Jornalismo Tosco da Folha

Chamada da Folha Online, na seção Ciência (sic) e Saúde:

Associação coloca em dúvida risco de gordura trans“. Eis o teor da dúvida que é chamada da Folha:

“A ciência pega um monte de rato e enche de margarina, o bicho morre entupido e conclui-se que a gordura trans faz mal. Pode até fazer mal, eu não sei. Mas a gordura trans animal faz parte, nosso organismo está acostumado a metabolizá-la, nós comemos churrasco.”

Obviamente o cara não tem a mínima idéia do que está falando. Ou então, quer propositalmente desinformar. Quem conhece minimamente a ciência sabe que, em experimentos desse tipo, sempre há um grupo controle que não recebe o produto químico estudado, mas recebe outra coisa, justamente para fazer um experimento controlado. Então, é óbvio que não entupiram um rato com margarina. É óbvio também que nos estudos os cientistas testaram para vários níveis de dose de gordura trans. E é óbvio também que um consenso científico não se faz com apenas um estudo, mas com dezenas e todos com resultados similares.

Uma chamada mais apropriada para o Caderno de Ciência (e não de lobby da indústria), seria: Indústria de alimentos desconhece ciência básica. Afinal, falar uma asneira dessa para questionar os estudos científicos é desconhecer o básico da ciência.

Ouvir a indústria de alimentos falar essa besteira e dar destaque não é ouvir o outro lado e ser imparcial. É desinformar o leitor que não conhece as práticas científicas. Seria imperdoável tal reportagem num outro caderno, com jornalistas que não estão acostumados com a prática científica. Mas no caderno de ciência, não é imperdoável, é lobby para a indústria alimentícia.

A Matéria é amplamente favorável ao que quer a indústria. Não há questionamentos, críticas ou ou esclarecimenos na matérias sobre os fatos (como o fato de que cientistas não entopem ratos de marganira e saem concluindo coisas). É o jornalismo tosco que com freqüência aparece na Folha de São Paulo. Um jornalzinho muito fraquinho.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, Política e Economia e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Jornalismo Tosco da Folha

  1. Jorge disse:

    A critica foi gratuita. Voce sabe que ha outros meios de comunicacao (revista, tv, radio, etc) que sao tao ruins quanto.

    Normalmente, quando entramos na graduacao, achamos que Superinteressante ou Ciencia Hoje e sao revistas cientificas…

    Os meios de comunicacao, acredito, fazem o melhor que podem, dirigido ao seu publico. Por exemplo, aquele suposto caso em que os pais jogaram a menina pela janela do predio. Como demos atencao ao assunto, nao? Mas e assim mesmo, eles tem que vender alguma coisa que as pessoas comprem. Nao da pra ficar complicando nao.

    Efeito tostines: Os meios de comunicacao deveriam ser melhores para tornar as pessoas mais conscientes, ou as pessoas mais conscientes fariam dos meios de comunicacao melhores? Ao meu ver, o desejavel seria o segundo, mas como esse e mais dificil, muito mais dificil, entao a primeira e mais viavel.

    Portanto, vejo que os meios de comunicacao fazem o maximo para escrever aquilo que publicam, eles precisam vender, e comer assim como voce. Esse e o mercado.

    Perseguir jornalzinho nao leva a nada. Dado o seu nivel de consciencia, e voce aceitar, ou nao, o que voce ve por ai. Se for para falar mal, e facil demais.

  2. Oi Jorge,

    Em primeiro lugar, não acho que os jornais fazem o melhor que podem. É só comparar jornais pelo país e ver que não é verdade. O mesmo vale para revistas. Podia mostrar aqui como a Veja é muito pior do que alguns dos seus concorrentes (Época e Carta Capital, para citar dois).

    Em segundo lugar, não acho que fazer a crítica seja falar mal e seja fácil demais. Acho importante apontar as merdas que aparecem.

    Por fim, esse argumento de vender jornais não me convence. Há muitas formas de vender jornais e fazer lobby pra indústria não é a única forma. Dá pra vender jornal sem ter que fazr lobby. E os jornais que acharem que não, que façam lobby. Mas eu, sempre que puder, vou apontar o que vejo como lobby.

    Eu sugeri um título pra chamada que tbm seria atrativo: “indústria desconhece básico da ciência” ou algo mais sencacionalista ainda. Mas eles prefeririam defender a indústria. E aí não é pra vender jornal, é ou ideologia (do jornal ou do jornalista, que é fraco) ou interesse escuso travestido de jornalismo. Em ambos os casos, cabe a crítica.

    De todo modo, o que eu nao entendi mesmo foi sua crítica à minha crítica. Não posso criticar, devo me resignar? Fácil demais? Com erteza não é o que pensam muitos que leem a folha.

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