Texto e contexto

Tenho um amigo que não gosta que você comente com ele cenas de filme que ele não viu e petende ver. Nada de spoiler, diz ele. Ele também não gosta de ler a sinpose antes nem saber que o filme tem um diálogo bom, ou que é para ele prestart atenção ao final ou coisas o tipo. Eu não sei exatamente os argumentos dele para tal postura, mas creio que ele não quer ser contaminado por expectativas e informações que não deveriam existir, como se o filme tivesse sido pensado e feito para ser visto sem esse contexto, numa autenticidade pura.

É claro que a autenticidade pura não existe e o texto sem contexto é uma miragem. O Rubens – mas que Rubens, perguntará o leitor? ao que eu respondo, Rubens Rodrigues Torres Filho, o que certamente não acrescentára muito para quem não fez filosofia na USP – dizia num belíssimo texto seu:

“Quando vemos uma pomba voando, estamos longe de simplesmente ver. Desenhamos no espaço sua trajetória, armamos um espaço tridimensional para servir de suporte a esse desenho, advinhamos o movimento das asas, a resistência do ar, e quase estamos vendo, como se tivéssemos olhar de raios x, o esqueleto da pomba. Ou não seia essa estrutura profunda algo mais superficial que a própria pomba, que encobre a pomba: talvez aquele quadro anatômico que vimos nua aula de biologia, no ginásio, e paira agora como um esquema diante de nós? Ou não seriam outras pombas ainda, que vimos outras vezes, no céu ou na tela do artista ou do cinema ou simplesmente na retina de nossa imaginação, atraída pelo chamariz de um texto literário? Não seriam esses outros pássaros-fantasma, esquemáticos, vindos de outros textos, que estariam servindo de chaves de leitura, de códigos para lermos esse outro texto, que no começo parecia a simples percepção do vôo de uma pomba?” [1]

Diz ainda:

“…temos diante de nós um texto para ler, um texto que se propõe à leitura. Esse texto se chama ‘mundo ocidental’, ‘capitalismo’, ‘sociedade burguesa’, ou simplesmente ‘mundo’, aquilo que está aí, ou como se queira (…). Esse teto é cifrado. Ese texto está entrelaçado de interpretações (‘leituras’), que se integram ao texto, atuam sobre o texto, reebem a ação do texto, são formadas e deformadas pelo texto, são também texto e contexto.” [2]

O texto do Rubens é belíssimo e todos deveriam ler todo o texto no original. Mas meu ponto aqui é outro, é justamente a questão dos códigos de leitura. Meu amigo, ao querer evitar saber sobre um filme, age como se esse cóidigo de leitura, sem as informações que ele nega, fosse uma chave de leitura que permitiria ler o verdadeiro texto que é o filme, e que outras chaves seriam menos valiosas. Tudo se passa como se ele conseguisse assim ter acesso à pomba verdadeira, para usar o exemplo do Rubens. Em suma, como se ele tivesse acesso, para usar um termo filosófico, ao em si da pomba, ou no caso dele, do filme.

Obviamente uma leitura não é mais fiel do que a outra, e revela inclusive uma certa ingenuidade. Quando você sabe que um filme é holywoodiano, você já sabe muito sobre o filme. Se ele tem Tom Cruise, quem é o diretor, a época do filme, se é uma adaptação de quadrinhos etc. Se você assiste à continuação do filme, Homem de Ferro II, por exemplo, sabe outra coisa do filme que se dissessem apenas, Homem de Ferro – como fizeram com o Hulk recentemente, que teve dois filmes na sequência, mas que não eram um sequência do outro. Em resumo, ver um filme com comentário de amigos e colegas é ver um outro filme, e não há porque imaginar que uma experiência é melhor do que a outra. E nem se ganha nada com isso, na medida em que o contexto é tão presente que essa não é uma experiência mais autêntica, menos urdida pelo texto do mundo. É simplesmente diferente e ainda, ingênua.

Na verdade, dá até para dizer que filmes bons mesmo, como livros, são aqueles justamente que permitem sua apreciação em vários contextos, sejam esses contextos épocas do mundo, da sua vida ou de outras leituras. Brás Cubas vale a pena ser lido por todos porque, não importa muito se você sabe que ele é um defunto autor, se você é brasileiro, se viveu no Rio na época do Império ou vive agora nem se você estudou Machado de Assis no colégio nas aulas de literatura. Todos esses contextos vão implicar diferentes leituras do texto, mas todas prazerosas, todas relevantes, todas maravilhosas. Pretender que uma dessas qualquer é mais autêntica que falsa, mais próxima do vivido que do aprendido, do real que do imaginário, do ser que da representação (e aqui eu parafraseio o Rubens) é, me perdoem a força od termo, uma tolice sem tamanho.

É claro, por outro lado, que há textos mais dependentes do contexto. É provável que o Sexto Sentido perca muito de sua qualidade ao se saber o final do filme. Esse é o caso de filmes menores, ou de textos piores. Mas o seu amigo sabiamente evitará dar essa informação, sabedor da importância do final para um bom aproveitamento do filme.

O que é importante é deixarmos de lado a idéia de que existe um autenticidade pura, um real em si que possa ser acessado por nós. A filosofia, mestre maior do ser enquanto tal, da coisa-em-si, já abandonou essas pretensões e ilusões há muito tempo. Já chegou a hora de nós abandonarmos essa crença também.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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