Terceira geração de política social, patentes etc.

Como tem coisa para se discutir. Li essa boa entrevista do Marcelo Neri, tem também uma defesa das patentes e uma entrevista meio diferente do Ruy Fausto sobre PT e política, tudo via Nassif.

Difícil falar de tudo, mas é importante comentar, refletir sobre o que foi dito. Começo pelo que me parece um consenso: acesso a crédito no Brasil.

Tanto o Ruy Fasuto quanto o Marcelo Neri consideram o acesso a crédito por parte dos mais pobres um avanço, e defendem essa expansão. Eu acho que tem um aspecto do crédito que é realmente positivo. Acesso a crédito facilita o consumo, acesso a bens etc. Então, é positivo isso. É claro que no processo tem que ter um aprendizado, o sujeito tem que se planejar, aprender a não se endividar demais etc. Mas com o tempo isso se ajusta.

Agora, no Brasil, em que pese esse ganho do  acesso ao crédito, ele ainda se dá de forma ridicularmente cara. Os juros embutidos (implícitamente) nos carnês da casa Bahia, no cheque especial, no cartão de crédito ou no empréstimo pessoal é absurdo. O único crédito que eu acho que está próximo do nível mundial é no setor automobolístico, pois você dar 72 meses de financiamento com juros menais de 1%, ainda é alto, mas é muito menos que nos demais setores. Isso aliás mostra que é possível ter juros menores nesse país.

Aqui tem a figura do crédito com desconto em folha, o que eu acho um absurdo jurídico. Se o cara toma um empréstimo desse  tipo, e de repente seu filho fica doente e tal, e precisa gastar dinheiro com medicamentos ou algo do tipo, não tem escolha, o salário já sai com desconto. Dívida desse tipo tem o mesmo status de pagamento de pensão alimentícia e isso não pode.

Teoricamente você pode dizer, “mas o cara escolheu” e ele prefere ficar preso com a dívida a ter flexibilidade e pagar juros maiores. É verdade. Mas eu tô pra ver que a redução nos juros seja tão significativa (tipo, cair de 10% para 1% ao mês) e além disso a inflexibilidade é alta demais. Empresa volta e meia não paga fornecedor, atrasa, só que o trabalhador não tem essa opção. Então, acho que falta a esquerda criticar aí. O problema é que ninguém quer falar isso, porque quem pega empresatado não quer perder a opção, vai achar ruim essa crítica. Mas tem que entender que tem uma disputa política aí, contra o sistema financeiro. Pode até não se acabar com esse mecanismo, mas tem que proteger o trabalhador, dar mais flexibilidade a ele etc.

Ainda sobre crédito, microcrédito essas coisas, eu tenho minha dose de ceticismo quanto à panacéia do microcrédito. Eu não sou especialista no assunto e o Marcelo Neri manja muito mais do que eu, claro, mas suspeito de números assim:

“O Crediamigo (do Banco do Nordeste), que cobre 60% do mercado nacional de microcrédito, gera aumento de lucro de seus clientes, como empresas informais de fundo de quintal, mercearias, etc, de 13% ao ano. Para seus clientes, a probabilidade de quem era pobre sair da pobreza em 12 meses é 60% contra 2% da probabilidade do movimento em sentido contrário.”

Sobre isso tenho duas coisas a dizer:

1. O fato desse microcrédito aí (o CréditoAmigo) ser de um tipo diferente, com envolvimento da comunidade e sem lucro abusivos (aparentemente) diz muito sobre até onde e como queremos ampliar o crédito às pessoas de mais baixa renda

2. Pelo que andei lendo no Blog do Chris Blattman, ainda não há concesso sobre os efeitos do crédito para o desenvolvimento financeiro dos indivíduos. Um coisa é conceder crédito a pessoas com bons projetos, mas que devido à assimetria de informação o mercado não conseguia atingi-las*. Outra coisa é a expansão do crédito para todo mundo, incluindo muita gente que não está preparada para isso.

Em resumo, é um discussão complexa, que envolve tanto conhecimento técnico do assunto quanto uma posição política na hora de avaliar a questão. Dêem a opinião de vocês aí.

* aliás, o flagrante contraste entre as falhas de mercado por assimetria de informação e a concepção hayekiana do mercado como um processo (mais eficiente) de descoberta e processamento de informações ainda foi pouco explorado, pelo menos até onde sei.

ps.: Por alguma razão, há em certos círculos (por exemplo NPTO) um fascínio com o debate do cálculo socialista. É verdade que eu conheço pouco desse debate, mas creio conhecer o suficiente para poder afirmar que, embora seja uma pena muita gente não conhecer a tese do Hayek do mercado como descoberta, já houve muita coisa nova dita sobre o assunto e é preciso se atualizar. Para ficar numa plavra, esse povo que cultua os economistas austríacos e tal precisam estudar a ciência da complexidade. Tem muito potencial aí, mas também limitação e até certa miopia. Volto a isso depois.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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Uma resposta para Terceira geração de política social, patentes etc.

  1. Rodrigo Souza disse:

    O pessoal usa a ciência da complexidade em favor da tese de Hayek, invocando a autopoiese. O problema é que consideram a descentralização dos processos onde agentes interagem no sistema contribuindo para a auto-organização, mas deixam de lado a ocorrência de atratores que convergem em si os recursos do sistema, levando-lhe a perder a capacidade de estabilizar os desequilíbrios e ocorrendo assim dissipações.

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