Opiniões sobre assuntos (científicos) que não entendemos

Algum tempo atrás li um ótimo texto no blog do prof. Gelman sobre como ele formava opinião sobre assuntos (científicos) que ele não entendia bem, como aquecimento global. Opiniões sobre qualquer assunto sempre são complicadas se a pessoa pretende ter pesado as evidências e argumentos dos vários lados. É difícil evitar o viés ideológico ou qualquer outro tipo de viés. No The Monkey Cage há vários posts sobre o assunto(aqui, aqui e aqui) e não pretendo repeti-los aqui.

A questão central pra mim se deu com uma conversa com um amigo que estudou economia comigo, mas ao contrário de mim continuou na economia (hoje é doutor em economia). Na graduação nós éramos heterodoxos, ele continuou assim, eu também, mas como parei de estudar já não emito opinião sobre o assunto. Acontece que em economia ele está do lado dos dissidentes, não do consenso, e conversando com ele sobre o aquecimento global ele argumentou mais ou menso assim: eu tenho simpatia pelos céticos. Em economia, nós criticamos o mainstream e eu acho que nós estamos corretos. É comum acontecer isso na ciência, há muitos interesses, indústria da pulicação, dinheiro etc.

Eu entendo o argumento dele e acho razoável, mas no final das contas não gosto desse argumento. Não dá para acreditar que os cientistas de uma área estão presos por interesses apenas e/ou são burros e falharam em avaliar questões básicas. Eles podem estar errados, mas provavelmente tem boas razões para pensar o que pensam. O mesmo vale para os economistas. É difícil para alguém na minoria dizer isso, mas não dá para simplesmente acreditar no argumento de que todo (cientista) não percebeu coisas óbvias.

Eu entendo ceticismo de opiniões oriundas de um Banco Central ou FMI, que são insituições políticas, não se pautam apenas pela ciência e, portanto, não dá para esperar daí muita informação pelo que eles dizem. Mas se uma penca de economistas acadêmicos (não vale esse pessoal do mercado financeiro ou indústria) escrever um relatório dizendo isso e aquilo, é diferente e tem que ser dado um peso grande. Se você é um economista especialista em Macroeconomia, por exemplo, acho razoável que você seja um dissidente de um consenso desses, mas não espere que os leigos sigam você. Eles fazem bem em seguir um consenso acadêmico. Do mesmo modo, é o que as pessoas deveriam fazer com relação ao aquecimento global.

Isso não significa reconhcer que há incertezas nem que uma opinião assim formada é relativamente frágil. Mas o fato é que, com a hiperespecialização do saber, não tem muioto jeito. O pessoal mais iluminista vai ficar bravo comigo. O sentimento é compreensível e eu já o tive uma vez, quando estudava filosofia medieval. Aprendi que Santo Agostinho (ou Santo Tomás, não me lembro bem) defendia que eram os teólogos da Igreja quem deviam interpretar a Bíblia e dizer para os comuns o que eles deviam fazer. E tinha um episódio ilustrativo disso, que era o fato da mãe dele ter, durante anos, feito um certo ritual no dia de finados segundo as regras da Igreja e então, de um ano para outro, os teólogos decidiram que o Ritual estava proibido porque contra as sagradas escrituras. O que Santo Agostinho recomendava à sua mãe? Que ficasse cética para com a Igreja, ou que fosse ela mesma decidir por si própria lendo a Bíblia? Não mesmo. Que seguisse sem questionar a autoridade da Igreja.

Obviamente não recomendo estritamente o mesmo com a ciência. Se você quiser se informar para tirar suas próprias opiniões, deve fazê-lo. Mas se não possui o conhecimento técnico para isso e nem pretende adquirir esse conhecimento técnico, sua capacidade de entender a ciência é a mesma que a mãe Aanalfabeta tinha de ler a Bíblia e interpretar ela mesma o que era certo e errado. Diante desse fato, acho razoável ponderar o bom senso com a opinião dos experts se houver um consenso. Mais ou menos como se o seu bom senso fosse sua priori e a opinião dos experts fossem novos dados que deveriam resultar numa posteriori mais próxima da opinião dos experts, a depender do peso da priori e das evidências dos experts. Em todo caso, isso significa que consensos científicos devem sempre modificar um pouco sua opinião de leigo em direção ao consenso. Que é tudo que eu espero de pessoas razoáveis.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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10 respostas para Opiniões sobre assuntos (científicos) que não entendemos

  1. Rodolpho disse:

    Já foi consenso científico que o Sol girava em torno da Terra, que a Terra era plana, que havia geração espontânea, etc.
    Concordo com a atitude de aproximar-se da opinião dos experts, mas no caso específico do aquecimento global isso é mais complicado, pois não existe consenso e há interesses políticos.
    Lembro de você criticando um índice de liberdade porque se baseava na opinião de experts e, nisso, também estou de acordo. Sendo assim, se não concordamos com o índice, como podemos concordar com os aquecimentistas ou com os céticos?

