A propósito do texto do FHC

O FHC publicou um texto no Estadão em que fala das diferenças entre PT e PSDB, Dilma e Serra. Tem muita política no mesmo e que nem vale a pena gastar muito tempo.MAs tem outras coisas interessantes.

Do lado que é pura retórica pouco convincente, ele faz de conta que a Marina e os demais candidatos inexistem, como se estivéssemos já no segundo turno entre Dilma e Serra. Além disso, interpreta a subida da Dilma como vitória da oposição, pois ela “ainda” estaria com “só” 40%!

Mas vamos ao que interessa. Primeiro e menos importante, ele avisa para a sua turma, da direita, que esse negócio de que o PT quer implementar o socialismo (a Veja aventou esse risco faz umas 4 semanas) é besteira e é melhor parar com isso. Diz o FHC:  “Estamos longe dos dias em que o PT e sua candidata sonhavam com o que Lula nunca sonhou: o controle social dos meios de produção e uma sociedade socialista.” Recado pra turma direitista neo-con, com quem o FHC não se identifica.

Segundo e mais importante, para mim, é a idéia dele de que o PT e PSDB são sim bem diferentes. Diz FHC: “O voto decidirá entre dois modelos de sociedade. Um mais centralizador e burocrático, outro mais competitivo e meritocrático.” E depois arremata, com retórica política: “num [governo] haverá mais transparência e liberdade que no outro. Menos controle policialesco, menos ingerência de forças partidário-sindicais”.

FHC iguala o modelo “centralizador e burocrático” com Estado “policialesco” e “ingerência das forças partidárias-sindicais”. E iguala também modelo “competitivo” e “meritocrático” com transparência e liberdade. Diz que “há argumentos para defender qualquer dos dois”, mas é balela retórica, pois quem será contra transparência e liberdade? Melhor mesmo é ler o discurso para além da retórica de campanha política e saber identificar o que está por trás dessa oposição alegada entre PT e PSDB.

Para mim, parece aquilo que o saudoso Gildo designou por “idealismo orgânico” e “idealismo constitucional”, tomando emprestado as noções primeiramente criadas por Oliveira Vianna. Segundo essa perspectiva, tanto o idealista orgânico quanto o constitucional vêem no Estado brasileiro papel central a explicar a organização da sociedade. Porém, para o idealista orgânico, o Estado forte é necessário em virtude do caráter fragmentário e frágil da sociedade civil. Nessa perspectiva, a descentralização política seria a receita para que os cacqieus regionais, coronéis etc. impigissem à sociedade sivil, desorganizada, a dominação. Faltaria aí  um mercado competitivo no plano trabalhista e empresarial, e também organizações coletivas societais, no plano político. Em suma, a sociedade dependeria do Estado para poder se desenvolver. Já para o idealista constitucional, é justamente o Estado forte que impede o desenvolvimento societal, tanto no plano político quanto da economia. A crítica  ao Estado patrimonialista, por exemplo, seria decorrente dessa perspectiva.

Como se vê, o PT, defensor do modelo “centralizador e burocrático”, seria adepto do do idealismo orgânico, enquanto o PSDB, defensor do modelo “competitivo e meritocrático”, seria adepto do idealismo constitucional. Nessa chave, fica claro porque FHC poderia dizer que “há argumentos para defender qualquer dos dois”.

Importa, porém, saber até que ponto essa caracterização dos dois partidos é fiel à história recente de ambos, e também até que ponto é nesse chave (idealismo constuticional x orgânico) que devemos pensar as disputas políticas do Brasil.

Resposta a essas questões não cabem aqui, devido à complexidade das perguntas. Mas ofereço alguns apontamentos para posterior reflexão.

Sobre a validade dessa chave interpretativa, confesso que gosto muito dela. Principalmente porque vejo o Brasil como que dividido entre uma parte em que o idealismo orgânico é a resposta (Norte, Nordeste), e outra parte em que o idealismo constitucional é o melhor caminho (fundalmentalmente São Paulo). Aliás, a incapacidade dos paulistanos (em geral, tanto na esquerda quanto na direita) verem essa diferença entre São Paulo e outros estados sempre me chama a atenção. Mas ela me parece insuficiente diante de novos problemas políticos, como a questão da propriedade intelectual e o meio-ambiente. Além disso, a crítica ao capitalismo inexiste nessa chave, o que me incomoda um pouco.

Sobre até que ponto podemos dizer que o PT seria idealista orgânico e o PSDB idealista constuticonal, tenho o seguinte a dizer.

Primeiro, o DEM e o estilo Veja não se encaixam muito nessa de idealismo constitucional. Aliás, a crítica meio velada do FHC a essa turma deixa isso claro. Quão próximo o Serra está dessa turma e do discurso deles? Difícil dizer, mas ele se aproximou muito deles nos últimos anos.

Segundo, o PT na reação com os movimentos sociais – e penso aqui nos sindicatos e Sem-terra – se aproximou bastante de uma prática orientada pelo idealismo orgânico, tornando esses movimentos dependentes do Estado. Porém, sempre houve os “radicais de classe média” apoinado o PT, notadamente parte da intelectualidade e funcionários públicos e que não se encaixam bem nessa chave do idealismo orgânico. O fato de muitos intelectuais terem sido rifados e/ou se afastados pós-mensalão talvez corrobore a idéia de que no segundo mandato pestista o idealismo orgânico foi mais forte.

Terceiro, a financeirização da economia que começou com FHC e continuou no governo Lula diz muito sobre uma continuidade que sim, tanto faz, entre um e outro. FHC faz questão de esquecer, mas não é a toa que o Meirelles era do PSDB antes de ir para o Banco
Central.

Em resumo, acho que o texto do FHC pode servir para reflexão pelas questões que coloca, se nós soubermos ler essas questões dentro da retórica de campanha. E justamente é precio ler nos incômodos do texto os sintomas dessa chave mais profunda.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A propósito do texto do FHC

  1. Carlos disse:

    Faça uma nova análise, atual, será que o texto foi um tipo de premonição aos dias ATUAIS?

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