Mérito e sorte de governo

Aproveitando que o NPTO já falou o que tinha que falar sobre o tal risco de Mexicanização e sobre a Reforma política numa entrevista que o Limongi deu, eu abordo dois pontos que o NPTO deixou passar da entrevista, um que eu não gostei, outro que alguns não gostaram:

O que explica o atual crescimento do PT?

É possível notar um crescimento constante do PT, eleição a eleição, até 2002, quando dá um salto e ganha. Tenho lido análises ressaltando um “aumento significativo” no apoio ao PT entre 2002 e 2006. Mas acho que esse crescimento é de magnitude menor do que se supõe. Houve, sim, adição de votos de outros eleitores em momentos específicos, mas o petismo mantém-se mais ou menos constante, na faixa dos 18%, 20% do eleitorado. Nos últimos anos, ganhou eleitores de baixa renda nas cidades do Nordeste e perdeu parte dos mais educados e ricos do Sudeste. O PSDB, por sua vez, deixou escapar esses eleitores pobres quando sua aliança com os pefelistas se desfez em 2002 e a economia se deteriorou. Em 1994, a argumentação do governo Fernando Henrique era a de que estavam “arrumando a casa” para crescer depois. Tanto que, em 1998, a composição do segundo ministério privilegiou os desenvolvimentistas. Mas aí vem a crise asiática e o eleitor diz ‘é hora de dar o poder a outro’.” (grifos em negrito são meus)

O Limongi atribui a derrota de 2002, entre outras coisas (ou principalmente), ao fato do Serra não ter se aliado com o PFL, mas com o PMDB (Rita Camata era a vice). Na visão dele, o Serra perdeu entrada nos eleitores pobres, reduto do PFL.

Eu não vi os dados em detalhe, mas essa tese eu não compro. Aqui ele parece sugerir que a questão não é a economia, mas capilaridade partidária nas alianças regionais. Ou a economia tava uma droga e foi fundamentalmente por isso que perdeu, ou então que se dane a economia, o que importa é a capilaridade do PFL nos lugares mais atrasados. Aliás é por isso que ele diz que o Serra agora fez tudo certo quando se aliou logo com o PFL. Mas o PFL de 2002 não é o mesmo PFL de 2010. E quando o Serra foi pra o centro ao se aliar com o PMDB, será que ele faz pior que a Dilma agora? Complicado.

Mas o que eu quero chamar a atenção mesmo é pra esse trecho aqui.

Ou seja, boa parte do eleitorado sente-se satisfeita e tem receio de mudar.

Por que iria? O eleitor é conservador. Foi conservador em 1998, quando poderia ter dito “o Plano Real nos trouxe uma melhora, mas o crescimento não veio”. Esperou e só falou “é a vez da oposição” quando a situação ruim se perpetuou – o que, como pessoalmente acho, não teve muito a ver com a gestão do PSDB, mas com as circunstâncias internacionais. Simplesmente, deu azar. o mundo não estava legal (risos). E o mundo agora está legal.”

Teve gente que achou isso meio ridículo. Eu não concordo, mas  ponto que é relevante é o seguinte: Você observa se a economia vai bem ou não. Agora, é fato que os economistas não entendem de macroeconomia, ou pelo menos não se entendem. Então, fica difícil saber se e o que é mérito (demérito) de um governo quando a economia vai bem (mal). o NPTO tá perguntando isso lá no blog dele a propósito da crítica do Krugman ao governo Obama.

Vejam que o argumento dos petistas pra justificar o neoliberalismo de 2003 (BC pro Meirelles, superávit fiscal maior que o acordado com o FMI etc.) é que o Brasil encontrava-se numa situação difícil, insustentável, e tinha que ceder ao neoliberalismo. Apenas com o ganho de graus de liberdade nos anos seguintes o governo pôde efetivamente ser Petista!

Ora, mas é isso que argumenta a turma do FHC pra justificar o mal desempenho econômico. Algo como, “vivemos o tempo inteiro sobre pressão e nunca tivemos os graus de liberdade pra fazer a mudançaque queríamos”. Sem falar que, astúcia da razão ou não, o escândalo que derrubou gente da economia no FHC derrubou os desenvolvimentistas (Mendonção), e o escândalo que derrubou gente da economia no Lula derrubou o neoliberal (Paloci). Então, fica a dúvida de como seria o mundo, fosse outra a conjuntura das coisas.

Note ainda que quem ganhou a disputa MDIC(Furlan) x BNDES (Lessa, Darc Costa) no governo lula não foi o desenvolvimentista, mas o (não diria liberal) tipo pragmático com ênfase em gestão. Depois é que veio a turma do Coutinho.

Então, é bem legítimo se perguntar quais fatores fortuitos é que respondem pelo sucesso econômico, e quais não são. É claro que a crise internacional de 2009 ajudou quem argumenta que o governo Lula teve seus méritos próprios. É aí que eu me encontro. Mas não acho um despropósito (embora ache mais complicado de sustentar) que argumente que o colchão crido pela conjuntura favorável permitiu os graus de liberdade na crise e que qualquer governante, com esses graus de liberdade (FHC e Serra aí incluídos) teriam feito mais ou menos o mesmo.

Pra resumir, não acho asneira não, e tampouco acho suficiente só apontar pra realidade e dizer, taí a prova. É o típico argumento que apela pro que é imediato (sem mediação) e deixa embaraçado quem tem que dar mil voltas com um argumento complexo pra explicar porque o que aparente ser, na verdade não é. Funciona em debates, mas não é boa análise.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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