Céticos do Aquecimento Global, argumentos contaminados por interesse e babbling.

Li recentemente um texto excelente sobre a física do aquecimento global. Os comentários também são muito bons. Mas uma coisa que me incomoda é o argumento cético de que os cientistas têm interesse em dizer que há o aquecimento global antropogênico, pois assim conseguem mais dinheiro pras suas pesquisas. Ergo, não se pode confiar nesse tipo de argumento.

Esse tipo de raciocínio é formalizado em teoria dos jogos para analisar jogos com assimetria de informação, e o equilíbrio resultante é chamado de babbling. Basicamente, babling é blábláblá, ou seja, o jogo nao revela informação útil para os agentes.

A primeir vez que vi esse conceito sendo utilizado foi em um modelo de lobby. A idéia do modelo é a seguinte. Um político decide fazer uma política (policy) qualquer sobre um tema (digamos, reduzir imposto de importação de um setor etc.). Como ele não é especialista no tema, tem sua opinião sobre qual a política correta (digamos qual a redução ideal da taxa de importação), mas não está muito seguro. Um lobbista do setor tem muito mais informação e, portanto, pode ser útil ao político ao transmitir informação e ajudar a política a produzir o efeito desejado.

Pois bem. O problema, nesse caso, é que o lobbista tem a sua preferência sobre o valor ideal da taxa, independentemente do efeito da política. Então, suponha que o lobista quer como ideal uma redução de 0% na taxa. Porém, ele se tornaria mais competitivo (mesmo que com redução dos lucros temporariamente) com uma redução de 10%, e correria risco real de falir com uma redução maior que 10%.

Do ponto de vista do político, diz o modelo, qual a informação sobre a realidade que o lobbista passa se ele diz que, caso a taxa seja reduzida em mais de 0%, ele irá falir? O modelo diz que seja verdade ou mentira, o lobbista tem incentivo pra fazer isso. Logo, essa informação é um babbling pro político e deve ser desconsiderada.

Porém, eu sempre achei esse tipo de raciocínio estúpido. Se o lobbista afirma isso, essa informação deve alterar (pelo menos um pouco) a opinião do político sobre o verdadeiro estado do mundo e deslocar sua opinião um pouco mais em direção ao lobbista. Para tanto, basta que você acredite que há alguma probabilidade positiva do lobbista dizer a verdade sempre. Assim, você pode calcular a probabilidade de a política recomendada por ele ser a verdadeira, dada a informação dele (usando o teorema de bayes). Você então usa essa informação para atualizar seu prior (a priori), chegando a uma nova distribuição de probabilidade a posteriori.

Do mesmo modo no caso dos cientistas, para além dos incentivos deles à reportarem que há o aquecimento global, existe uma probabilidade positiva deles dizerem a verdade. Logo, é ridículo descartar a opinião dos experts completamente.

Ps.: Para os interessados, aqui vai o argumento formal:

O modelo deles (jogo com babbling) é mais ou menos assim:

Suponha que há duas políticas possíveis, x1 e x0. x1 favorece o lobbista e xo prejudica. O político acha que a probabilidade de a política ideal ser xo é 40%.  Ademais, o político sabe, por experiência, que se x1 é a política correta, o lobista sempre diz a verdade, e se x0 é a correta, ele nunca diz a verdade.

Seja A o evento em que xo é a política ideal, e A’ o complementar (x1 é a ideal).

O lobista então anuncia que x1 é a política ideal.

O político quer saber se P(A|B)  é diferente de P(A).

Como o lobista sempre anuncia que x1 é a ideal, pois é do seu interesse, P(B|A), isto é, a probabilidade de x1 ser anunciada como ideal, dado que xo é a ideal, é 1 (100%).

P(B), a probabilidade (genérica) de o lobista dizer a verdade é:

P(B) = P(B|A)P(A) + P(B|A’)P(A’) (lei da probabilidade total, em que A’ é o complementar de A),  P (B) = 1*0,4 + 1*0,6 = 1.

Queremos saber P(A|B), que é igual a P(B|A)*P(A)/P(B) (teorema de bayes).

Logo, P(A|B) = 1*0,4/1 = 0,4

Ou seja, P(A|B) = P(A) e o evento B não trouxe nenhuma informação para o político! Logo, o anúncio do lobbista é o mesmo que um babbling (blábláblá).

Porém, pra mim não faz sentido assumir que P(B|A) = P(B|A’), ou seja, de que o lobista sempre vai falar que x1 é a verdade. Suponha que o lobista diga a verdade sempre que a política ideal seja x1, e 10% das vezes diga a verdade quando a política ideal é xo (às vezes ele é honesto, ou ele teme ser pego na mentira ou ele pode querer construir uma reputação de dizer a verdade, mesmo quando ela lhe prejudica, pois assim poderá influenciar o político no futuro etc.).

Nesse caso, P(B) = P(B|A)P(A) + P(B|A’)P(A’) = 0,9*0,4 + 1*0,6 = 0,96

Logo, P(A|B) = 0,9*0,4/0,96 = 0,375.

Embora o lobbista minta quase sempre no que tange a dizer que xo é a verdade, o fato dele ter uma pequena probabilidade de dizer a verdade reduz a probabilidade de xo ser a política ideal se o lobbista às vezes diz a verdade, ou se pelo menos o político considera que há essa possibilidade.

Meu ponto, portanto, é similar para o caso dos cientistas. Embora eles tenham incentivos para dizer que há aquecimento global mesmo que não haja, a probabilidade deles dizerem que há aquecimento global quando não há é bem menor que 100% (diria uns 5%, mas mesmo um cético tem que convir que não deve ser maior que 50%).

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Céticos do Aquecimento Global, argumentos contaminados por interesse e babbling.

  1. Jandui disse:

    que blá-blá-blá.

    Uma questão simples:

    os satélites e até mesmo o sistema harddcru(fonte de dados dos teóricos do AGW)
    apontam que a terra parou de aquecer desde 1998. Um pequeno sinal de arrefecimento desde 2002.
    Tal curva com inclinação 0 ou negativa é oposta à curva do co2 antropogênico.

    Ponto final. Os cientistas (que defendem esta teoria) ainda não me explicaram isto.

    Lógico, com blá-blá-blá, já tentaram.

  2. Jandui, eu não sou cientista climático. Não sei o que você quis dizer com ‘os cientistas não me explicaram isto”. Por acaso você interpelou eles?

    O que posso dizer é que já vi argumento parecidos e a resposta é bem simples. Porque usar o ano de 1998 como ano base para comparação? Por acaso, 1998 foi o ano mais quente desde que temos medições. Então, é óbvio que a partir daí haverá uma tendência de esfriamento. Porém, tome qualquer outro ano como base, e haverá aquecimento. Mais ainda, se olharmos as temperaturas decais (décadas) em vez de anuais, veremos que década após década há aumento médio da temperatura, incluindo a década de 2000. Então, creio que assim está bem respondido.

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