Assimetria de Informação e o mercado

Comentei sobre a questão da assimetria de informaçã oe a metáfora de Hayek para o mercado. Agora desenvolvo o ponto.

Quem estudou um pouquinho de economia sabe mais ou menos como os economistas vêem o mercado. Pessoas querem comprar produtos, empresas querem vender. A competição força os preços para os custos marginais, onde o lucro econômico é zero. Os indivíduos só compram o que querem e o que os deixa mais feliz dentro do seu orçamento. Todo mundo sai feliz, ou pelo menos para melhorar alguém só piorando outrem.

Ocorre que nessa visão, mercados são eficientes porque permitem equilibrar oferta e demanda, mas isso é um pouco obscuro. Porque não permitir que o estado compute os preços de equilíbrio e os imponha à economia? Pode-se evitar assim inclusive as distorções de monopólio e flutuações do mercado.

Esse é, até onde entendo, o pano de fundo do debate do cálculo socialista. Forçado por essa argumentação, Hayek foi levado a conceber o mercado diferentemente. Para ele, o mundo é muito complexo, de tal forma que é impossível computar os preços de equilíbrio. Cada agente tem um conhecimento apenas local e não global. Se você vai comprar um carro, você não precisa saber como anda a demanda por ferro, salário na indústria automobilísitca etc. Você só sabe os preços dos carros à sua volta e mais algumas coisas que seus conhecidos te falaram. E isso é verdade para todo mundo.

O mercado então é uma forma de se utilizar toda essa informação e canalizá-la para os preços ,de forma que os preços podem refletir as informações que os diversos agentes tem sobre um produto. Mas mesmo essa visão é incompleta. Para Hayek, o mercado é como uma competição esportiva: ninguém sabe o vencedor antes dela ocorrer, que é a razão pela qual a própria competição é feita. Do mesmo modo, ninguém sabe se os preços refletem efetivamente os fundamentos e cada agente toma suas decisões com base nos seus conhecimentos locais e os mercados irão flutuar à medida que os agentes descobrem as coisas. Quando ganham dinheiro enriquecem e sua conduta é emulada. Se perdem dinheiro, evitam-se condutas similares e assim por diante. Nessa metáfora, o mercado é um processo de descoberta permanente. Ademais, as flutações são a forma do conhecimento ser transmitido aos indivíduos e do mercado ajustar práticas que funcionam e que não funcionam.

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Considerem agora a questão da assimetria de informação no mercado de crédito. Um agente tem recursos que gostaria de emprestar e cobrar juros por esses recursos. Outro agente gostaria de ter acesso ao crédito para realizar um investimento que ele acredita trará muito dinheiro para ele. O problema é que embora o investidor teha muito conhecimento sobre o projeto, seus riscos e oportunidades, o Banco não.

Na metáfora de Hayek, Bancos que emprestarem o dinheiro sabiamente irão ganhar dinheiro, e bancos que não emprestarem irão perder dinheiro, de forma que ao longo do tempo o melhor irá acontecer.

Porém, é possível que os bancos ajam todos da seguinte forma: com assimetira de informação, tudo que eles podem fazer é calcular o risco médio e cobrar juros ocmpatíveis com o risco médio. Porém, investidores com projetos com risco menor (e portanto rentabilidade também menor) não aceitarão tomar o empréstimo, pois saberão que não irão pagar. Já os investidores de maior risco, aceitarão o empréstimo, pois os juros não são compatíveis com o risco. No final das contas, ao se generalizar essa prática, apenas investidores arriscados ficam no mercado de crédito e os Bancos irão ter problemas. Logo, eles simplesmente se recusam a emprestar para certo tipo de pessoa e isso pode se perpetuar sem que haja um ajuste por parte do mercado.

Notem que aqui a metáfora Hayekiana do mercado como processo de descoberta num ambiente de incerteza e que por processar informação descentralizadamente leva a economia para o estado mais eficiente possível no longo prazo não é verdade. E a razão para esse problema é, justamente, a questão da informação. Só que aqui os agente não são homegênos – no sentido de que, embora tenham conhecimentos diferentes, nada diferencia um conhecimento do outro em geral -, mas há dois tipos de agentes. Um com conhecimento privado, outro sem esse conhecimento, e esse conhecimento é incapaz de ser transmitido via mercado.

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Esse meu exemplo simples é apenas para ilustrar como há uma certa miopia dos que gostam do debate do cálculo socialista. Não é que não seja importância, mas parece-me que muitos desenvolvimentos da economia contemporânea se deram em parte em acordo com o programa de Hayek, mas parte em desacordo. Toda a teoria de assimetria de informação e desenho de mecanismo parece-me em desacordo com a visão Hayekiana.

Já a economia experimental parece mais próxima, embora a idéia de comportamento subótimos persistentes e da importância de algumas insituições (leis sobre informação ao consumidor etc.) também sejam contrárias ao liberalismo e cinismo Hayekiano.

No fim das contas, acho que a crítica de Hayek ao planejamento central é acertada em geral, mas tem sido provada errada em casos particulares em que o planejamento e desenho de políticas estatais pode sim ser mais eficiente.

Além disso, o que os achados sobre racionalidade da economia experimental vem mostrando é que mesmo a noção de liberdade (negativa) no mercado é mais complexa, na medida em que indivíduos são levados a escolher diferentemente a depender a da forma como as opções são apresentadas, e isso “puramente” por razões cognitivas. Ora, se minha escolha entre alternativas depende da forma como as alternativas são apresentadas, em que sentido posso dizer que sou livre quando não minha capacidade de escolha não é restrita por outrem? Se outra pessoa manipula a forma como minhas alternativas são apresentadas e isso influencia em minha escolha, minha liberdade foi reduzida?

Enfim, são questões para pensarmos, mas que não vejo muito por aí. Talvea esteja lendo nos lugares errado, o que é bem possível, dado que não ando muito entre círculos libertários nem tenho lido as discussões de teoria política mais recentes.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Assimetria de Informação e o mercado

  1. Rodolpho disse:

    O debate exige um tempo maior do que estou disposto agastar, além de estar enferrujada a minha argumentação libertária. Mas uma coisa importante que quero dizer é que o problema do banco referido só existe por causa do monopólio estatal da moeda. Outra solução seria permitir a prática de agiotagem,posto que o agiota é um banco clandestino.
    Agora, esse negócio de problema cognitivo pra mim já é desvirtuação do debate, e que levaria mais uma vez ao paternalismo de esquerda. Ora, se você tem problemas em entender as coisas, por que o resto da população tem que pagar por isso? Liberdade implica riscos e, quem não quer riscos deve aceitar o Leviatã.

  2. Rodrigo Souza disse:

    Rodolpho, você desconsidera que a concentração de poder econômico também concentra liberdades sujeitando alguns a extorsões – lembrando que liberdade é muito mais do que ausência de coerção. E dentre os riscos, não se pode considerar os riscos para as liberdades dos outros.
    E não é só “você” a questão da racionalidade limitada, é o “cada um”.
    Outra coisa: faltou tratar do lastro do sistema financeiro e como ele faria sem contar com quantitative easing e compra de títulos pela autoridade oficial em caso de pânico?

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