Debatendo

Ia falar sobre outra coisa, mas vi esse texto no Blog do Nassif, do Tomás Rosa Bueno (um leitor que volta e meia o Nassif publica os comentários dele) criticando a esquerda partidária de verdade nesse país – PSOL, Plínio etc. Deixo então o que ia falar pra depois e rebato aqui a crítica.

O texto começa assim:

“A posição de superioridade moral jesuítica em que se colocam o Hélio Bicudo, o Plínio Sampaio, a Heloísa Helena e toda essa turma é exatamente o que levou o PT ao mensalão e outras estrepolias do gênero”.

De boa, já é risível pelo começo. Quer dizer que a corrupção não se deve a incentivos institucionais, pessoas de caráter fraco no poder, ou ainda à própria natureza corrupta do sistema capitalista e/ou da natureza humana. Não, imaginem só vocês, a corrupção e o mensalão é porque o PT, vejam só, assumiam uma posição de superioridade moral jesuítica. Mas que agora eles abandonaram isso.

Porque adjetivar o moral com o temo “jesuítico”, eu não sei. Eu confesso que dos Jesuítas só sei que foram importantes na colonização do Brasil e também que, quando perseguiam Galileu, na sua escola havia os dizeres: “em lugar e momento algum contestará Aristóteles” (cito de cabeça). Talvez ele ache que o Mensalão foi fruto de algo do tipo, como se na entrada do PT de então houvessem os dizeres: “em lugar e momento algum contestará nossa ética”.

Mas é estranho isso. Normalmente explicações superficiais como essa utilizam o termo “stalinismo” ou “leninismo” para explicar essa postura de superioridade moral que aceita a corrupção. Ah, já sei porque ele não quer falar que o PT era stalinista ou leninista, comuna enfim: porque é o que a Direita fala e não querem fazer companha contra a Dilma. Aí ele inventou um jesuítico.

Mas deixemos de perder tempo com picuinhas, e vamos ao argumento central do texto, que é mais ou menos esse: Se você tem algum princípio nessa vida, e quer seguir esses princípios, isso vai levar ao atraso, corrupção, enfim, a bloquear tudo de bom que o capitalismo tem a oferecer e você tinha medo de perguntar. E quem não segue princípio nenhum e faz o que tem que fazer, esse sim é bom. E a esses nós damos o nome de pragmáticos.

Engraçado mesmo é que a justificação mais usual para o mensalão e afins é, justamente, que o PT está sendo pragmático, que política é assim mesmo. Nos dizeres de Ciro Gomes, “tem que botar a mão na merda”. A contradição é óbvia: ética de resultados é o mesmo que dizer “os fins justificam os meios”, mas o tal Bueno crê que ética de resultados é o oposto dos fins justificam os meios.

Com essa tese que se auto-implode ele mostra (sic) que somos nós, psolistas etc. quem somos totalitários etc. Diz ele:

“… diminuição da miséria absoluta e a redução do desemprego , o crescimento do PIB pela via principal do aumento do mercado interno, a conquista de espaços nas instâncias decisórias internacionais e a diversificação dos laços comerciais, o apoio preferencial ao desenvolvimento das regiões mais atrasadas do país. Tudo isto, por ser mensurável e por ter efeitos imediatamente perceptíveis, é justamente o que prescinde da propaganda e da adesão ideológica a princípios supostamente “superiores” e, portanto, é justamente o que dispensa o controle totalitário da comunicação” (negrito são grifos meus).

Eu não estou aqui acusando o PT de ser totalitário, mas espanta que agora os dilmistas e lulistas nos acusem de sermos totalitários, vejam só, porque nós não apelamos apenas ao mais imediato, mas acreditamos na importância da mediação, do discurso mediado que impõe a reflexão, a crítica etc. Pois é, houve um tempo em que o fetichismo (da mercadoria) e alienção eram discursos que colavam no PT. Hoje não mais.

Mas a verdade é que nem é preciso ir muito longe (por exemplo citando Hegel) para mostrar que o tal discurso imediato tem em si mediação, que nesse caso tem o seu componente ideológico. Quer dizer que o consumismo desenfreado, a alienação e todos os efeitos deletérios do trabalho etc. não tem nada a ser questionado, criticado? Quer dizer que por prescindir de “progaganda” (na verdade reflexão), esse ganhos todos não trazem em si nada de negativo?

Em resumo, agora alguns petistas (ou seria apenas Lulista?) querem que não se siga princípios -leva ao totalitarismo -, não se faça a crítica do imediato – leva ao totalitarismo – nem faça qualquer crítica ao PT ou Lula – pois leva, se não ao totalitarismo, mas a ser igual à direita.

É uma tolice acreditar que princípios não sejam importantes. Nós somos democratas por princípio, e defendemos os direitos humanos por princípios. Há que se ter princípios inegociáveis sim, bem como há que se ter uma crítica ligada ao real, não de todo descolada da realidade. Mas não é nem o adesismo acrítico nem uma defesa de uma ética de resultados que vai nos levar aonde queremos chegar.

Ainda bem que a esquerda tem princípios e tem também (ou procurar ter) um discurso que não seja só principesco, mas produzido a partir do próprio real, imanente enfim. Talvez ainda não tenhamos chegado lá, mas pelo menos não estamos partindo do lugar errado.

ps.: Não sei a repercussão do tal texto, provavelmente é nula, e bem menor é aqui no Blog. Mas não queria deixar passar não.

ps.2: sobre a importância de princípios para a esquerda, recomendo o editorial da Revista Fevereiro.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Política e Economia e marcado , , , . Guardar link permanente.

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