Os Impasses de Tropa de Elite II

Acabei de assistir à Tropa de Elite II. Ironicamente – quem viu o filme entenderá – encontro-me justamente em Brasília. Lugar melhor para ver esse filme, não há (talvez o Rio, mas acho que aqui é o lugar mesmo).

O Filme é bom, mas saí com uma sensação de que alguma coisa não fechou no roteiro. A primeira impressão que você tem quando sai é que o filme é revolucionário. Revolucionário não no sentido de uma revolução cinematográfica, mas no sentido de incitar à revolução sócio-política.

A mensagem do filme é aparentemente clara. A culpa é do sistema, e por sistema – termo muito usado em filme B dos anos 80, como resquício da  cultura hippie e punk -entenda-se o aparelho estatal, corrupto, em associação com os políticos mesmos que se benefeciam desse aparelho corrupto. Agora, todos os cidadãos são inocentes. A culpa não é mais do maconheiro classe média que sustenta o traficante. A culpa é do sistema.

Nesse sentido, o filme seria revolucionário. Deveríamos sair do filme querendo dar uns tapas nesses políticos fdp. Sim, porque até denfendemos direitos humanos para “bandido” comum, pobre, sem instrução, mas quando o Coronel (agora ele é Coronel) Nascimento dá uns tapas num político, aí a gente vibra mesmo, porque com político fdp não tem essa de direitos humanos não. Tem é que levar porrada mesmo.

Mas ninguém sai do filme dando porrada em político não, e dia 31 de outubro a gente vai votar tranquilamente na Dilma ou no Serra. Você não vai ver o número de voto nulo aumentar entre quem assistiu à Tropa de Elite, num ato de protesto contra o “sistema”.

É nesse momento que eu começo a pensar no final do filme, em que o Coronel Nascimento diz que “O Sistema é foda”. Porque no fim das contas, Tropa de Elite II termina com a sensação de que não há muita esperança. Mesmo o político bonzinho, que também é eleito para o Congresso Nacional, não dá para apostar  nele. Nem nos “seis ou sete que tem ficha limpa”, como diz o Nascimento a certa altura do filme. O filme, de certo modo, descarta essa via. Eles ajudam a segurar o sistema, mas não é por aí. Os mecanismos institucionais são a antítese do Tropa de Elite, desde o primeiro filme. Não é seguindo o devido processo legal que a gente vai conseguir chegar lá. Aliás, é inclusive com escuta ilegal que uns políticos e policiais corruptos são pegos. E contar com a mídia também não dá, pois ela faz parte do esquema.

Então, no fim das contas, o impasse maior de Ttropa de Elite II é que ele tinha tudo para ser revolucionário. É a conclusão lógica do filme. Mas sua estruturaa, seu argumento, seus diálogos, enfim, tudo, transmitem impotência. Sim, você sai do Cinema puto da vida, mas resignado que você é impotente para mudar e pode desistir de tentar.

Contrastem Tropa de Elite com Batman – Dark Night -, ou V de vingança. São todos filmes focados num herói. Em todos o sistema é corrupto e problemático. E em todos os heróis perdem alguma coisa.

Mas vejam a solução de cada um. Batman, naturalmente, tem uma solução na revolucionária. É preciso salvar tanto o sitema quanto a própria luta anti-sistêmcia. Assim, Batman é obrigado a aceitar ser caçado pela polícia, para salvar o sistema (o promotor Dent não ser descoberto como criminoso) e para permitir que o Batman continue sua luta fora da lei.

Em V de vingança, a solução é naturalmente revolucionária – anarquista, se quiserem – e ele deve morrer para que seja o povo que faça a revolução. E deve ser a nova geração, não contaminada pelos vícios do passado, a contruir o futuro livre.

Você pode naturalmente criticar tanto o caráter conservador no revolucionarismo do Batman, ou o otimismo injustificado de V na capacidade humana de começar do zero (veja a Revolução Francesa e o Terror). Mas todos eles, dentro do argumento, oferecem uma alternativa. Você não sai com a sensação de impotência.

O problema de Tropa de Elite é que o que o herói perde (o casamento, o amigo Matias), não é um sacrifício para um bem maior. É apenas o resultado da falta de clareza dele sobre o verdadeiro inimigo. As mortes fazem ele entender qual o verdadeiro combate. E uma vez que ele entende, a única coisa que ele perde (seu cargo na polícia) faz vocÊ ficar pensando o que será dele agora. Conseguirá manter seu cargo? Ou então ele pode virar político, já que tem popularidade? Quem sabe ainda ele pode criar uma firma de vigilância particuçlar?

Mas todas essas soluções tem o inconveniente de serem soluções dentro do sistema, que o filme tanto criticou. Afinal, é bom lembrar que “o Sistema é foda!”.

