Ética de Resultados, ou análise custo-benefício, again

Queria parar de falar de política e voltar a falar de estatística, essas coisas que eu gosto. Mas não tem jeito, né? Tem que dizer umas coisas aí.

Falei há pouco da ética de resultados e, vejam só, o Idelber compartilhou no google reader um texto que defende… a ética de resultados! Dêem uma conferida lá no texto e voltem aqui.

Pra quem tá com preguiça de clicar no link e ler o tal texto, faço um resumão aqui:

Política é custo-benefício. Esse negócio de traçar linhas dizendo até aqui pode, passou daqui não pode, não ganha meu voto, não é política. Não dá para votar em quem mais parece com você, mas tem que fazer uma ánlise custo-benefício realista para o país e com isso decidir o voto. E por isso, eu que sou a maior feminista vou votar no Netinho para senador, é, ele mesmo, que bateu na esposa.

Pois é, eu acho legal ver as pessoas amadurecerem e pararem de analisar política como se não tivesse de ser realista, como se não tivesse de ceder em posições. Bom ver que pessoas estão fazendo análise de custo-benefício para pensar a política. Acho bom mesmo.

Durante muito tempo na minha graduação eu fui criticado por ter participado de gestões do Centro Acadêmico com pessoas mais à direita do que eu. Eu não me arrependo nem um pouco. Eu ajudava a trazer eles mais pra esquerda e além disso eles eram pessoas legais e preocupados com a faculdade.

Agora, realmente é um erro tremendo, gigantesco, uma pessoa se iludir com o tal realismo do mesmo jeito que ela se iludia com o idealismo anterior.

Primeiro que, se é para ser racional, fazer análise custo-benefício, comece refletindo que seu voto não vale nada. Qual a chance de seu voto decidir uma eleição? Muito próxima de zero. Provavelmente na análise custo-benefício, nem compensa ir votar. Ir votar não é racional! Mas a menina do post vai e me escreve isso:

Antes de me decidir pelo Netinho, cheguei a cogitar, por exemplo, votar na Ana Luiza do PSTU. Afinal, taí uma candidata muito mais “ideologicamente próxima” a mim do que Netinho jamais virá a ser – só o feminismo dela já impõe um abismo entre eles. Só que meus critérios realmente mudaram. Ser feminista é muito pouco para conquistar o meu voto quando a grande proposta do seu partido para o país é dar o calote na dívida externa. Proposta por proposta, prefiro o “capitalismo de resultados” petista. Ser feminista continua sendo muito pouco para conquistar o meu voto quando a única vantagem de eu votar na Ana Luiza seria dormir com a consciência tranquila (“votei numa pessoa do bem!”), dado que ela não tem chance alguma de ganhar. Consciência por consciência, prefiro a de que contribuí para a derrubada do Tuma do que a de que contribuí para a tranquilidade do meu sono.

Mas ela acha mesmo, em sã consciência, que seu voto terá um peso significativo na derrubada do Tuma? Claro que não. O peso é ínfimo, infimíssimo. E que auto-engano, até parece que derrubar o Tuma não serve pra ela dormir com a consciência tranquila. É claro que serve, pois o voto, a participação política, se dá por um dever cívico, por outros fatores fora da análise custo-benefício estrito senso.

Ela precisa conhecer os economistas, quepensam em termos de custo-benefício pra ver aonde é que esse tipo de análise vai dar. A pessoa se transforma num monstro. O Varian, economista bem famoso (é inclusive economista-chefe do Google) criticou tempos atrás uma análise custo benefício do aquecimento global porque dava peso muito grande às gerações futuras e, nessas análises, a questão é sempre: quanto uma vida hoje vale em termos de uma vida amanhã? Ainda no mesmo mote, como diz o Cosma Shalizi, retornar um bem roubado a seus donos originais não é pareto superior!

Se você não quiser olhar como a racionalidade leva os economistas aos maiores absurdos, então vá via Adorno.

Meu ponto então é: Acho ótimo que se faça análises custo-benefício, eu mesmo faço muito. Mas imaginar que princípios – eles novamente – devem ser abandonados em prol de uma decisão puramente baseada em análise custo-benefício é um erro que não podemos nos dar ao luxo de cometer. Eles têm de conviver lado a lado, em tensão permanente.

ps.: Há outro argumento para criticar a idéia toda de análise custo-benefício. A própria incapacidade da mente de processar todas as informações necessárias para tomar decisões ótimas. É bem possível que o que lhe parece superior seja na verdade inferior, e você não viu isso devido à racionalidade limitada do ser humano. Donde pode ser mais fácil seguir regras heurística simples, como “passou dessa linha, não ganha meu voto”!. Mas essa é uma discussão complexa, então deixo esse argumento em suspenso. Não digo nem que está correto nem errado.

Update: Pensando bem, o texto é uma justificativa para uma feminista votar no Netinho. Então é justo eu dizer se meus argumentos mudam alguma coisa a conclusão dela: votar no Netinho ou não?

Diria o seguinte. Decida quais princípios são importantes para você. Se você negociar seus princípios mais importantes, você negociou sua alma e, acredite em mim, isso não vai levar você muito longe, a não ser virar cínica. Como seu voto vale pouco mesmo e a campanha nem tá tão apertada, vote na Maria Luiza mesmo do PSTU se você é feminista de carteirinha. Ao votar nela você está ajudando a construir algo importante para você. Isso também é racional.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

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