Superstição, Esclarecimento e Terapias Médicas Alternativas

Alterta : esse texto é uma tentativa algo confusa e longa de tentar esclarecer para mim mesmo alguns temas que julgo importantes.

Para quem não sabe, o SUS aprova (isto é, paga) pelas chamadas práticas complementares de saúde, como homeopatia, acumpultura, medicina antroposófica (seja lá o que isso queira dizer) e termalismo.

Que as pessoas queiram recorrer a superstições para curar seus males, é natural e não serei eu a acreditar na possibilidade de abolir tal prática. Agora, que o Estado utilize dinheiro dos nossos impostos para promover a superstição é coisa realmente surpreendente.

Por outro lado, talvez não seja tão surpreendente assim. Se dá voto, por que não?

Porque dizer que essas práticas alternativas são superstições? E porque não querer que o Estado as apoie?

Pra mim as resposta começam pelo Esclarecimento. O problema é que o Esclarecimento é alo difícil e vou ter que falar de coisas que não entendo muito, induzindo-me às abobrinhas… Mas enfim, não vejo outro jeito…

Eis o que dizem Adorno e Horkheimer no começo do livro Dialética do Esclarecimento:

“Esclarecimento, entendido no sentido mais amplo como o avanço do pensamento, sempre objetivou liberar os seres humanos do medo e colocá-los como mestres. No entanto toda a terra esclarecida encontra-se radiante com a calamidade triunfante. Queria acabar com os mitos, superar fantasia com conhecimento” (tradução livre do inglês).

A tese é bem conhecida. “Mito é já esclarecimento, e o Esclarecimento reverte para a mitologia”.  Quer dizer, há algo de esclarecimento no mito e o esclarecimento, que procurava acabar com o mito, acabou tendendo para a mitologia. E o medo aparece aí como um componentes fundamental a explicar esse processo histórico. Temos medo do desconhecido e o mito é um resposta a esse medo. O Esclarecimento é uma tentativa de acabar com o medo.

Obviamente a narrativa é complexa e não quero aqui gastar muito tempo com ela. Mais importante para mim são duas coisas:

1. a forma como eles vêem o esclarecimento.

2. o lugar do medo nesse processo.

Quanto ao primeiro ponto, vejamos o que diz Kant sobre o esclarecimento. No texto chamado “O que é esclarecimento?”, eis a resposta inicial de Kant:

Enlightenment is man’s emergence from his self-imposed immaturity. Immaturity is the inability to use one’s understanding without guidance from another. This immaturity is self-imposed when its cause lies not in lack of understanding, but in lack of resolve and courage to use it without guidance from another. Sapere Aude! [dare to know] “Have courage to use your own understanding!”–that is the motto of enlightenment.

Veja que aqui o conhecimento é fundamental, mas não é o mais importante. A imaturidade não advém somente da falta de entendimento, mas de resolução, de coragem. É o medo de errar tirando a vontade de acertar, já diria o filósofo Vanderlei Luxemburgo. Mais uma vez vemos o medo ocupando um lugar importante, embora para Kant a liberdade poderá nos levar ao esclarecimento e, ao ter liberdade para o que ele chama de uso público da razão, estariamos no processo de esclarecimento da humanidade, em suma, de auto-determinação e emancipação da dominação pelos outros.

Obviamente Kant foi sobejamente otimista. Nossa capacidade de cair no medo nos leva de novo e sempre à superstição, ou mitologia, para ficar com Adorno. De forma que, de tanto falar de medo, preciso falar de Espinosa, que pra mim é o mestre supremo do medo (no sentido de teorizar sobre ele e seus efeitos). Não tenho a Ética aqui comigo (refiro-me ao livro de Espinosa), mas tenho o Tratado Teológico-Político (TTP) e deve ser suficiente pros meus propósitos. Eis o que diz Espinosa no prefácio do TTP.

“Quem nós vemos ser escravo de toda espécie de superstições são sobretudo os que desejam sem moderação os bens incertos. Todos eles, designadamente quando correm perigo e não conseguem por si próprios salvar-se, imploram o auxílio divino com promessas e lágrimas de mulher, dizem que a razão é cega porque não pode indicar-lhes um caminho seguro em direção às coisas vãs que eles desejam, ou que é inútil a sabedoria humana; em contrapartida, os devaneios da imaginação, os sonhos e as extravagâncias infantis, parecem-lhes respostas divinas. Atpe julgam que Deus sente aversão pelos sábios e que os seus decretos não estão inscritos na mente, mas sim nas entranhas dos animais, ou que são os loucos, os insensatos, as aves, quem por instinto ou soppro divindo os revela.

A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que original, conserva e alimenta a superstição” (p. 6).

