Por que eu não acredito em métodos quantitativos

Métodos quantitativos, ou o uso de estatística em problemas aplicados são bons nas ciências duras, mas não nas ciências sociais. Cada pessoa, país, grupo social, é único e não é possível compará-los como se fossem iguais. Além do que, os fenômenos socials são complexos, não-lineares, dependentes de condições iniciais e caóticos, o que inviabiliza a análise estatística. Por isso, não gosto de métodos quantitativos nas ciências sociais nem recomendo a ninguém.

Os métodos estatísticos poderiam ser úteis se fossem utilizados com cuidado e apenas por aqueles que realmente dominam o assunto, e em situações específicas. Mas o seu uso indiscriminado é como colocar uma arma na mão de crianças: não pode sair algo bom daí.

Não é por outro motivo que a maior parte das aplicaçoes são modelos lineares, impostos a um mundo claramente não linear. E as poucas análises não lineares são apenas uma enganação, já que ou recorrem a umas poucas transformações simples das variáveis (log, potências etc.) ou então recorrem a  modelos não lineares restritivos como logit e probit.

Pior do que isso, nas ciências sociais não há dados experimentais. A amostra nunca é aleatória, mas produzida segundo algum componente sistemático pela história, componente esse que nós desconhecemos. Mas, fazemos de conta que os dados são aleatórios ou que as variáveis preditoras são fixas, como se o PIB, a renda individual, a idade e o nível de escolaridade pudessem ser fixos em qualquer sentido da palavra fixo.

Mesmo os métodos mais sofisticados, que tentam de alguma forma lidar com todos esses problemas, são eles mesmos pueris. O que são os efeitos fixos das regressões para dados de painéis se não uma forma de dizer que cada unidade da análise é especial, tem suas próprias características e nós não sabemos explicar isso? E, notem bem, isso não está no termo do erro, mas é um parâmetro do modelo a ser estimado. Qual é o avanço em dizer que um indivíduo fez isso ou aquilo porque há uma característica específica dele não observada? Isso não é fazer analise sofisticada, é dizer que não sabe explicar algo de uma maneira bonita.

Seria melhor, portanto, reconhecermos que o ser humano possui livre-arbítrio e, como tal, não pode ser analisado com números como se não possuisse vontade. As pesssoas dizem, erroneamente: Quanto maior a renda, maior o consumo. Ora, quer dizer que uma pessoa rica não pode reduzir seu consumo? Quer dizer que São Francisco de Assis não pode existir? Isso é ridículo. O ser humano é livre e só por isso já seria impossível querer predizer o que ele irá fazer. Nós não somos Deus.

Bons tempos em que uma boa análise em ciência social decorria de muito refletir sobre um assunto e conhecer em profundidade um caso específico. Quantas pessoas não se metem agora a falar do Brasil, EUA, Europa sem nem mesmo ter vivido nesses países? Mas os métodos quantitativos em ciências sociais são apenas uma moda e, como toda moda, irão passar.

ps.: a inspiração para esse post foi a brincadeira de primeiro de Abril do Andrew Gelman no blog dele.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino e marcado , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Por que eu não acredito em métodos quantitativos

  1. umberto disse:

    interessante…

  2. Espero que tenham gostado da brincadeira de primeiro de abril.

  3. luizgusmao disse:

    hahah… mto bom! reproduz com fidelidade os argumentos dos anti-quanti!

  4. luizgusmao disse:

    ow, vc ainda tá me devendo o texto q apresentou lá no seminário…

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