Pessimismo, mal humor, vida…

Confesso a vocês que ando um pouco viciado demais em Twitter, algo que me deixa um pouco preguiçoso para escrever no blog, mas eis que chegou o momento de desenferrujar os meus posts.

Em alguns pequenos debates que tive com meus amigos e seguidores por lá, conversavamos sobre o bom humor e o mal humor das pessoas, e foi ai que comecei a pensar muito sobre o tema… Como todos que me conhecem pessoalmente sabe, sempre fui uma pessoa cética, com choques extremos de realidade e considerado por muitos como pessimista. Sempre achei esse rótulo um pouco excessivo, mas com o tempo pude perceber que ele é mesmo verdadeiro.

Não entendendo como pessoas podem acordar todo dia de bom humor tendo em vista o mundo que vivemos. Não falo que as pessoas não deveriam agradecer pelas graças individuais que cada um de nós possuimos (boa saúde, sustento, familia, o amor dos amados, etc.), mas acho que o humor e o modo de encarar a vida tem que refletir não apenas o seu interior e as suas conquistas mas também o mundo em que vivemos. A análise tem que ser sempre conjunta, você mais o mundo, as dores do mundo são suas também ( e claro os eventuais beneficios também)…

Estruturalmente olho pro mundo e não o vejo com bons olhos. Às vezes acho que ter a percepção de que a vida é ótimalevando em consideração apenas os nossos gozos individuais seria uma reflexão um pouco egoísta. Tenho total gratidão por tudo o que tenho, sinto-me extremamente privilegiado, mas ao mesmo tempo sinto-me responsável pelo mundo a minha volta. E do mundo vem grande parte do mal-humor e do pessimismo…

Acabo por achar que a pessoa bem humorada e otimista, tende apenas a enchergar os beneficios particulares que a vida lhe proporcionou, desconsiderando o mundo… Ou mesmo, acabo por considerar o bem humorado como alguém incapaz de ter um arcabouço lógico suficientemente forte para provar de onde vem a sua esperança e mesmo assim a tem (esperança em relação ao mundo e não em relação a um beneficio particular). Talvez, o Manoel definiria como otimismo injustificado, mas é isso, um otimismo que não se pode provar.

É só o começo, retornarei a esse assunto…

Por fim, com a genialidade de Drummond, deixo um poema que aborda muito do que apenas consegui arranhar.

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite

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