Mais uma vez o Amor…

wheatfield

2009 foi o ano do meu casamento e será marcado também como ano em que comecei a pensar profundamente sobre o amor…

Escrevi meu texto para a cerimônia do meu casamento (aqui), por muitas vezes discuti sobre o assunto com amigos, ouvi músicas, li textos… Foram ótimos momentos!

E nesse mesmo ano fui brindado com uma outra belíssima história, totalmente relacionada com o Amor… Trata-se da história da Cris e do Gabriel Buchmann. A Cris foi minha colega na faculdade de Economia na USP, ela era namorada do também economista Gabriel Buchmann. O Gabriel foi o economista que fez uma viagem humanitária pela África, lá conheceu uma porção de países e pessoas, tudo isso como parte de preparação para um doutorado em políticas para países pobres. Porém, em seu último destino, o Malawi, ele escalaria o Monte Mulange e depois voltaria para o Brasil. Nessa última etapa da viagem ele se perdeu na descida do Monte Mulange e faleceu por hipotermia ao ficar perdido por muitos dias no monte. (Saiba com mais detalhes aqui e aqui).

Nesses dias em que ficou perdido mobilizou-se um grande número de pessoas para procurá-lo, todos liderados pela Cris. Foi um esforço inimaginável e, pra dizer o mínimo, heróico… Tudo motivado pelo Amor… Embora a história não tenha terminado da maneira que nós gostariamos que ela terminasse, ainda assim é uma história toda permeada pelo Amor…

Após o desfecho dessa jornada, a Cris escreveu um texto belíssimo sobre o amado e todo o ocorrido.  Achei interessante que depois desse episódio intenso que a Cris viveu, ela tocou em pontos que entram em sintonia com o que eu havia escrito no texto do meu casamento.

A Cris nos diz: “(…) aprendi com ele a plenitude do amor e a gostar de mim mesma. Sinto-me grata à vida e a Deus por tê-lo amado plenamente, aceitando também seus defeitos. Amei sua essência, compreendi a verdade do meu próprio lado, a ilusão que fiz sobre quem ele era – como fazemos com tudo e todos que vemos. E quando a minha ilusão se desfez, continuei firme ao seu lado. E, por incrível que pareça, amando-o mais ainda.”

Ela toca em pontos fundamentais de Sartre sobre o Amor e o relacionamento dos amantes: de como nos espelhamos uns nos outros, de como a subjetividade de cada um é refletida no parceiro e de como essa inter-relação nos ajuda a nos entender e entender aqueles que amamos. Seria mais ou menos como a metáfora do espelho na frente do espelho, que se reflete indefinidamente… A Cris ultrapassou isso através do Amor que ela sentia pelo Gabriel, ela entendeu essa inter-relação que fez com que a ilusão dela se desfizésse e mesmo assim ela continuou o amando.

Defenitivamente, há coisas que só se sente amando, que ultrapassam os limites da filosofia… Só o Amor explica e só sentindo..

Leiam abaixo o texto de agradecimento da Cris na íntegra:

(PS: recomendo que leiam também o texto do meu casamento para compará-los)

Agradecer significa demonstrar gratidão, palavra advinda do passivo da palavra latina gratus, num sentido de ter sido agradado ou sentir-se deliciado. Quero dizer que nunca na minha vida compreendi e vivenciei tão fortemente esse sentimento. Parece um absurdo, pois passo a dor mais profunda, jamais sentida dantes – a de ter perdido um grande amor. Mas na verdade não o perdi, não o perdemos. Quem conviveu com Gabriel, trocou momentos com ele e quem soube da história após o desfecho trágico da realização de seu sonho, ganhou muito.. Ganhamos a oportunidade de conhecer seu espírito jovem e caridoso, sua vontade de melhorar o mundo, sua gana pelo conhecimento, seu amor ao próximo. Ganhamos a sensação de ser a pessoa mais interessante no presente pleno, o do aqui e agora, pois Gabriel paralisava o tempo e o ambiente externo quando conversava com alguém, prestando atenção total. Aliás, ele era o melhor exemplo do “sê inteiro”, de Pessoa. Além de íntegro de caráter.

