Contra a construção teórica…

Estou lendo o livro Carta a D. de André Gorz (filósofo austriaco), escrito em homenagem a sua amada esposa Dorine.

Em certa parte do livro que narra a vida conjugal dos dois, Dorine se rebela contra as construções teóricas, principalmente as estatísticas. Dizia Dorine: “Elas são tão menos comprobatórias quanto mais seu sentido advenha apenas de sua interpretação, dizia-me você (Dorine)”.

Porém, Gorz tentava defender o porquê do uso de contruções teóricas : “Eu necessitava de teoria para estruturar o meu pensamento, e argumentava com você (Dorine) que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você (Dorine) respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade.”

Interessantíssima discussão, que só mesmo entre conjuges poderia ocorrer, alguma outra pessoa poderia se rebelar contra um famoso filósofo do mundo? Principalmente no que se refere a construções teóricas. E até mesmo Gorz concorda em algum grau com ela : “Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições ou afetos, não há nem inteligência, nem sentido. Imperturbáveis, as suas opiniões reinvindicavam o fundamento da certeza vivida, comunicável, mas não demonstrável. A autoridade – vamos chamar de ética – dessas opiniões não necessita de debate para se impor, enquanto a autoridade do julgamento teórico desmorona se não consegue convencer pelo debate.”

Mas essa observação de Dorine serve em muito para alguns economistas modernos. Ela chama atenção para a intuição, o “feeling”, a sensibilidade… quanto mais conclusões forem tomadas apenas (ressalto o apenas) das interpretações estatísticas e modelagens teóricas, pouco será útil para perceber “a complexidade movediça da realidade”.

Talvez devessem andar lado a lado, a construção teórica e a intuição, e certamente por isso o casal Gorz era realmente um ser completo.

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Uma resposta para Contra a construção teórica…

  1. Manoel disse:

    Perfeito Marça.
    Diria ainda, que o Gorz aprendeu com Dorine a substituir a mediação teórica da vida pela imediatez do vivido ele mesmo. Ou antes, se não subistituir um pelo outro, a compreender a irredutibilidade de um e outro…
    Abraços
    Maceió, o outro dono do blog!

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