Porque votarei no Plínio

Começou ontem o horário eleitoral gratuito. Confirmando que ideologia faz você filtrar informação de um jeito até distorcer a realidade, quem é Dilmista viu um programa perfeito da Dilma e tudo errado no Serra. Quem é Serrista, viu o oposto, Dilma mal, Serra bem.

Eu não sou Dilmista nem Serrista, mas tampouco sou imparcial, obviamente. Mas o que tem me incomodado mesmo (positiviamente) é o excelente texto do Celso, do NPTO (é Celso, NPTO virou teu sobrenome agora) dizendo porque vota na Dilma. Eu que vou votar no Plínio fiquei pensado: porque vou votar nele mesmo? Só porque sou filiado ao PSOL?

Eu fiquei pensando mais um pouco, lendo e ouvindo as análises sobre os programas eleitorais, e o que mais me chama a atenção é a preocupação com a narrativa: todo mundo quer construir a narrativa dessa campanha: “De cara, aniquilou a possibilidade de qualquer outro factoide com a militância anti-ditatorial de Dilma” (Idelber); “Nas goleadas do futebol, há sempre um momento em que o jogo “sai do controle”, e qualquer tentativa de empate vai virando tentativa de manter em derrota em números aceitáveis. 17 de agosto bem pode ter marcado esse momento da partida para a candidatura de José Serra” (Idelber). Num jornal na globo news, os comentaristasa discutiam abertamente o que Serra deveria fazer para virar o jogo. Parecia quando o Galvão pergunta pro Casagrande: – Casagrande, o que o Flamengo tem que fazer para virar o jogo? E ai o Casagrande responde o que tem pra fazer, ao invés de analisar o jogo, ou como se do outro lado não tivesse também um time com torcedores. Aliás, essa redução da discussão política ao lado futebolístico da coisa ainda tem muito a ser explorado nessa campanha…

Mas voltemos ao texto do Celso, que não foi pelo lado futebolístico da coisa. Aqui eu faço a crítica ao texto dele, e ao mesmo tempo faço a defesa do Plínio. Achei a melhor forma fazer assim, e não simplesmente defender o Plínio, por duas razões: primeiro que defender o Plínio hoje é criticar Lula/Dilma, e o texto do Celso é uma das melhores defesas de Lula/Dilma; segundo porque para fazer essa crítica e ao mesmo tempo afirmar o Plínio, a forma de “desconstrução” do texto alheio-construção do meu texto me pareceu a mais adequada.

Note que o Celso começa seu texto dizendo meio que Marina, Dilma e Serra são meio parecidos e não há tanta diferença assim não pro Brasil. É só porque tem que escolher que ele vai de Dilma. A estratégia é clara: não é por ideologia petista dele, nem por que cada uma representa intereses/ideologias (classes, dir-se-ia antigamente) diferentes que ele votará na Dilma. Ora, essa é a primeira razão porque alguém pode querer votar no Plínio. Nem precisa acreditar em luta de classes, ou que a luta de classes move o mundo – eu mesmo não acredito  nisso. Mas basta acreditar que há interesses irreconciliáveis e que será preciso enfrentar esses interesses se colocando de um lado ou de outro, e que fazer issos às claras é a maior força que se pode dar ao lado mais fraco nessa história. Porque, às escondidas, escamoteando conflitos, quem se beneficia é quem tem acesso ao poder, é quem tem mais dinheiro e mídia parta mobilizar seus interesses.

O segundo parágrafo do Celso confirma a opção conservadora que é Dilma/Lula. Um governo tem que ser democrático (sic), manter a estabilidade econômica e reduzir pobreza-desigualdade. Por essa avaliação, o governo Lula foi ótimo.

Estranho que um sociológo como o Celso confunda governo com regime político do país. Governos não são democráticos, instituições são democráticas. Aliás, quando o governo Lula quis instituir o conselho do jornalismo, todo mundo dizia que o PT queria censurar a mídia e que era autoritário. Ou a insituição criada era autoritária ou não. Mas o governo é demcorático se segue a democracia do país. Essa confusão só serviu até hoje para ajudar a turma de Daniel Dantas e a mídia golpista desse país. Então paremos de elogiar o Lula pelo que ele não é. Ou melhor, pelo que ele é, mas não é mérito dele ser.

Implicitamente, claro, o Celso quer comparar o Lula com o Chávez. Mas isso só mostra o erro da confusão conceitual. Na Venezuela, deram um golpe no Chávez, a oposição boicotou eleições legislativas e o escambau. Pela lógica dele, sendo a oposição anti-democrática, e talvez o Chávez também, a Venezuela não seria mais democracia. Aliás, os EUA também não no governo Bush, hein? Em resumo, a salada sociológica serve a quê? Para nada que preste.

