Intelectual à brasileira

Soube ontem do falecimento do professor do departamento de ciência Política da USP, Gildo Marçal Brandão.

Na última feira do livro da USP eu vi o Gildo de Relance e, em seguida, vi o seu livro, Linhagens do Pensamento Político Brasileiro. Eu estava numas de só comprar livro de estatística e matemática, mas sabendo da competência e sabedoria do Gildo, comprei o livro dele também. Até pensei em pedir que escrevesse uma dedicatória, mas desisti. Não combinava comigo e, pensei na época, tampouco com o Gildo.

Eu sou formado em economia e, por essas ironias da vida, constitui um grupo de amigos – em geral de esquerda – que discutiam e muito sobre a política nacional. Havíamos lido os clássicos da economia política, também alguns clássicos da política (Hobbes, Maquiavel). Não faltou um conhecimento básico da historiografia nacional nem dos economistas do século XX. Até um pouco de sociologia nós lemos. Faltou principalmente a política. Eu mesmo só fui ouvir falar em Oliveira Vianna após entrar no mestrado na ciência política. Pois bem. Foi lendo o livro do Gildo que reforcei minha idéia de que aos economistas que querem intervir intelectualmente na vida nacional faz muita falta ler a literatura de ciência política brasileira.

O livro é um exemplo de clareza e estilo, mesmo com um assunto complexo. O objetivo central é claro desde o começo: "demarcar a existência, no plano das idéias e das formas de pensar, de continuidades, linhagens, tradições…" de forma a mostrar como "a vida ideológica brasileira [não] é aleatoria: faz, ao contrário, sistema e sentido, embora seja (ou tenha sido) descontínua, sujeita a ciclos culturais de substituição de importações que, por vezes, parecem fazer tábula rasa de todas as anteriores configurações. Qualquer que seja a consciência de sua própria história, ou o grau em que reconhecem os seus próprios acenstrais, suas princpais correntes não nasceram ontem e não se explicam apenas em função das conjunturas" (p. 45).

A chave interpretativa escolhida por Gildo é a de "idealismo orgânico" e "idealismo constitucional" formulada originalmente por Oliveira Vianna e retrabalhada pelo Gildo. De minha parte, após ler a chave interpretativa proposta pelo Gildo para o pensamento político brasileiro não consigo me desvencilhar dela. Vejo em todos os lados, do PT ao PSDB, idealismo orgânico e idealismo constuticional. Até eu mesmo, contraditório como sou, me pego um idealista constitucional na teoria, mas idealista orgânico na prática.

E assim, o Gildo, seu pensamento e suas práticas hão de ficar conosco por muito tempo ainda e haverão de iluminar nossos caminhos pessoais, intelectuais e políticos. É com muito pesar que recebi a notícia do seu falecimento. Não o conhecia muito pessoalmente, mas dele sempre tive boas notícias, seja por meio dos seus orientados, dos outros professores e de suas aulas e escritos. Mas, ao que tudo indica, Gildo foi um intelectual à brasileira, naquilo que a expressão tem de melhor.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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4 respostas para Intelectual à brasileira

  1. Maria Aparecida Abreu disse:

    Belo texto, Manoel!

    Gildo era uma rara combinação de comprometimento e paixão em tudo o que fazia. E sua garra, criatividade e alegria servirão de inspiração para todos os seus alunos e amigos (todos éramos as duas coisas…)

    A saudade é imensa.

  2. Joao Alexandre Peschanski disse:

    Prof. Gildo, quantas saudades!
    Para mim, ficara a imagem de um dos professores mais brilhantes que tive durante minha graduacao nas Cienciais Sociais. Fui seu aluno em 2001 e, lembro, chegavamos avidos para as aulas. Marcamos diversos encontros na sala dele, para discutir textos complementares. Sempre nos recebia com atencao. Contaminava-nos aos poucos com sua paixao pela pesquisa, pelo pensamento politico. Aprendi — aprendemos — muito. Obrigado pela dedicacao e carinho.
    Prof. Gildo, quantas saudades!

  3. Quero relatar brevemente meu contato com o Gildo. Eu entrei nas Ciências Sociais em 1993, mas só fui ter aula com ele na pós-graduação. Cursei duas disciplinas, Temas do pensamento político brasileiro e Teoria Política Moderna. Posso dizer que Gildo foi o melhor professor que tive em toda a minha vida, suas aulas eram vibrantes, instigantes, ele promovia um intenso debate entre os alunos e os professores e sempre era capaz de nos surpreender com suas exposições.
    Nunca vou esquecer suas aulas, aprendi muito com ele, como intelectual, como professor, como “gente de pessoa” que ele era, sempre aberto e amigo.
    Ele deixa uma saudade imensa e um exemplo de postura intelectual.

  4. Pingback: A propósito do texto do FHC | Blog Pra falar de coisas

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