A Privatização da USP e o Futuro da Ciência Brasileira

Quando colegas meus falavam em privatização da USP, sempre me ocorria que era uma metáfora, pois obviamente a USP não ia ser posta à venda. Eis que, após uma gestão desastrosa do ensino superior em São Paulo, recebo a notícia de que o Serra se encontra com a reitora Sueli Vilella para discutir a privatização de setores da USP.

Provavelmente privatização quer dizer terceirização. Mas o que eu acho relevante para se analisar são duas coisas: 1. a forma como se dá a discussão de uma tema tão importante para o futuro da USP e 2. o que o governo e a Reitora acham que é importante discutir, a saber, privatização de setores da Universidade.

Começo pelo ponto 2.

Pela Reportagem, discutiu-se a possibilidade de aprofundamento e ampliação da atuação das fundações, como as da FEA. Além disso, a administração privada de atividades da USP, como segurança nos campi e contratação de professores.

Com relação às parcerias público-privadas, aqui por meio das fundações, tendo sido estudante da FEA, tenho muitas críticas e também sei de muitos mitos – como a história fantasiosa de que o prédio da FEA é legal porque foi reformado com dinheiro privado, o que não é verdade, pois quase tudo foi financiado com dinheiro público.

Mas o que me espanta é o total descolamento de quais são as principais preocupações no mundo com relação ao futuro da ciência e que práticas e instiuições precisam ser reformadas.

Enquanto alhures se discute como melhorar a eficiência da relação entre pesquisa e agências governamentais de fomento, em termos de redução de desperdício de recursos, redução de vieses na concessão de financiamentos, nada vemos sobre isso aqui, seja do governo (Federal ou Estadual) ou da comunidade USP.

Outro ponto sempre levantado é o sistema de journals e como ele pode ser melhorado para evitar viés de publicação, bem como reduzir custos e ser sustentável no longo prazo. Sem falar na questão dos direitos autorais em pesquisas financiadas com dinheiro público. Há alguma discussão sobre ciência aberta? Pesquisa aberta? Enquanto lá fora as agências de fomento e Universidades têm procurado garantir o acesso ao conhecimento produzido nas pesquisas, garantindo que papers sejam acessíveis, aqui nem se fala disso. E quando alguém fala, é criticado pelo governo e pouca repercussão se dá.

É fato que a burocracia universitária tem gerado muita ineficiência e desperdício dos recursos dos contribuintes. Mas enquanto lá se pensa em termos de insituições mais adequadas à redução do desperdício e iniciativas que estimulem o alinhamento dos interesses dos pesquisadores e da sociedade, aqui se pensa na terceirização como solução mágica. Como se o mercado, que produziu uma das maiores crises das últimas décadas, fosse obviamente a solução, só por ser mercado.

Quanto ao ponto 1, é triste ver que, ao invés da comunidade USP participar ativamente e debatendo como reformar a insituição, restrinja-se tudo a negociações de cúpula entre uma reitora no mínimo com visão limitada (leu “você é do tamanho dos seus sonhos” quando decidiu ser candidata) e um governo que faz uma gestão desastrosa do ensino superior no estado de São Paulo.

Mas o fato da USP não ter – até onde sei – nenhum projeto antenado com os desenvolvimentos e experimentos de práticas científicas colaborativas e que tentam aproveitar o potencial da web 2.0 é sintomático da apatia e da compartimentalização que contamina a Universidade, ainda que lá também tenha sua apatia.

Difícil falar em propostas. Mas com certeza ela começa pela discussão mais inteligente de como reformar a USP e a ciência brasileira. Assim, eu listaria algunas tópicos que não podem ficar em branco para as universidades públicas, em especial a USP:

1. Quando a USP vai ter um projeto para colocar na web o conteúdo das aulas? Sendo pública e financiada com dinheiro do contribuinte, já está mais do que na hora de seguir o caminho das não-estatatais americanas como Yale e Harvard.

2. Quando a USP vai obrigar que papers e conhecimento produzidos no interior da Universidade tenham acesso livre, como acontece em Harvard e MIT, e como já faz com as teses defendidas na própria insituição?

3. Quando a USP vai parar de tentar copiar o sistema de patentes universitário americano, que agora está sendo questionado, e repenrar como pesquias podem resultada em produtos finais para o público?

4. há algunas projetos de rede na USP, mas eles não são abertos. Quando teremso projetos realmente abertos à colaboaão científica de massa, inovadores e ousados?

5. Quando a comunidade científica vai repensar o sistema qualis da CAPEs, com seus vieses, bem como as regras de financiamento das agências de fomento, que pouco estimulam a inovação e tendem a premiar sempre os mesmos, além das ineficiências dos sistemas atuais?

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para A Privatização da USP e o Futuro da Ciência Brasileira

  1. Gabriel disse:

    É preciso cautela quando se trata de noticias na internet. Este tipo de atitude de repassar noticias sem verificar fontes levou a uma repercussão desastrosa desta que foi, afinal, apenas uma brincadeira de primeiro de abril.

    As explicações de todo o ocorrido podem ser facilmente encontradas no novo blog do autor da brincadeira, a saber, http://blogdotom.wordpress.com/governador-avalia-planos-de-privatizacao-da-usp-em-reuniao-com-reitora/

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