Em suma, o medo nos leva à superstição. Diz ainda o Espinosa na parte III da Ética (cito a partir da nota de rodapé do tradutor do TTP):

“Nós estamos por natureza dispostos a acreditar facilmente naquilo que esperamos e dificilmente naquilo que tememos (…). Não creio que valha a pena mostrar aqui as flutuações da alma que nascem da esperança e do temor, visto que pela simples definição desses sentimentos nós vemos que não há esperança sem temor nem temor sem esperança” (p. 311-13 do TTP).

Se tínhamos esperança para acabar com o desconhecido que temíamos, nada mais natural que o Esclarecimento estar enredado em mitologia. O importante mesmo é outra coisa. Eis o que diz Espinosa no mesmo prefácio, mais à frente:

“… houve sempre o cuidado de rodear a religião, fosse ela verdadeira ou falsa, de culto e aparato, de modo que se revestisse da maior gravidade e fosse escrupulosamente observada por todos (…).

Se, efetivamente, o grande segredo do regime monárquico e aquilo que acima de tudo lhe interessa é manter os homens enganados e disfarçar, sob o especioso nome de religião, o medo em que devem ser contidos para que combatam pela servidão como se fosse pela salvação e acreditem que não é vergonhoso, mas sumamente honroso, derramar o sangue e a  vida pela vaidade de um só homem, em contrapartida, num República livre, seria impossível conceber ou tentar algo de mais deplorável, já que repugna absolutamente à liberdade comum suforcar com preconceitos ou coarctar de algum modo o livre discernimento de cada um”.

Impressionante a semelhança entre Kant e Espinosa, que confesso não tinha percebido até então. De todo modo, ao fazer esas leituras, sou levado a concluir algumas coisas:

1.O medo é causado pelo desconhecimento de algo que nos parece causará algum mal a nós. Similarmente para a esperança.

2. O medo e a esperança nos conduzem à superstição.

3. A superstição é utilizada por quem tem poder para insituir a dominação e evitar o esclarecimento (no sentido Kantiano de não ser guiado por outros).

4. Como porém seremos sempre vítimas da superstição, o Esclarecimento não será nunca absoluto.

5. O esclarecimento também pode ser entendido como processo de acabar com a superstição pela eliminação do que causa o medo (o desconhecido e o completo domínio da natureza para apenas produzir o bem para o homem).

6. Nesse último sentido, irá redundar em irracionalidade, isto é, mitologia e superstição, pois a própria razão será a fonte do medo (guerras por exemplo) e esperança (pleno emprego, felicidade etc.).

7. Se porém o esclarecimento for entendido não como possibilidade de eliminação do medo, mas apenas de como podemos aceitar conviver com ele sem nos deixar levar em demasia por ele, então há um outro caminho para o esclarecimento.

Se concretamente esse caminho existe é obviamente outra história. Mas deixe-me fazer aqui alguns apontamentos de caminhos que poderiam ser explorados nesse sentido.

1. O lugar das ciências da complexidade, que apontam para uma ciência cuja precisão e predição não é exatamente sua marca, mas que no entanto pretende um conhecimento do mundo, talvez indique para esse esclarecimento mais modesto apresentado no item 8 acima.

2. O fato de que hoje em dia muitas das coisasque foram sempre consideradas superstições (homeopatia etc.) seja parte da política do Estado indica por um lado que o esclarecimento à la Adorno e Horkheimer parece realmente em decadência; por outro lado coloca um problema que difícil avaliação para o Esclarecimento no sentido Kantiano e Espinosista.

3. Seria essa política i) um caso de uso da superstição para governar a multidão, ii) cercá-la de culto e aparato para que seja escurpulosamente seguida ou iii) um sinal de que do mesmo jeito que escolhemos religões agora escolhemos tratamento médicos, isto é, por predileções não racionais, e que portanto devemos ficar felizes que cada religião tratamento médico seja permitido pelo Estado?

4. De minha parte, reconheço que a medicina mainstream, isto é, baseada na ciência moderna, sofre dos problemas do Esclarecimento apontados por Adorno e tenha ela mesma também se convertido em mitologia, do que a indústria farmacêutica é a parte mais óbvia.

5. Porém, causa-me espécie que os adeptos das terapias alternativas não vejam que elas são superstição em estado puro, ou na melhor da hipóteses a tal Mitologia que tem em si esclarecimento.

6. Desse modo, nesse aspecto analisado pelo menos, encontramo-nos duplamente enredado pela superstição/mitologia: de um lado o racional mitológico (medicina mainstream) e de outro a superstição pura e simples.

7. Em ambos os casos, falta-nos deixarmos de ser guiados pelas paixões (isto é, passividade) do medo e esperança e retringirmos a paixão pela razão para escolhermos nossos próprios caminhos sem supertições determinadas pelos poderosos.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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