Economia, Complexidade e Dialética

Há uns dois ou três meses recebi um livro novo, recém lançado, do professor de economia da USP Eleutério Prado. Queria fazer uma resenha do livro, mas ando sem tempo. De todo modo, vou apresentar minhas impresões dos capítulos iniciais. Quando terminar o livro comento os demais capítulos. Como o livro é formado por artigos publicados originalmente em outros lugares, cada capítulo é mais ou menos auto-contido.

Como sou favorável à transparência, apresento meu full-disclosure: Eleutério Prado foi meu professor na graduação e pós, e gosto muito dele. Todavia, creio que meu julgamento sobre o livro é acurado, ainda que não desinteressado.

O Livro é composto a partir da junção de 5 artigos publicados originalmente separados. O objeto do livro é investigar até que ponto a ciência da complexidade se aproxima da dialética. Ao fazer essa investigação, o autor deve estabelecer entendimentos sobre o que é fazer ciência, como se pode teorizar sobre o mundo e, porque não, o que constitui o mundo. Tudo isso do ponto de vista de alguém que praticou a ciência social mais famosa – economia – em muitas de suas variantes e forma (econometria, modelos formais, modelos computacionais, marxismo, filosofia da ciência econômica etc.). A Resenha que irei fazer, inicialmente, é de cada capítulo em separado. Ao final, devo fazer uma resenha com uma avaliação do todo. Agora, apresento a resenha do capítulo 1.

Eu devo reconhecer que, ainda que o tema não esteja no meu horizonte de preocupações imediato enquanto cientista, está no cerne das minhas preocupações e justificativas mais fundamentais da prática científica. Afinal, o cientista, consciente ou inconscientemente, quando publica um trabalho, deve assumir uma enormidade de pressuposições sobre o ato de comunicar uma tese (linguagem) e o ato de teorizar o mundo (relação teoria-empiria). Ademais, durante a pesquisa que precede a publicação, o cientista deve pressupor como a realidade deve ser encarada para a produção de sua interpretação. Tudo isso, portanto, mostra que é um assunto complicado e, por isso mesmo, tenho postergado o tema para um futuro incerto. De todo modo, esse livro é uma boa oportunidade para interromper momentaneamente esse auto-exílio intelectual.

No capítulo 1 Eleutério discutirá como poderíamos caracterizar a ciência da complexidade, especialmente com respeito ao conceito de emergência. Isso é importante, pois busca-se já delinear no nível epistemológico (e quiçá lógico-ontológico) os limites e possibilidades de determinas práticas e concepções científicas.

Parece-me porém, que, como o assunto é intrincado e envolve conhecimento de múltiplas áreas, às vezes se fica com a sensação de que falta sempre mais discussões de alguns tópicos. Para ilustrar esse ponto, tomemos um exemplo clássico de visão da complexidade, que é aquela que trata de explicar a consciência (humana). Como se sabe, o ser humano é consciente e por muito tempo a consciência (especialmente a vontade ou lívre-arbítrio) foi entendida como resultado de algo chamado de alma, espírito ou algo parecido, mas não mecânico, não material.

Hoje em dia tal concepção pode parecer uma besteira, pois os estudos sobre o cérebro têm mostrado que esse é o órgão responsável por muito daquilo que tomamos por pensamento, sentimentos, vontade etc. Porém, a tese não é tola, pois a questão é: até que ponto é possível reduzir a consciência à atividade neural/cerebral? Em outros termos, se tudo que se passa naquilo que chamamos de mente é puramente bioquímico, então é preciso explicar como aparentemente nossa consciência/vontade é capaz de influenciar esses mesmos processos biológicos/químicos.

Uma solução teórica que alguns adeptos dos sistemas complexos advogam é (segundo entendo) que a consciência, ainda que seja resultado da organização dos neurônios, não é causada puramente por eles, mas teria um efeito causador sobre a própria constituição e organização dos neurônios. Nesse caso, a consciência é um fenômeno emergente, que depende mas também influencia suas partes constitutivas. Ainda nessa perspectiva, não seria possível transmitir uma consciência humana para computadores pura e simplesmente, pois a consciência depende não somente da forma como os elementos constitutivos são organizados, mas também sobre como ela age sobre esses elementos. Tudo isso é problemático e difícil, ainda mais por envolver auto-referência, um problema filosófico e lógico conhecido desde pelo menos o paradoxo do cretense mentiroso. Um livro famoso e interessante sobre o assunto é Gödel, Esher, Bach: an eternal golden braid, vencedor do prêmio Pulitzer. Aliás, seria interessante ver como Eleutério discutiria os temas do seu livro à luz desse outro livro, mas essa é outra história.

Voltando ao ponto original da idéia de alma, dizer que existe algo que causa a si mesmo, é, num certo sentido, dizer que existe nesse algo uma causa de si, não resultante do mundo material formado por elementos e forças constitutivas. E, embora cientificamente não se goste muito de falar em alma, falar que a consciência é um fenômeno emergente é, num certo sentido, dizer que algo (que podemos chamar de espírito ou alma) nos constitui, para além do aspecto material.

