Pensamentos desconexos sobre erros, riscos e inovação

Um dos temas recorrentes de minhas blogagens aqui diz respeito à atitude quanto ao erro. Errar é humano, já dizia o ditado. Porém, sempre que alguém comete algum erro é duramente criticado. Isso começa na escola e em casa, segue no trabalho e vai até na vida pública. É claro que não estou defendendo a complacência com o erro, mas é preciso pensar até que ponto a tentativa de evitar o erro leva ao acerto. Como diria o nosso maior filósofo, Vanderlei Luxenburgo, “o medo de perder tira a vontade de vencer”.

Essa questão me veio novamente à mente após ver essa excelente entrevista com o Gary Kasparov (em inglês).

De fato, é preciso pensar bem na profundidade da frase do Luxemburgo. Isso porque a princípio seria de se esperar que, meio que contrariamente ao que diria Yoda, teríamos o seguinte “silogismo”: “medo de perder leva a evitar derrota. Evitar derrota leva à vitória”. Alguns vão dizer que existe o empate, mas esqueçamos isso por um momento. Pensem por exemplo no jogo de tênis, em que não há empate. Como evitar a derrota pode levar não à vitória, mas à derrota mesma?

A questão é que o medo de perder nos impede de assumir riscos. E são justamente esses riscos que poderiam nos levar a uma vitória. Ao evitarmos os riscos, ao buscarmos o caminho mais trilhado, nós deixamos de otimizar globalmente.

A gente devia pensar em quais são os incentivos que nós passamos às pessoas quando o erro é duramente reprimido. Alguém irá arriscar um caminho novo, sabendo que será duramente criticado se errar? Porque não simplesmente manter o caminho seguro e conseguir um resultdo modesto, mas previsível?

Deixe-me dar um exemplo concreto e que foi objeto de discussão algum tempo atrás. Em algum momento dos anos 2000 a Suécia foi considerada o país mais inovador do mundo nesses rankings publicados por aí. Isso levou a algum incomodo por parte de economistas americanos conservadores e justamente porque, em certo sentido, o que estava em jogo eram dois modelos de sociedade.

Num modelo (americano) diz-se o seguinte. O indivíduo não tem garantias do Estado sobre seu bem-estar, de modo que é forçado a se virar. Isso leva à experimentação, tomada de risco etc., que no limite resultad em mais inovação, que beneficia a toda a sociedade. Num outro modelo (sueco), o indivíduo já tem um mínimo (bastante alto) garantido. Isso leva à acomodação, que leva à estaganção, o que é ruim para a socidade.

Salvo engano, o Stligtz explicava esse aparente paradoxo apontando para o seguinte. Se você tiver tudo garantido, você tem menos a perder em arriscar empreendimentos realmente inovadores, ao contrário de alguém que não tem nada garantido. Nesse sentido, quanto mais garantida sua vida, mais livre você seria e, portanto, mais inovador, mais propenso a aceitar riscos.

É claro que essa não é a explicação total nem é fácil generalizar com base em apenas dois casos, relatados superificalmente. Mas na minha cabeça, tudo se conecta. Seria necessário elaborar mais esse pensamento, mas eu ando meio sem tempo. De todo modo, esquematicamente, seria mais ou menos o seguinte.

1. Do ponto de vista agregado da sociedade, pensar em: Democracia como sistema político que dificulta inovação por punir demais o erro (aqui podemos resgatar o Tocqueville, mas também no Mandela, tal como retratado no filme Invictus).

2. Práticas individuais e de algumas insituições excessivamente focadas em minimizar o erro (exemplo maior é a escola. É melhor um aluno que tira 6 em todas as matérias que um que tira 10 em quase todas e tira 2 em uma. Esse repete de ano).

3. Idéia de que a inovação ocorre não pelo aperfeiçoamento do existente, mas pela irrupção de algo novo. Nesse sentido, é como a oposição (às vezes) entre otimização local e global.

4. A idéia de que é preciso de destruir a si próprio para inovar (Hegel, de um lado. Mas também Shumpeter, com a idéia de destruição criativa).

5. Por fm, tudo isso deveria ser conectado com algoritmos de buscas ou inteligência artifical, ou mesmo de otimização. Um dos problemas desses algoritmos (como do Google) é que é difícil detectar notícia nova relevante.

 

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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2 respostas para Pensamentos desconexos sobre erros, riscos e inovação

  1. luizgusmao disse:

    cara, vc até pode ter erradpo a mira, mas acertou a direção. seus pontos semidisconexos sobre insituições e inovação dão oq pensar. tvez o efeito das instituições suecas e americanas não seja linear, mas descrevam trajetórias parabólicas que se cruzem em determinado ponto. q tipos de incentivos deveríamos estruturar para estimular a criatividade de forma eficiente e produtiva e ao mesmo temo prover os indivíduos com direitos sociais de forma não direcionar/punir/tolher, mas acolher o fracasso?

  2. Pingback: Inovação, viés para o status quo e multi-armed bandit problem | Blog Pra falar de coisas

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