Endogeneidade e Viés de Seleção: réplica

O Pedro Neiva, pesquisador do Cebrap, fez um longo comentário a minha crítica à dissertação da Lara Mesquita. No comentário ele comenta da falta de espaço para discussão metodológica nas ciências sociais, em particular na política. Como eu concordo com ele nesse ponto, acho que para estimular esse debate nada melhor que postar o comentário dele, que é interessante.

No geral concordo com as idéias que ele apresenta, com discordâncias em alguns pontos específicos, mas que deixo para depois.

Segue o texto do Pedro Neiva.

Concordo com você que parece haver no trabalho em questão um problema de endogeneidade. Porém, ele parece sugerir também um problema de viés de seleção.
Ele aparece, a meu ver, pelo fato de que ela está trabalhando apenas com os deputados que se candidataram, deixando de fora aqueles que nem tentaram a reeleição. Como você diz, o número deles não é tão pequeno e o  viés parece vir exatamente daí.

Para ilustrar o que quero dizer, utilizarei o próprio trabalho do Heckman, que é a maior referência na área. O autor utiliza o exemplo do mercado de trabalho feminino. Segundo ele, ao tentar explicar o salário de 1600 mulheres, poderia estar caindo em um viés de seleção, caso deixasse as 400 mulheres que estavam desempregadas de fora. Para ele, a amostra deveria incluir as 2000 mulheres e não apenas as 1600 que estavam empregadas. Isso porque, as 400 estavam fora do mercado por motivos diversos (filhos, marido trabalha, não precisavam etc) e influenciavam também o salário das que estavam no mercado.

No caso da Lara,aparece uma idéia semelhante: os 100 parlamentares  que não se candidataram, o fizeram por motivos diversos (porque estão com medo do concorrente, porque concorrem a cargo estadual, porque fizeram alianças etc). Portanto, eles parecem influenciar o destino dos que concorrem. Posso estar errado, mas penso que ela deveria sim incluir tais deputados na sua amostra.

Resta saber qual a técnica mais adequada, pois o modelo Heckman tabalha com variavel dependente continua (no caso dele o salario das mulheres) e a VD da autora em discussão é uma variavel categórica (foi ou não reeleito).  Uma análise interessante (usando o proprio Heckman) seria, talvez, verificar a proporção de votos obtidos e não simplesmente a eleição/não eleição.   Desconheço um modelo que controle um viés de seleção para VD  categóricas, mas deve haver algum.

Como você, também não estou 100% seguro e lanço a dúvida mais como uma provocação, que eu não consegui me furtar.

Em tempo, elogio a sua iniciativa por promover a discussão, uma raridade ainda maior nas ciências sociais no Brasil do que a própria utilização adequada da técnica. Penso que deveríamos pensar em promover foruns desse tipo em encontros da ABCP, ANPOCS, bem como abrir espaços em revistas especializadas.

Portanto, parabéns, não apenas pela forma criteriosa como você expõe o seu argumento, mas também pela iniciativa.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia e marcado , , . Guardar link permanente.

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