Indivíduo, liberdade, responsabilidade e ideologia

Nos últimos posts e comentários, nós tocamos em alguns pontos importantes na diferenciação esquerda-direita, ou progressista-conservador, e que diz respeito ao lugar do indivíduo no processo social e político.

Uma forma de colocar a questão é por meio desse exemplo: Após um programa tipo bolsa-família lá nos EUA, alguém comenta: “[o programa] sugere que pobreza é uma escolha de estilo de vida, que de algum modo, se nos derem uma cutucada, nós podemos escolher não ir para essa condição, ou escolher mandar nossas crianças para escolas melhores, ou escolher como pais dar um cuidado melhor. Vem da idéia de que pobres são quasecomo que culturalmente e inerentemente disfuncional. Não por causa de circunstâncias estruturais, mas por causa de suas próprias falhas”.

O Cris Blattman responde o que é, para mim, a posição fundamental de quem é de esquerda (ênfase dele):

“Eu consigo entender essa reação, mas ela não capta o ponto. Minha leitura da pesquisa é: nós somos todos inerentemente disfuncionais, e circunstâncias estruturais empurraram alguns de nós para falhas pessoais. A idéia que alguma coisa tão pequena quanto uma cutucada pode ajudar muitos a voltar para o caminho é o testamento da inerente disfuncionalidade desses que são pobres”.

No fundo, minha posição aqui é a mesma do Richard Rorty, e que ecoa também o Adam Smith (da Teoria dos Sentimentos Morais). Ele (Rorty) dizia que uma questão chave é a de se colocar no lugar do outro. Numa dada situação, nós podemos sempre nos colocar no lugar do outro e nos identificar com o outro, ou visualizar uma diferença. Quando nós nos colocamos no lugar do outro, nós no solidarizamos. Quando vemos a diferença, a solidariedade não ocorre. A minha capacidade de solidarizar com o outro resume-se, no final, se eu vou me ver como sendo capaz de fazer a mesma coisa em circunstâncias similares, ou não.

Quando eu digo que todos são disfuncionais, eu estou facilitando a possibilidade de simpatizar com o outro. Quando eu digo que fulano é safado, é bandido, é mal, é vagabundo, é um f.d.p. etc, e obviamente assumindo que não sou nada disso, eu estou me colocando como diferente de tal modo que não há simpatia, mas antipatia.

E o que a esquerda faz em geral? Se identifica com os oprimidos e outros grupos, no sentido de que concebe como factível agir de modo similar naquelas circunstâncias, ou seja, enfatiza as ditas circunstâncias estruturantes, e não as predileções pessoais ou personalidades. Mas a esquerda não faz isso para outros grupos (é só ver o que ela fala do Bush), de forma que essa crença na disfuncionalidade compartilhada é só até a esquina.

Para mim, essa incoerência é meio natural mesmo. O Kant falava que o mundo era determinista, mas era necessário colocar o livre-arbítrio para preservar a moralidade (mais ou menos isso). Eu penso mais ou menso parecido. Só que em vez de determinismo estrito, prefiro falar em lei estatística (no sentido da termodinâmica, em que não importa o micro, o macro há uma lei estatística).  E a fonte da incoerência, provavelmente, está em que nós fomos acostumados a pensar no dia-a-dia hora em termos de livre-arbítrio, hora em termos de circunstâncias estruturantes. E quando eu digo acostumado, quero dizer até evolucionariamente.

Então, a incoerência é constituinte de nós mesmo e é difícil sair dela. Os debates são em geral meio becos sem saída justamente porque ninguém ousa olhar o outro se identificando com ele. Ideologia é um pouco isso.

E quanto à responsabilidade do indivíduo? Diria que é 50%-50%, mais ou menos. Para preservar o livre-arbítrio e a moralidade, como pensava o Kant.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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