Gabriel estava sempre se deslumbrando, como uma criança a ver as coisas pela primeira vez. Esta faculdade era uma das que mais me admiravam. E, enquanto se encantava com as cores, a natureza e os seres humanos, seguia encantando a todos, mostrando que bonito é o mundo em que estamos. Era também um ser fluído, camaleão. Não lhe bastava observar, precisava participar. Queria saber como é o trabalho de cada um, presenciando ao máximo a divisão do trabalho, como estudamos em economia – capinar a terra, cerzir um tapete, dirigir caminhões, escrever artigos sobre educação. Precisava sentir na pele a temperatura da água, mirar a partir do topo a visão das montanhas e das árvores, provar o colorido das roupas dos diferentes povos, dançar todos os ritmos. Saiu pelo mundo em busca de sabedoria, a mais importante delas, a que traz as respostas para os questionamentos e impulsos internos. Respostas que se desvelavam enquanto lidava com as diferentes realidades dos povos, viu a pobreza sob vários ângulos e também a riqueza da alma humana.

Meu querido era lindo. De alma pura, olhar verdadeiro. E será para sempre nos nossos corações. Como disse no velório, aprendi com ele a plenitude do amor e a gostar de mim mesma. Sinto-me grata à vida e a Deus por tê-lo amado plenamente, aceitando também seus defeitos. Amei sua essência, compreendi a verdade do meu próprio lado, a ilusão que fiz sobre quem ele era – como fazemos com tudo e todos que vemos. E quando a minha ilusão se desfez, continuei firme ao seu lado. E, por incrível que pareça, amando-o mais ainda.

Sinto-me grata pela onda de amor e solidariedade que se ergueu na busca de Gabriel, sinto-me grata igualmente por todas as pessoas envolvidas nessa história. Fico contente por cada palavra de amor, cada olhar afetuoso, cada gesto nobre. Neste período duro de buscas, as pessoas mostraram seu lado mais belo, mais amoroso. Sou grata à comoção de cada brasileiro e de cada estrangeiro. Agradeço as doações, a todos que trabalharam nas buscas, a imprensa – por ter lhe dado a oportunidade de divulgar seus ideais e aumentar a corrente de orações. E que corrente maravilhosa! Nunca esquecerei o empenho e dedicação dos malauienses, canadenses, argentinos, brasileiros e demais que escalaram o monte Mulanje para achar o Gab. Graças a Deus fomos bem sucedidos, ele retornou à sua terra e à sua família, recebendo as despedidas e homenagens merecidas. Agradeço o imenso carinho da família e dos amigos – meus e do Gabriel -, que vão no meu coração avante pela vida inteira. Em especial, obrigada meu irmão, André, por estar ao meu lado no Malauí, sem você eu não teria suportado a dor da má notícia.

Num dos últimos dias em que estive com Gabriel, gritamos como loucos para as cataratas Vitória, na Zâmbia, um estrondoso OBRIGADA a Deus por estar ali, juntos, diante de tanta beleza (em anexo, uma foto desse dia). Sentíamo-nos plenos de amor e felicidade. E assim quero seguir sentindo. A tal onda gigante de amor despertou uma força poderosa dentro de mim, que não imaginava possuir. Uma força para vencer essa dor e sentir-me feliz por estar viva, tocando em frente com fé, como na música que cantarolávamos juntos…..

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2 respostas para Mais uma vez o Amor…

  1. Cristina Reis disse:

    Caro Marça,

    O seu casamento foi muito especial. Achei a cerimônia de compromisso foi muito profunda e sem nenhuma convenção, onde vocês se revelaram ser noivos profundamente enamorados e transmitiram aos convidados muita alegria. O amor é o que há de mais libertador na vida. Ao mesmo tempo é a sensação mais gostosa que existe e o maior canal de crescimento. O mais bonito em um relacionamento é o amor sincero e integral que, afinal, possibilita aos dois um dsenvolvimento gigantesco, nos tornando melhores a cada dia. Agradeço por você ter se sensibilizado com a minha história e amor com o Gabriel. Gostaria que as pessoas amssem cada vez mai e valorizassem o amor, coloando-o acima de tudo, para que a vidanão seja desperdiçada combobages. Desde que te conheço sempre soube da sua hiper sensibilidade e fico feliz em saber que você está cada vez mais atento ao amor e, dessa forma, tornando-se a cada dia um homem mais completo – ao caminho da sperção do vazio da exstência.

    beijo grande

  2. Marcel K. disse:

    Cris, só esse seu comentário, já tem subsidios para escrever mais um post!!!

    Beijos, Marcel

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