Sobre o “sucesso” da economia, vamos aos números. Comecemos pelo principal: o Brasil gasta por ano mais de 10 vezes com pagamento de juros do que gasta com o Bolsa Família. Deixa eu repetir: o bolsa família, a grande revolução social lulista, é 10 vezes menor do que o que o governo paga de juros da dívida pública. Note que eu só estou contando no pagamento de juros o dinheiro que o governo tira dos impostos para pagar os juros. Não estou contabilizando a parte do dinheiro que ele toma emprestado para pagar de juros, aumentando assim a dívida pública ano após ano. Para você ter uma idéia, em 1995, quando o FHC assumiu, a dívida era da ordem de 60 bilhões de reais. Entregou em 2003 pro Lula por volta de 1 trilhão de reais. Agora o Lula deixa em 2 trilhões de reais pro próximo presidente. Com a taxa selic, que remunera os títulos, em 10% ao ano (a maior do mundo em termos reais), são só 200 bilhões de reais só de juros da dívida interna (nem tô contando a dívida externa).

Mas não é só isso. O Brasil a cada dia que passa depende cada vez mais do capital estrangeiro que vem pro Brasil, não só no crédito para as exportações e importações, mas para fechar o balanço de pagamentos, isto é, que todos os dólares que saírem do Brasil o país tenha dólar para pagar. Isso não é um problema no curto prazo, como não foi pro FHC em 95, 96, 97… Mas uma hora a conta vai estourar se a coisa continuar como está. Mas o câmbio está baixo, a classe média pode ir pra Miami, o povão pode comprar suas bugigangas chineses e o BC consegue segurar a inflação sendo só o campeão mundial dos juros, sem precisar ser o campeão mundial disparado. Então, porque mexer em time que está ganhando? Afinal, o Lula agrada todo mundo, não é mesmo? Ele conseguiu a mágica de fazer todo mundo sair ganhando, ninguém sair perdendo e o Brasil agora é assim: Serra, Marina ou Dilma, não tem conflito importante a resolver não, o Lula acabou com isso.

Mas é só olhar pros EUA, ou então pra Grécia e Espanha e ver que, quando a crise chegar – e ela vai chegar, pode ser mais cedo ou mais tarde -, os mesmos analistas que elogiavam a política econômica do país vão criticá-la, e dizer que infelizmente o trabalhador vai ter que reduzir o seu salário para que a produtividade da economia do país fique compatível com o resto do mundo. E para a inflação não voltar com a desvalorização do câmbio, o Banco Central terá de subir os juros, aumentando mais ainda o valor pago pelo governo com juros.

Veja bem, o que o Lula conseguiu – agradar aos banqueiros e reduzir a pobreza e desigualdade – é realmente admirável e digno de muita arte da parte dele. Foi algo que poucos ou ninguém conseguiu fazer antes, e muito melhor que FHC. A forma como lidamos com a crise em 2009 é prova dessa superioridade em relação ao período FHC. E, não custa repetir, a redução da pobreza feita no período é excepcional na história do país.

Mas como o Celso mesmo diz, é preciso olhar para frente, para o que queremos pro nosso país. Queremos aprofundar esse modelo de evitar conflitos inevitáveis? Queremos para nossas vidas expandir o modelo consumista para todas as classes e, como disse o Giannetti outro dia, se tudo der certo virarmos um estado pobre do meio-oeste norte-americano? É esse o sonho pro nosso país? É essa a nossa maior contribuição para a humanidade?

Se for isso que vocês querem, apostar no consumismo para todas as classes, na política despolitizada – posto que sem conflito – onde os Daniels Dantas e Gilmares Mendes vão fazer suas reinaldices, e com cidadãos transformados em consumidores, então votem na Dilma.

Mas se não é isso que vocês querem para suas vidas individualmente nem para seus concidadãos, se vocês querem mostrar que é preciso verdadeiramente revolucionar nossa forma de vida, preservar o meio-ambiente sem meias palavras, recolocar a sustentabilidade no eixo de nossas vidas, com todos os sacrifícios que isso irá demandar… Em suma, se nós nos julgamos a altura de cumprir com essa tarefa história de aproveitar nossas potencialidades para combinar um modelo de produção, distribuição e consumo que não sejam desenfreados e que nós sabemos reconhecer os conflitos e processá-los através da democracia politizada, então só o voto no Plínio é capaz de sinalizar isso, de por em marcha o começo dessa mudança.

O Plínio deixou claro no debate da Band que o conflito precisa ser exposto e que o Psol não irá fazer de conta que é possível agradar a todo mundo. A história política do Plínio mostra também que ele é comprometido com alguns lados na luta política brasileira,  o lado progressista. É na luta pelo direito das mulheres, na luta contra o eco-capitalismo, na defesa intransigente da escola pública, em suma, na construção da coisa pública, de um país de cidadãos iguais não apenas na forma, na letra da lei, mas cidadãos iguais de fato, sem diferenças de acesso à educação de qualidade, à terra,  na distribuição de renda.

Certamente o Plínio não vai ganhar essa eleição. Mas seria ilusório acreditar que essa mudança será construída em três meses de campanha presidencial e vender isso seria mais uma vez não entender a natureza do conflito humano. Mas podemos começar agora, fazendo esse voto indicativo da direção em que queremos mudar. O voto no Plínio pode vir a ter essa força. E porque eu aposto nessa mudança, mesmo sendo improvável, que eu voto no Plínio. Ainda prefiro apostar nesse mundo imrpovável, que me resignar a viver num mundo administrado condenado ao desastre ambiental e materialista que estamos nos destinando.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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