquecimento global durante os primeiros 800 anos. Porém, isso não é de se estranhar, já que – como argumentam os próprios céticos – muitos fatores podem influenciar a temperatura global e a teoria de que o CO2 causa aumento de temperatura não nega que outros fatores também possam aumentar.

O ponto fundamental a se destacar é que esses e outros estudos mostraram que o aumento de temperatura nos 4200 anos seguintes não pode ser explicado sem o aumento do CO2. Ou seja, fatores presentes nos primeiros 800 anos ou são inexistentes ou são incapazes de explicar o aumento da temperatura global nos 4200 anos subseqüentes sem a presença de CO2 como agente causador. Assim, a explicação é: Algum processo qualquer faz a temperatura aumentar, o que por sua vez eleva os níveis de CO2. E os altos níveis de CO2, por sua vez, provocam o aumento continuado da temperatura, o que aumenta ainda mais a liberaçã ode CO2, num círculo vicioso. Em suma, o CO2 não iniciou o aquecimento global, mas amplificou ele uma vez que ele começou. Estudos indicam que o CO2 (junto com outros gases do efeito estufa) causam cerca de metade do aumento de temperatura do período glacial para o interglacial (para ler mais sobre o tema, clique aqui).

Sobre os modelos por computador, tenho o seguinte a dizer. Quem acompanha a fronteira da ciência sabe que cada vez mais eles são usados, e não só nessa área, mas até nas ciências sociais. É a chamada ciência da complexidade. E quanto a dizer que modelos são falhos, todo cientista sabe disso. Por definição, o modelo é uma descrição incompleta da realidade. Desde a física quântica até a teoria da gravidade de Newton. Mas ninguém sai negando elas com base apenas nesse fato prosaico da ciência. Em suma, não é um argumento para se levar a sério nesse nível de generalidade.

Eu de fato desconheço as teorias matemáticas usadas, mas afirmar assim, que está errada, sem explicar, é simplesmente ridículo. Lembraria apenas que a hipótese de Riemann, até hoje não demonstrada, é base de muitas e muitas aplicações que dependem de sua validade. Há uma intuição de que ela é verdadeira, mas sua verdade não foi demonstrada. Na verdade, é possível mesmo que algumas verdades nunca sejam demonstráveis, como já provou Gödel. Então, mais uma vez, esse não me parece ser um bom argumento, feito nesse nível de generalidade.

Pra finalizar, o prof. Azevedo parece sugerir que a previsão é impossível, pois prevalece a teoria do Caos. Mais uma vez, um argumento qualificado mostra que o problema é mais embaixo. O que a teoria da complexidade tem mostrado – incluindo aí as teorias do caos- é que: 1. A simulação de computador é muitas vezes a ferramenta mais adequada para estudo de fenômenos complexos (contrário, portanto, ao que prega o professor); 2. Em muitos casos é possível fazer previsões estatísticas, isto é, falar em distribuições de probabilidade de um evento. É o que faz, salvo melhor entendimento, os cientistas que estudam o clima. Perfeitamente compatível com as teorias da complexidade, e até mesmo algumas versões da teoria do caos (é possível algum padrão global, por exemplo, embora haja caos local etc.).

Agora, chegar ao cúmulo de defender o CO2 pois ele faz crescer plantinhas é demais. É até Irônico que o filme do Al Gore tenha relacionado a emissão de CO2 com o crescimento de plantas (invasivas) e que este seja apontado por especialistaa como um dos poucos erros (menores) do filme em termos científicos. Mas deixa para lá. O importante é saber que temos que combater o aquecimento global causado pelos humanos e que o CO2 sim eleva a temperatura.

Infelizmente a tática do prof. Azevedo é deplorável para um cientista. Pareceu-me o Diogo Mainardi ontem (segunda-feira, 01/09) atacando pra todos os lados, usando tantas informações que ninguém conseguirá checar e, assim, assumindo ares de autoridade. Mas a verdade é que se dizer um monte de besteira de muitas áreas diferentes pode fazer você parecer sabido e inteligente, isso não mudará o fato de que você está errado. Deu um trabalho do cão escrever isso aqui. Mas meu espírito científico me obrigou a colocar os pingos nos is. Espero que vocês gostem e possam debater corretamente a questão.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Aquecimento Global, uma vez mais

  1. Rayane disse:

    Eu achei isso super demais!!eu achei o que eu tava precisando para fazer meu trabalho da escola de ciências sobre o aquecimento global!!Demais gente![/)]

  2. Pingback: Mari Almeida na reta final de campanha « Blog Pra falar de coisas

  3. Ricardo Bernardes disse:

    O problema, Manoel Galdino, é que existe muita má fé no meio. De todos os lados. Mas, as mesmas medidas instrumentais que serviram de base para a formulação do aquecimento global antropogênico, estão ajudando a derrubar esta hipótese. Tantos absurdos estão sendo publicados como “ciência”… Empresas sérias do Brasil e do exterior… Cientistas e instituições financiadas pela sociedade, defendendo teses que a longo prazo irão contra a própria sociedade.

    Fico com o Prof Freeman Dyson…
    http://www.edge.org/documents/archive/edge219.html#dysonf

    Freeman Dyson, professor of physics at the Institute for Advanced Study, in Princeton has this to say about the computer models:

    “… I have studied the climate models and I know what they can do. The models solve the equations of fluid dynamics, and they do a very good job of describing the fluid motions of the atmosphere and the oceans. They do a very poor job of describing the clouds, the dust, the chemistry and the biology of fields and farms and forests. They do not begin to describe the real world that we live in. The real world is muddy and messy and full of things that we do not yet understand. It is much easier for a scientist to sit in an air-conditioned building and run computer models, than to put on winter clothes and measure what is really happening outside in the swamps and the clouds. That is why the climate model experts end up believing their own models.”

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