Ditadura, terrorismo e Reinaldo Azevedo

Normalmente eu não perco tempo lendo o Reinaldo Azevedo, mas como ele resolveu argumentar, então vamos debater. Ele levanta pontos importantes do debate sobre a memória e reparação da época da Ditadura no Brasil ( por exemplo, o que fazer com as vítimas, sejam do governo de então, sejam dos guerrilheiros), mas o tom é claramente contrário à reparação para os ditos terroristas.

O que precisa ser dito claramente é que, na medida em que o governo (o Estado) aboliu a democracia e proibiu que os discontentes pudessem manifestar seu descontentamento formando partidos e tentando alterar a ordem vigente por meio da via legal, o que sobra para esses discontentes? Simplesmente aceitar as políticas do grupo dominante?

As ações dos grupos de esquerda, que envolveram desde sabotagem até o terrorismo, tem que ser enquadradas dessa ótica. Eu sou um pacifista, mas a verdade é que numa ditadura, se voce luta contra ela, você tem que considerar como opções tanto ações que não atingem pessoas (mas apenas os recursos materiais e simbólicos) até ações que atingem pessoas não diretamente vinculadas ao Estado. São ações que podem ser mais ou menos extremadas, mas não se pode criticá-las simplesmente porque elas atingiram pessoas inocentes. A responsabilidade primeira e sempre é do Governo, que forçou-as a ter que escolher qual caminho de violência iriam seguir. Mesmo quem discorde da ação violenta, do terrorismo político, não tem argumentos para não reconhecer que essas ações seriam totalmente erradas numa democracia, mas num ditadura é questão debatível.

O fato do RA e a direita desse país não condenarem os Delfims e Jarbas Passarinhos com muito mais vigor mostra bem como são seletivos em suas críticas do emprego da violência. Por isso que o tom com que escreve o Ra merece uma resposta. Porque se não, fica parecendo que é tudo a mesma coisa. Não é tudo a mesma coisa. Qume estava no governo tem muito mais responsabilidade.

Agora, as vítimas do terrorismo de esquerda também têm direito a memória e reparação. Não sou especialista no assunto, mas não me parece que haja qualquer proibição nesse sentido.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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2 respostas para Ditadura, terrorismo e Reinaldo Azevedo

  1. Rodolpho disse:

    Sou fundamentalmente diferente de você (eu e os liberais). Para nós o indivíduo é um fim, não um meio, por isso não nos é aceitável que se mate um inocente em prol de uma causa. Para mim, pelo menos, a vida é maior que a política, assim, ainda que esteja sob opressão de um governo, não posso atacar um cidadão. Você incorre na comum tática da esquerda de culpar outrem pelas suas ações. Não aceito o governo seja o maior (nem menor) responsável pelos assassinatos cometidos pelos terroristas. Essa justificativa de que não tinham meios legais é balela. Hoje vocês têm meios legais e ainda assim cometem ilegalidades (vide as invasões da Reitoria). Por fim, eu não sei o que o Delfim e o Passarinho fizeram, se mataram alguém deveriam estar na cadeia.

  2. O Delfim assinou o AI-5. O Passarinho foi Ministro (da Justiça, se não me engano) na ditadura.

    Eu vejo as coisas do seguinte modo. A democracia e suas insituições é um meio de se processar conflitos. Ela “diz”: olha, em vez de partir para a violência e confronto como forma de resolver suas diferenças, vamos tentr por meio de insituições e tal. Se ela funcionar, ela vai processar bem os conflitos e qualquer pessoas razoável vai seguir o caminho institucional.
    Porém, quanto mais a democracia falhar, mais e mais pessoas vão tentar outros caminhos, em geral fora da legalidade. Decidir em cada caso concreto se a democracia falhou e a ação fora da ordem é legítima ou não é sempre complicado, mas o padrão normativo para se julgar é esse.
    Então, se a ocupação da reitoria foi porque as insituições falharam em processar os conflitos ou porque o grupo que fez a ação não quer processar conflito coisa nenhuma e não aceita ser minoria, é intolerante, é debatível. Mas eu coloco as coisas nesses termos.
    Parece-me que a USP é um caso clássico de problema institucional. De todo modo, também pode ser (é minha opinião) que ao mesmo tempo temos grupos intolerantes que não aceitam ser minoria e problema da instituição em processar conflitos adequadamente.

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