Vi no Nassif esse texto do Dr. Alexandre Feldman (mas será que ele tem Doutorado?). No texto ele faz uma crítica aos limites da chamada medicina baseada em evidências para dizer que o Bom Senso do médico deve vir antes de tudo. Diz ele no blog dele:

“O ser humano doente deve, na minha visão e na visão dos médicos e nutricionistas que conheço, ser considerado como um indivíduo único com necessidades personalizadas, e jamais uma mera estatística”. E ainda, “Para mim, o bom-senso está acima de tudo”.

Claro que eu não podia deixar passar uma asneira dessas.

Começo explicando a troça com o título de Dr. Eu particularmente não tenho nada contra o médico usar o título de Doutor sem ter doutorado, já que vem de uma larga tradição. Mas é bom que o médico saiba que, na história da medicina, houve uma grande luta de poder para definir quem era médico e quais as atribuições do médico, e isso em contraposição a outras profissões da súde (químico, droguistas, farmacêitocs, boticários etc.) e também em contraposição à terapia popular e aos charlatães. E o título de Dr., nesse caso, ajuda esse sistema de poder. Então, tem algo de suspeito em alguém que se auto-intitula Doutor sem doutorado questione uma das bases desse poder e faça o eleogio do bom-senso.

A pergunta natural a quem defende o bom senso acima de tudo é: o bom senso do médico vale mais que meu bon senso? Minha mãe dizia sempre pra eu não tomar sereno quando tava gripado e enrolar o pano no meu pescoço quando a garganta tava inflamada. Quer dizer que o bom senso de minha mãe deve ficar acima dos estudos com estatística? Quer dizer que o Dr. cobra sua consulta porque seu bom senso é melhor que o meu?

Ok, tô fazendo troça, mas o argumento tem um ponto sério: onde termina o bom senso e onde começa a imperícia? Onde termina o bom senso e onde começa o viés de todo ser humano? Onde termina o bom senso e onde começa as predileções pessoais? É nisso que eu devo confiar quando vou ao médico? Dá para confiar no bom senso de alguém que julga seu próprio bom senso algo tão elevado?

Veja o que diz um comentário de professor, Timothy Church, ao artigo do BMJ sobre paraquedas:

“Several high profile medical procedures that were “obviously” effective have been shown by randomized trials to be (oops) killing people when compared to placebo. For starters to a long list of such failed therapies, look at antiarrhythmics for post-MI arrhythmias, prophylaxis for T. gondii in HIV infection, and endarterectomy for carotid stenosis; all were proven to be harmful rather than helpful in randomized trials, and in the face of widespread opposition to even testing them against no treatment. In theory they ‘had to work.’ But didn’t.”

(…)

The author offers as an alternative to evidence-based methods the “common sense” method, which is really the “trust me, I’m a doctor” method. That’s not worked out so well in many high profile cases (see above, plus note the recent finding that expensive, profitable angioplasty and coronary artery by-pass grafts are no better than simple medical treatment of arteriosclerosis). And these are just the ones for which careful scientists have been able to do randomized trials. Most of our accepted therapies never have been subjected to such scrutiny, but it is breathtaking how frequently such scrutiny reveals problems.

Thanks, but I’ll stick with scientifically proven remedies.”

Além de todos esse argumentos, devo dizer que quando um médico faz propaganda na internet de seus serviços falando em não tratar o paciente como um estatística eu já suspeito. Esse papo de ver o ser humano como um todo, holisticamente, cada um com sua individualidade e necessidades especiais… Serve a que? O cara cobra R$ 350,00 por uma consulta para tratar enxaqueca, já avisa que o tratamento demora pois é preciso conhcer tudo do paciente, desde a infância… E não aceita convênio, só particular, pois esse negócio de convênio não permite a interação efetiva entre médico e paciente. Não permite mesmo, mas ganhando R$ 350,00 por uma consulta de uma hora é que vai permitir, né?

Fico realmente irritado quando eu vejo essas abobrinhas sobre estatística, “o ser humando não é uma estatística”. Ora isso é quando o bom senso vira o pior do senso comum. Não há oposição entre análise estatística e a individualidade das pessoas. Falar uma coisa dessas é ou má fé ou ignorância completa sobre a análise estatística.

Sei não viu, mas o Nassif faz um desserviço imenso ao propagandear esse Doutor sem doutorado. Se alguém tem alguma dúvida disso ainda, olhem a linguagem do site dele quando fala da questão do pagamento:

“Pagamento No Ato ou Antecipado?

Nós aplicamos o Código de Honra. Em outras palavras, O Dr. Feldman honra com o compromisso marcado, reservando o horário em sua agenda baseado na palavra do seu paciente, não requerendo pagamento antecipado” (grifos meus).

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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