Viés cognitivo: quando correções factuais tem o efeito inverso

Após o meu texto sobre pitacos em assunto científico, fiquei sabendo pelo Ben Goldacre que saiu um artigo no journal Political Behaviour, intitulado: Quando correções falham: a persitência de falsa percepção política.

Os pesquisadores realizaram um experimento muito interessante que consistia basicamente no seguinte:  Indivíduos liam artigos de jornal contendo uma afirmação de uma figura política que reforçava alguma falsa percepção. Os indivíduos sob tratamento (escolhidos aleatoriamente) liam imediatamente após a falsa afirmação, uma correção factual. Os do grupo controle, não liam mais nada. Eles então eram solicitados a responder uma série de questões factuais e de opinião.

Por exemplo, Bush falava que havia armas de destruição em Massa no Iraque imediatamente antes da invasão americana. Os do grupo sob tratamento, liam em seguida a notícia de que o relatório oficial mostrou que não havia armas de destruição em massa no Iraque imediatamente antes da invasão, nem que o Iraque as transportou para outro país/grupo. Os do grupo controle só liam a declaração do Bush.

Pois bem, os resultados desse experimento? Indivíduos com mais conhecimento sobre o assunto eram mais prováveis de saber que não havia armas de destruição em massa, e indivíduos mais conservadores tinham maior probabilidade de acreditar que havia armas de destruição em massa.

Até aí tudo normal. A surpresa é que para os mais conservadores, a informação corretiva dizendo que não havia armas de destruição em massa aumentava a chance deles acreditarem que havia armas de destruição em massa! A informação correta para esse grupo reduziu o conhecimento deles sobre o assunto! Não só não teve efeito, como tornou as coisas piores. É o que eu chamarei de efeito inverso.

Preocupados que a questão fosse, por exemplo, viés da mídia (a notícia era da Associated Press) e que os conservadores estivessem achando que a mídia mentia, testaram o experimento com um outro desenho. Além das armas de destruição em massa, havia também uma informação sobre se corte de impostos aumentavam as receitas do governo e se Bush baniu pesquisas com células tronco (essa terceira é falsa e buscava testar a falsa percepção dos liberais/esquerdistas). Além disso, a notícia era atribuída ou ao New York Times (visto como mais liberal) ou Fox News (visto como mais  direitista).

O resultado? O efeito inverso não foi detectado para os esquerdistas/liberais.

Eu tenho uma hipótese para esse tipo de comportamento, no sentido de que tal resultado seria racional. Ainda estou tentando modelar isso, com atualização bayesiana, mas ainda não consegui. Assim que desenolver melhor minhas idéias eu irei postar aqui meus insights iniciais.

De todo modo, eu acho esses resultados extremamente razoáveis. Achei estranho o efeito inverso não ter ocorrido para os liberais. Quando eu vi um artigo que comentei aqui sobre melhoria em educação no Brasil da República Velha, minha primeira reação foi de não acreditar. Eu acreditava tanto que a República Velha era “do mal” que custava aceitar que a educação havia melhorado substantivamente no período. Tive que fazer um grande esforço para ler o artigo com a mente aberta. Viés cognitivo/ideológico? Com certeza. Evitar esse tipo de viés é hoje uma das minhas maiores preocupações. Ainda não descobri como, mas estou me esforçando para manter a mente aberta.

ps.: o artigo podia ter usado mais os gráficos e menos as tabelas para comunicar os efeitos da regressão.

ps.2: Será que há algum problema em regressão OLS para dados experimentais. Agora tô sem tempo de entrar nos detalhes. Quem tiver interesse, leia o excelente artigo do Deaton, sobre randomization in the Tropics. Depois eu leio e comento algo apropriado se for o caso.

ps.3: Em dezembro de 2010, eu corrigi o texto em algumas passagens para torná-lo mais claro.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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