  2. Humberto S. disse:

    Há momentos em que a discussão sobre aquecimento global beira o esoterismo. Não é usual que as ciências físicas abordem questões onde a construção do consenso simplesmente não se efetiva. Nessas ciências, as certezas costumam se produzir a partir de experimentos controlados, possíveis de serem reproduzidos por pares.
    No dilema do aquecimento, pode estar ocorrendo mais do que uma colisão de ideologias, problemas metodológicos reais, onde digamos, um biólogo, a partir das premissas inerentes à sua disciplina exclusivamente, está concluindo pela existência de aquecimento; Enquanto um físico atmosférico, conclui o contrário usando exclusivamente o seu ferramental. Para verificar tal hipótese, seria necessário tabular o posicionamento dos pesquisadores relativo ao aquecimento global, com a formação teórica de cada. Fico aguardando contribuições nesse sentido, caso já exista

  3. Marcel K. disse:

    Acho q em assuntos cientificos que fogem de nossa especialiadade, atuar como um filósofo faz é a única ferramenta que temos: reconhecer o problema, verificar a tese de cada lado da história e verificar a argumentação de cada um para basear suas teses.
    É o máximo que podemos nos aprofundar em um tema que foge da nossa alçada de estudos. Provavelmente grande parte dos argumentos vem, ou de complexas estatisticas, ou de fundamentos teóricos de cada área, ai o que podemos fazer é tentar ao menos identificar a base (ou intuição) do argumento e ponderá-los e compará-los entre si.

  4. Rodolpho,
    o índice Freedom House é formado por entrevista com ditos experts sabe-se lá em que amostra. Por exemplo, se as eleição são livres. Aí ele entrevista alguém (qual o critério amostral), que pode ser um empresário, qualquer um, e pimba, tá feito o índice para aquele país.

    Com relação ao aquecimento global, estou falando de cientistas. Veja que não tô falando de experts do governo, ou de insituições internacionais ou de ONGs como greenpeace.
    Consenso de cientistas é muito diferente de consenso de experts.

    A questão principal é de incentivos. O cientista, ainda que tenha incentivo para se adequar ao mainstream, tem incentivo pra provar que tem coisa errada também. E há honestidade intelectual suficiente para que uma análise bem feita repercuta entre e eles. Eu não acredito em teoria da conspiração de cienstistas do mundo todo, cuja principal função é só estudar, ensina e publicar.

    Por fim, quando eu falo consenso, obviamente é maneira de falar. Digo 80%, 90% que concordam com a tese do aquecimento global antopogênico. E aí tem esse “consenso”.

  5. Rodolpho disse:

    Bom, eles devem entrevistar mais que um sujeito. Em segundo lugar, não é teorida da conspiração, é uma adequação ideológica. Não digo que todos os aquecimentistas são comunistas, mas que o suposto aquecimento global antropogênico serve muito bem aos interesses comunistas, disso não há dúvida. Além do que muitos dos “cientistas” aquecimentistas barulhentos são visivelmente de esquerda.
    Agora sobre o consenso, duas coisas: 1)80% ou 90% não é consenso, chamar de consenso é uma bela distorção; 2)Já foi feito um survey descente pra saber quantos cientistas aptos a dar pitaco no assunto são acreditam ou desacreditam no fenômeno?

  6. Humberto S. disse:

    A tese do aquecimento global antropogênico deixou os círculos científicos e virou um debate realmente quente… Na história da ciência já vimos teorias sairem dos círculos acadêmicos e ganharem a luta aberta da polêmica, como a teoria da evolução de Darwin. Isso acontece porque são teorias que atingem as crenças coletivas sobre de onde viemos, no caso da teoria da evolução, ou pra onde vamos, no caso do aquecimento. No caso do aquecimento, acrescente ainda o folclóre do Apocalipse, muito tradicional no ocidente, que a tese começa a ficar muito familiar para a população nas ruas. A tese do aquecimento também atinge uma idéia muito consolidada, que é a fé depositada na tecnologia como instrumento que conduz à evolução dos povos. Refiro-me ao lema “só a tecnologia salva”, biblicamente falando.

  7. Umberto disse:

    Só sobre o Indice da Freedom House: Eu já usei em regressões o indice da freedom house e ele dá uma alta correlação com perguntas do tipo “você acha que existe liberdade de expressão em seu país?”. Coisa perto de .9, assim, eu acho bom!

  8. Umberto, você pode usar o Freedom House, mas eu não recomendaria. Ele é um índice claramente ruim. Eles mudam as perguntas de um ano para outro, a amostra não é aleatória, e quando eles não obtém informação, eles extrapolam sabe-se lá com que método. Em resumo, eles não são transparentes, aquilo é uma caixa preta e não seguem padrões minimamente científicos.

  9. Pingback: Quantos cientistas do Clima acreditam no Aquecimento Global Antropogênico? « Blog Pra falar de coisas

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