Pra que servem modelos?

Estou tendo uma conversa com um amigo meu, muito brilhante, por e-mail, e surgiu o assunto dos modelos.
Tem aquela piada (em inglês) que diz: “economists are cool because they build their own models”… Mas não estamos aqui falando da Gisele Bündchen, mas de modelos científicos.

Eu argumentei que modelos são úteis se nos permitem chegar a resultados contra-intuitivos. Modelos – sofisticados ou não – para mostrar o óbvio são.. frustrantes, pois é usar canhão para matar mosca!

Meu amigo contra-argumentou que tem muito modelo tolo. No que ele tem razão, já que não basta querer ser contra-intutivo, pois você pode ser contra-intuitivo e… tolo. O exemplo disso, para mim, é o Gary Becker. Seus modelos fizeram o Dubner, co-autor do Freaknomics dizer: quase todas (se não todas) as mortes são suicídios”!

Obviamente tal conclusão derivada de modelos é contra-intutiva! Mas é ridícula e imbecil! Nesse caso, o modelo não serve pra nada.

Vale aqui a regra sugerida pelo Eric Rasmusen no seu livro Games & Information: se um modelo chega a um resultado contra-intuitivo, ou você deve repensar seu senso comum, ou repensar o modelo.

Mas isso tudo não implica que modelos são ruins. Modelos podem chegar a resultados contra-intuitivos e não serem ridículos e nos levarem a repensar nosso senso comum. A física é obviamente o exemplo de maior sucesso. Quem iria ter a ousadia de dizer que os modelos matemáticos da física quântica e seus resultados contra-intuitivos poderiam ter sido alcançados sem modelos formais?

É claro que há quem diga que modelos na física são diferentes de modelos nas ciências sociais. É uma tese defensável, mas é um longo caminho até estabelecer isso de forma convincente. O caminho mais fácil é reconhecer que nas ciências sociais nós podemos usar de forma frutífera modelos formais.

É claro que, na academia, às vezes modelos são construídos como se fossem jogos, em que o cara fica modificando uma hipotezezinha aqui e outra acolá apenas para ver o resultado, e sai publicando paper e isso é totalmente irrelevante para o resto das pesquisas. Mas a culpa não é do modelo, é do modelista.

Alguém pode dizer que fazer modelos pode levar os cientistas a se comportarem desse jeito sempre. Pode ser. Mas eu penso que tem menos a ver com a natureza dos modelos e mais com a natureza de como são organizados os trabalhos acadêmicos hoje em dia (ou desde sempre…). A maior parte do que é publicado (com modelos ou não) é irrelevante e praticamente não é lida. O que o acadêmico faz é publicar, independentemente se de qualidade ou não.

Por fim, há aquela questão que sempre volta: os trabalhos acadêmicos hoje em dia são tão preocupados com o rigor que, na ânsia de só estudar o que pode ser respondido rigorosamente, acaba só estudando coisas irrelevantes.
Esse é um bom argumento, mas no fundo revela as predileções das pessoas com respeito a dar opiniões infundadas ou não. Se ideologia tem a ver com discurso que falseia a realidade, então o discurso pouco rigoroso é bem afeito a ideologia.

É claro que pode-se dizer que o discurso dito rigoroso falseia a realidade ao recortar apenas o que é irrelevante. Não é uma questão fácil, e ambos os lados têm problemas, mas de maneira alguma me parece que abandonar o rigor possa ser a saída. Há trabalhos rigorosos sobre assuntos relevantes, alguns dos quais eu tenho comentado aqui mesmo, nesse blog.

ps.: pode parecer que eu igualei rigor com modelo, como se trabalhos sem modelos não pudessem ser rigorosos. Não é o que penso. Há trabalhos sem modelos (matemáticos ou estatísticos) que são rigorosos. A história das ciências sociais e médicas está cheia desses exemplos.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em ciência, Manoel Galdino e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s