Tropa de Elite é, então, na verdade, a história de um impasse que nõs não sabemos como superar. A estratégia Capitão Nascimento leva a lugar nenhum, é um beco sem saída. Aliás, não deixa de ser interessante que no momento em que o filme vai às telas, as UPPs efetivamente estão reduzindo a violência nas comunidades. E como as UPPS não são as tais milícias dofilme (assim me parece), até a realidade mostra que a via Nascimento está sendo superada.

O que fica do filme então? Em que pese nossa vontade de dar uns tapas nos políticos, ninguém sairá dando bengalada em nenhum político. Não aumentará o número de votos nulos entre os que assistiram ao filme, como resultado da conscientização de que só se savam uns “cinco ou seis”. Votaremos em Dilma ou Serra tranquilamente em 31 de outubro. Nem sairemos às ruas protestando contra qualquer coisa. Sairemos do filme como entramos, porque afinal, o clichê no Brasil é que político nenhum presta eo filme é nada mais nada menos que esse lugar comum. E por ser um filme essencialmente sobre esse lugar comum, que mais confundi que explica, é um filme que não pode levar mesmo a lugar algum. Apenas ficamos onde estamos. Resignados.

Tropa de Elite II é, então, um excelente filme de ação, igual àqueles que víamos na seção da tarde, em que o Stallone ou o Governator matavam um monte de bandido, resolviam tudo, e no final nada mudava, porque afinal não eram filmes para mudarems as coisas, eram filmes para entreterem. Nesse sentido, Tropa de Elite II é dos melhores desse tip ode filme. Mas não passa disso.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Manoel Galdino e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Os Impasses de Tropa de Elite II

  1. rodolpho disse:

    Acho que você não entendeu uma coisa: não é que o culpado é o sistema, e ninguem individualmente, os culpados somos todos nós, cada cidadão, cada eleitor. No final do filme tem a narração (enquanto a Esplanada dos Ministérios e os Três Poderes são mostrados): “e adivinha quem sustenta tudo isso … é, e custa caro”. Por isso também a conclusão do Nascimento de que vai demorar muito pra mudar, pois depende da mudança dos valores dos eleitores.

    Achei muito boas as comparações com Batman e V, apesar de eu ter achado V meio bobo.

    Eu acho que Tropa tem o mesmo potencial revolucionário que “Política como vocação”, do Weber, ou seja, nenhum. Pois todos saímos putos do cinema ou da biblioteca, mas não vamos fazer nada, cada um vai continuar votando em quem sempre votou, e achando que o outro somente é que está errado. Aqui aliás o filme traz uma grande contribuição, mostrando a cooperação entre figuras completamente antagônicas ( o comandante do BOPE e o deputado do PSOL).

    Se fosse um filme só de entretenimento, já seria nota 10. Eu achei tão bom quanto o primeiro, melhor em algumas partes, menos melhor em outras. Mas no Brasil um filme com essa temática não pode ser visto apenas como entretenimento, mas como uma mostra, crítica, elogio ou qualquer outra coisa sobre nossa realidade. E, também nesse aspecto o filme é 10. Eu fiz um breve comentário antes de ontem no meu pseudo blog
    http://scncpltcs.blogspot.com/
    Para mim a classificação dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos fica agora assim:
    Tropa 1 e 2 empatados em 1º lugar
    Cidade de Deus em 3º
    Carandiru em 4º

    Último comentário: Ainda falta ser feito um gande filme nacional sem um narrador.

  2. Rodolpho disse:

    Esqueci de dizer que a ligação entre tropa e Weber me veio à cabeça por causa da interpretação do Gabriel Cohn de que a obra do Weber se trata de crítica e resignação. Acho que o diagnóstico de Tropa 2 é o mesmo.

  3. As pessoas em geral tbm assitem a V e não fazem nada depois, pq é da vida. Agora, o filme inspira todos a fazerem algo. Se não fazemos é por escolha nossa. Tropa não, ele te inspira a ficar resignado.

    Quanto à frase, “advinha quem sustenta tudo isso”, é certo que interpretei diferentemente de você. Pensei que ele falava no sistema político como um todo, já que as imagens eram da esplanada do Ministério. Agora fiquei na dúvida se ele se referia aos políticos ou aos eleitores… Mas se eram os eleitores, mostra Brasília parece a imagem errada (se bem que não teria imagem dos eleitores pra mostrar, né?). Teria que ver de novo e pensar. Alguém mais que viu o filme tem alguma opinião a respeito do final? Pensaram como eu ou como o Rodolpho?

    ah, vou dar um pulo no seu pseudo-blog…

  4. Marcel K. disse:

    Pela minha interpretação, Nascimente refere-se aos eleitores e não ao sistema político para questão sobre quem sustenta tudo isso.
    Concordo com a questão da resignação. É apenas isso que o filme mostra, acho também que o filme cai nesse impasse pelo fato de ter contextualizado sua história no Brasil, que é uma coisa real, e não em um lugar que não existe como Gothan City, e na minha opinião isso cria embaraços para que filmes comerciais possa entrar em certos assuntos.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s