O que eu penso da greve na USP

O Reitor andou escrevendo uns artigos nos jornais (aqui e aqui), ao que foi respondido pelo Chico de Oliveira e cia. Desnecessário dizer que não tenho simpatia alguma pelo Reitor atual, muito menos pela antecessora dele. Mas simpatia ou antipatia não ajuda em nada a refletir sobre a greve. Estando na USP há mais de 11 anos como estudante, creio que minha opinião pode ser útil.

Eu não sei exatamente o teor das reivindicações dos grevistas, mas posso dizer uma coisa: precisamos concordar que tem algo errado quando em 11 anos, mais ou menos em 7 ou 8 anos houve greve. E o pior é que, salvo raríssimas exceções (creio que a greve na FFLCH de 2002 e a greve de 2001), o resultado das greves foi pífio: aumentos salariais pequenos, de 5% a  10%. Então, a primeira coisa que se deve constatar é: greve todo ano para obter parcos aumentos de salário não dá.

E, mesmo com resultados tão modestos, porque as greves continuam? Porque os trabalhadores não tem custos de fazer a greve, e porque a greve não atinge o grosso da Universidade. Sim, é isso mesmo: as greves são conversa pra boi dormir. Nenhuma professor para de fazer pesquisa, a pós graduação em geral funciona etc. Só são atingidos alguns grupos, em geral os mais fracos (alunos que dependem do restaurante Universitário para se alimentar, alunos que dependem de Bolsa, aulas de cursos menos prestigiados, como os da FFLCH etc.).

Então, desse ponto de vista, diria que a greve é prejudicial à USP. Se os trabalhadores realmente achassem que uma greve de verdade era necessária, eles teriam os meios para conseguir o que quisessem. Bastaria não ter segurança algum nos prédios, todas as secretárias acadêmcias pararem de trabalhar e ninguém para limpar os prédios que o sistema entraria em colapso rapidinho. Por exemplo, teses não seriam defendidas, bolsas não seriam renovadas, financiamentos aprovados não seriam repassados aos pesquisadores, a internet não funcionaria.

E porque os funcionários não fazem uma greve para valer (e considerando que a USP não é um serviço essencial)? Porque a chiadeira interna seria muito grande, os custos altíssimos para a USP e eles não acreditam que aquilo pelo que lutam vale verdadeiramente à pena. Então, eles fingem que fazem greve, nós fingimos que acreditamos, e no meio do caminho alguns (como eu) somos prejudicados no meio do caminho.

A minha explicação para Greve? Falha institucional da USP e também da representação política dos trabalhadores. Os sindicatos estão mais interessados em manter o movimento na luta, como se diz, do que em qualquer outra coisa. Daí a necessidade de greve quase todo ano. E a Reitoria é incapaz de encampar um projeto decente de reorganização da Universidade, preferindo a inércia de manter os vários interesses satisfeitos. A Universidade, em todos os seus grupos, é excessivamente conservadora e, portanto, avessa a todo tipo de mudança.

Para mim, melhor seria se a USP fosse desmembrada em várias Universidades menores, mais fáceis de gerir e tomar decisões. Talvez cada Campus pudesse ser uma Universidade própria, com orçamento próprio. Seriam menos pontos de veto e mais coisas poderiam andar.

Além disso, é necessário acabar com a isonomia salarial entre as três Universidades. Mas isso não significa que a USP deve pagar salários maiores que as outras, mas que cada uma possa ter seu plano de carreira definido sem ter que acordar antes com as demais. É claro que, a continuar como é hoje a distribuição de recursos, a USP teria maiores salários e/ou mais professores por aluno, seguida da Unicamp e em pior situação a Unesp. Isso também teria que ser repensado dentro de um projeto do Estado de São Paulo para o ensino superior público estdual.

ps.: Olhei o Lattes do atual Reitor. Descubri que de 2000 para cá (portanto 10 anos) ele publicou apenas 7 artigos em revistas científicas, sendo que nenhuma delas é boa (usei o critério do Qualis da Capes, que classifica as revistas científicas brasileiras de todas as áreas e serve para analisar a qualidade dos programas de pós-graduação). Além disso, ele publicou 3 livros e vários capítulos de livros no período. Pode até ser bom pro Direito, mas bem fuim/fraco para a academia em geral.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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