Um passo pra trás para dar dois passos para frente

A frase acima é do Lenin (mais ou menos isso) e se referia a idéia de que às vezes é preciso recuar para conseguir avançar mais. Essa frase me veio a cabeça quando li um texto do Jonh Cook, do blog endeavour.

No texto ele discute um experimento, em que um grupo de pessoas recebeu um software útil para resolver uma tarefa, e outro grupo um software mais rudimentar. No começo, as pessoas com o software útil foram melhores, mas ao final, o outro grupo se saiu melhor. O que explica isso?

Não sei quanto ao experimento, mas em muitas situações da vida é muito comum que você aprenda a fazer as coisas de um jeito e que são eficientes. Porém, para fazer de uma forma mais eficiente ainda, é preciso aprender outra técnica. Ocorre que na primeira técnica você é um “craque”, enquanto que na segunda técnica você terá de aprender mais ou menos do zero, o que diminuirá seu desempenho no curto prazo.

Em matemática, isso se chama de máximo local. Às vezes, o caminho imediatamente mais fácil leva rapidamente a um máximo local.E um caminho mais lento leva ao máximo global. O problema do Máximo local, além do fato dele ser local, é que para ir para o máximo global é preciso ir para um ponto menor, para só então voltar a subir.

A figura abaixo ilustra bem esse ponto.

Outro dia aconteceu algo comigo parecido. Estou aprendendo a jogar tênis e havia, depois de 6 meses de aula, aprendido a sacar sem cometer erros. O problema é que meu saque não tinha variação. Então meu professor começou a ensinar outro tipo de saque. Nesse ínterim, desaprendi o outro saque e meu jogo piorou. Agora, tenho habilidades com os dois tipos de saque e posso variar durante o jogo de acordo com as necessidades. Passei de um máximo local para um global (ou outro local, mais alto que o primeiro).

Eu conversei isso com meu professor (não com essas palavras, claro). Disse que, embora eu não estivesse gostando de perder jogos por causa do meu saque ruim, sabia que no longo prazo iria ser melhor para o meu jogo. E ele disse que muitos alunos dele não entendiam isso e preferiam ficar com o que já sabiam, a ter que desaprender o que sabiam e aprender algo novo, justamente pelo custo da transição.

Eu acredito inclusive que isso explica muitas coisas do nosso mundo. Há um texto muito bom do Michael Nilsen explorando essa idéia para o caso dos jornais, incapazes de se adaptarem a era da internet. Segundo ele, não é que os administradores dos jornais sejam incompetentes, mas é que estão presos a uma máximo local e a transição para o outro máximo é tão custosa que acaba inviabilizada. Apenas quando não tiverem outra alternativa é que vão mudar a forma de fazer jornalismo. No caminho, alguns jornais vão deixar de existir.

Quando a pressão por resultados imediatos é muito grande, as pessoas tenderão a ficar no máximo local. Apenas quando inovadores migrarem para o máximo global (ou outro máximo local, maior) e tornarem a situação anterior insustentável é que as pessoas mudarão, com custos ainda maiores.

Se você pensar, a função da escola é um pouco essa, de te preparar para atingir máximos globais. Ocorre que as pessoas frequentemente reclamam que a escola não é prática, não prepara para o mercado de trabalho etc. Ora, se a escola só te preparar para o máximo local, certamente você irá melhor no curto prazo. Mas sendo incapaz de desaprender o aprendido e ir para o novo, você facilmente ficará obsoleto.

Eu acho inclusive que essa idéia do máximo local está presete no pensamento de grandes visionários. Quando Hegel dizia que uma sociedade precisa, de tempos em tempos ,entrar em guerra consigo mesmo para quebrar os particularismos que se enraizam, creio que pensava em algo assim. Ficamos presos a máximos locais e evitamos a mudança pelo custo que ela exige. Mas isso é pior no longo prazo.

É preciso ser uma metamorfose ambulante, como dizia Raul, ou então praticar a revolução permanente, como dizia trotski. Eu gosto de falar em máximos locais, pela simplicidade da idéia e precisão matemática. Mas no fundo é tudo a mesma coisa e passa a mesma importante idéia: às vezes, é preciso desaprender o que se sabe para aprender algo novo.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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3 respostas para Um passo pra trás para dar dois passos para frente

  1. Pingback: Não, não, não… de novo | Blog Pra falar de coisas

  2. Pingback: Inovação, viés para o status quo e multi-armed bandit problem | Blog Pra falar de coisas

  3. Wilson Ferreira disse:

    Olá! Comecei a ler o blog numa publicação sobre a música do Adoniran, fiquei encantado. Depois cliquei nessa matéria porque se referia ao NEP, nova política econômica, e estou ficando encantado com o blog. Você é genial, consegue usar o saber matemática e a economia adjunto aos conhecimentos humanísticos.

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