Voto dos Evangélicos, O retorno (parte II)

Continuando a discussão sobre o voto dos evangélicos, comento aqui o artigo de Bohn, de 2007. O artigo começa muito promissoramente, especialmente no contexto atual das eleições de 2010. Diz a autora:

O objetivo deste artigo é fornecer elementos para entender as similaridades de comportamento eleitoral dos membros de denominações evangélicas. Três são os argumentos principais. Em primeiro lugar, que as similitudes de comportamento político-eleitoral dessas minorias religiosas decorrem não de preferências partidárias e/ou por candidaturas específicas, mas das características particulares de cada pleito. Em outras palavras, o contexto político de cada eleição desempenha um papel primordial na mobilização ou desmobilização de identidades religiosas, que geram padrões claramente distinguíveis de concentração ou dispersão do voto. O artigo também procura avançar a hipótese de que o elemento que distingue os contextos políticos eleitorais é a presença ou ausência de candidatos publicamente identificados como pertencentes a essas minorias religiosas e capazes de mobilizar politicamente sua identidade religiosa. Finalmente, argumenta que, ao contrário de um grupo de interesse claramente definido (como um lobby), os evangélicos devem ser vistos como um grupo de identidade (identity-based group). O que significa que, na relação com a esfera política, o fator crucial é a identidade evangélica, e não necessariamente a defesa de plataformas de ação claramente definidas e específicas a esse grupo religioso.

Notem a tese de que os evangélicos não estão interessados em plataformas específicas, mas na identidade deles. Se for o caso, Marina teve muito voto por causa da identidade evangélica dela, e não por defender posições próximas a deles (inclusive, ela defendia um plebiscito no caso do aborto!). Do mesmo modo, não adiantaria muito nesse segundo turno Dilma ficar falando  em aborto.

A estratégia empírica do texto é comparar 2002 e 2006 para testar a hipótese dos evangélicos como grupo de identidade ou como grupo de interesse. A idéia é engenhosa. Em 2002, eles votaram no Garotinho predominantemente no primeiro turno, em Lula no Segundo turno (Garotinho declarou apoio a Lula). Se os evangélicos são um grupo de identidade, então em 2006 Lula não receberia apoio especial deles, já que não está associado aos valores evangélicos nem é apoiado por um candidato forte, como Garotinho fez em 2002 no segundo turno. Se porém votam por interesse apenas, e identificaram que Lula satisfazia esse interesse em 2002, então deveriam novamente buscar esse interesse em 2006 e votariam de forma concentrada em Lula. Nessa estratégia, que ela chama de experimento natural*, assume-se que a única diferença no voto dos evangélicos entre 2002 e 2006 desses grupos é a presença ou ausência do Garotinho na eleição, o que é um pouco complicado, embora pareça uma aproximação razoável.

A conclusão do estudo é que o Lula não recebeu mais votos em 2006 do grupo evangélico do que seria esperar pelo perfil deles. Logo, a autora conclui que os evangélicos, até 2006, era fundamentalmente um grupo baseado em identidades, mas não em interesses.

Se essa tese for correta, então é bastante provável que a Marina tenha mobilizado esse voto evangélico. Além disso, o apoio dela (mais do que do Partido, que afinal é Verde) poderia significar efetivamente transferência de voto pro apoiado, pelo menos entre os evangélicos.

Outra conclusão que eu tiro do estudo é que, menos importante que propostas específicas, é que os candidatos professem os valores evangélicos. Nesse sentido, se Serra conseguir aparecer como um candidato menos anti-evangélico que Dilma, pode ser benefeciário desses votos, mesmo sem se comprometer com propostas específicas.

Obviamente seria preciso testar empiricamente se de fato a Marina teve esse voto Evangélico para se ter uma conclusão mais robusta. De todo modo, esse estudo e as evidências qualitativas até agora indicam que sim.

ps.: Uma forma de testar a teoria da transferência de voto é fazer uma inferência ecológica, comparando os votos do Garotinho por Cidade (ou seção eleitoral) e os votos na Marina. A minha suposição é que é razoável assumir que, no geral, quem votou no Garotinho e na Marina agora o fizeram apenas por razões religiosas, já que ambos são diferentes demais. Onde houver correlação (positiva) alta entre os votos dos dois, seria indicador de voto evangélico.  Podemos ainda cruzar os dados de incidência de evangélico por município e desempenho da Marina. Faria isso se tivesse tempo.

ps.2: O estudo aponta que Lula teve uma votação entre católicos mais altas que se fosse por mera chance, isto é, ser católico aumentava a probabilidade de votar em Lula. Como terá se saído a Dilma entre os católicos? E a Marina?

ps.3: Se ela mostrasse um scatter plot com os dados e os resultados do modelo ajudaria. E, como sempre, as tabelas são horríveis e muito chato interpretar os coeficientes da regressão probit.

*Um experimento natural é quando a própria história produz, “sem querer”, algo como um experimento, em que um tratamento e o grupo controle são distribuídos entre os agentes aleatoriamente, do mesmo modo que num experimento médico aleatório. A vantagem do experimento natural é que você evite o viés de seleção, um problema comum em estudos observacionais.


Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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