Não por outra razão, como nota Eleutério, os críticos da perspectiva emergentista que existia no século XIX apontavam para uma certa inclinação desse grupo “pelo mistério e religioso” (p. 27). O tom de Eleutério, porém, é de crítica aos críticos do emergentismo clássico (esse do séc. XIXI), pois eles teriam (injustificadamente, do ponto de vista científico) atacado as teorias emergentistas de não científicas. Ora, mas além das questões políticas próprias da academia que são reais e não é preciso tomar surpresa por sua existência, houve e continua havendo um certo receio da brecha para religião que esse tipo de teoria dá. Não por outra razão, muita gente picareta tem falado abrobinha religiosa com bases supostamente científicas, sendo pra mim um caso exemplar o tal filme Quem somos Nós (What The Blip do we know?), que eu inclusive já comentei sobre ele aqui. Então, ainda que eu até entenda que Eleutério queira resgatar uma concepção antiga e seu mérito relativo, o cuidado para com o misticismo e a dominação que aí pode aparecer não é de somenos importância (ainda que o outro misticismo, do racionalismo, que me parece é a tese do Adorno, seja outro problema).

Outro exemplo  de uma discussão que merece mais reflexão é do conceito de causa eficiente e sua apropriação na modernidade. Obviamente o propósito do autor não é fazer uma história das idéias ou do pensamento em todos os seus meandros. Importa apenas os aspectos mais gerais e que serve ao seu propósito de caracterizar a ciência moderna.  Tudo isso é válido, mas desde que a caracterização final seja fiel. Porém, nesse caso pelo menos, não estou tão seguro.

Galileu se defrontava com toda sorte de conceitos recebidos da tradição escolástica que efetivamente obstavam a elaboração da nova física capaz de explicar fenômenos astronômicos então recém observados (como as manchas solares). A concepção escolástica de mundo, derivada do Aristotelismo, era essencialmente não-matemática (no máximo proporções) e a tentativa de pensar em causas finais (por exemplo) causava dificuldades de pensamento. Assim, para a escola, o movimento dos planetas é circular porque o círculo é um movimento perfeito (perfeito entendido como acabado, e não como um máximo de uma série) e simples. E os Planetas, que ficam na região do céu, que é perfeita, devem ter movimentos perfeitos. Todo esse raciocínio é circular e claramente falho aos olhos de hoje, mas perfeitamente racional para o pensamento antigo.

Do mesmo modo, eles diziam, tudo que é perfeito é em três, e três são as dimensões do mundo, não cabendo adicionar mais nenhuma outra, sendo portanto perfeitas (lembrando, perfeito no sentido de não precisar mais se modificar para se completar). Isso é o que significa dizer que o sentido das partes vem do todo, e o todo das partes, ou ainda que tudo é uma constituição reflexiva. Porém, esse é um raciocínio claramente falho (ao meu ver) e felizmente abandonado paulatinamente pela ciência no alvorecer da modernidade.

Isso não significa que determinações simultâneas não possam ocorrer. Sistemas de equações simultâneas são usados há bastante tempo e isso não é um problema. A questão que fica é como exatamente resgatar a idéia de que outras causalidades (como causa final) devem ser usadas para entender a realidade. O mesmo vale para a tese de que os fenômenos emergentes não podem ser explicados totalmente pelo reducionismo. Embora em abstrato a tese seja plausível, o leitor fica com a sensação de que é necessário maior discussão de casos concretos.

Para também não ficar abstrato, vou dar um exemplo. Suponha que você quer explicar a distribuição de renda e inicialmente procura relacionar os ganhos com características dos indivíduos (escolaridade, habilidades etc.). Em seguida, vendo que isso não é suficiente, busca outros fatores individuais, mas que dependem de aspectos relacionais (classes sociais dos pais, contatos feitos na escola, cidade onde mora, capacidade produtiva das pessoas com quem trabalha). Obviamente, esses fatores relacionais afetam o indivíduo e o indivíduo afeta esses fatores. E, ainda que metodologicamente o reducionismo em geral abstraia o efeito dos indivíduos sobre o todo, isso não me parece necessário. Por que não pensar que as características individuais e as características sociais são variáveis aleatórias cuja distribuição de probabilidade conjunta determina (probabilisticamente) os ganhos dos indivíduos e, portanto, a distribuição de renda de uma sociedade? E ainda, as variáveis aleatórias não precisam ser independentes. Seria isso um pensamento não-reducionista? Se sim, então uma parte da ciência contemporânea faz isso há algum tempo e não vejo grandes ganhos em tamanha discussão. Se não, então seria necessário justamente gastar mais tempo nessa discussão para esclarecer ao leitor porque tal opinião está errada ou imprecisa.

Ao findal desse capítulo 1, o leitor aprende e reflete sobre alguns pressupostos da prática científica, mas o caráter abstrato demais atrapalha o convencimento do leitor. Mesmo os exemplos usados (molécula da água etc.) são muito simples e não (parecem) refletir a prática científica atual de explicações dos fenômenos. Isso não significa que s questões colocadas não sejam interessantes. Ademais, o leitor fica com algumas pulgas atrás da orelha querendo entender melhor tudo que está dito. Mas talvez um pouco mais pudesse, justamente, ter sido dito.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia e marcado , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Economia, Complexidade e Dialética

  1. Eleuterio Prado disse:

    Só descobri agora. Acho que você, Manoel, foi o único que leu. Eu concordo com um ponto central: de fato, há muito o que investigar nessa matéria e as minhas tentativas estão longe de raspar o fundo do tacho.

  2. Eu já ewscrevi o rascunho da resenha dos demais capítulos. Falta só ajeitar. Quando publicar todas as resenhas aviso por e-mail.
    Grato pelo comentário,
    Manoel

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