Wikileaks, ou a internet na era do espetáculo, ou ainda: tudo que é virtual se desmancha no ar

Quem leu Guy Debord sabe o que é o espetáculo. É aquilo que está em toda parte e em lugar algum, é o fetichismo da mercadoria levado ao paroxismo. Eu usualmente não gosto da teoria do Debord, pela razão simples que é totalizante demais. Mas como o objetivo aqui não é uma crítica à Teoria do Espetáculo, vamos ao ponto rapidamente nesse parágrafo da introdução: a nova revelação do Wikileaks diz muito sobre política internacional, mas também sobre a própria mídia, os leitores dela (nós) e sobre o potencial da internet. Discutir esas coisas é a tarefa do post.

A nova revelação do Wikileaks sobre documentos secretos do governo americano é ilustradora de como uma grande potência (ou melhor, A grande potência) faz política internacional. Espiona todo mundo (incluindo o secretário geral da ONU), pede DNA e informação da íris dos candidatos presidenciais do Paraguai e recebe pressão de países Árabes por guerra no Irã. Tudo isso é interessante, mas revela-se também que pessoas acham Putin corrupto, Berlusconi machista e precoupante dado suas predileções, que o podem aproximar de Putin e etc.

Eu acho relevante saber que os EUA gastam muitos recursos espionando todo mundo para obter informações. Mas no fim, a gente já sabia disso. Inclusive algum tempo atrás descobriram grampos na sala do secretário geral da ONU. Talvez não tivéssemos noção da extensão da espionagem, mas isso já era sabido há tempos.

Do mesmo modo, qualquer pessoa de bon senso e observando de fora, terá opiniões severas sobre Putin e Berlusconi. Suspeita-se de corrupção, tráfico de influência além de outras características típicas de ditadores, quais seja, a idéia de que podem tudo e que não precisam respeitar a lei. Que altos membros do governo americano tenham essas opiniões é até salutar! Elas podem até ser erradas num caso ou outro, mas nem sempre se acerta e seria pueril esperar que as pessoas tivessem sempre impressões corretas uns sobre os outros.

Nesse sentido, o destaque nas notícias a essas besteiras mostra que, apesar de potencialmente explosivo, esse escândalo tenderá a cair na poeira do esquecimento. Alguém aqui acha que a alta diplomacia dos países vai gastar tempo com frutricas? Isso serve apenas para saciar a curiosidade das pessoas sobre como é o mundo do poder, do mesmo modo que as pessoas compram Caras para ver como é o mundo das celebridades.

Nesse sentido que pensei que a internet é uma ferramente poderosíssima, na medida em que cria constrangimentos e desvela o mundo da real politik. Mas ao mesmo tempo gasta-se tempo com fofocas e frutricas que, a bem da verdade, pouco servem para melhorar o mundo em que vivemos.

Nesse sentido, vale perguntar. Do que foi revelado até agora, qual mudança no mundo teremos a partir disso? Meu palpite é que pouca coisa, exceto talvez: caça às bruxas nos EUA em busca do tal informante, talvez legislação controlando sites no mundo todo e um entendimento maior de algumas posições americanas no xadrez mundial (relação com a China, Irã etc.).

Tudo se passa como se essa revelação fosse apenas mais uma encenação do espetáculo. Mostra-se que o sistema é sujeito a revelações de informações, o que é bom para fortalecer a liberdade de circulação de informações e garantir a privacidade das pessoas. Mas ao memo tempo, a forma como é feita e o destino dado a essas revelações fazem as informações desmancharem no ar. Agora, diria, tudo que é virtual se desmancha no ar.

ps.: Esse texto era para ter saído antes do último. Mas esqueci de clicar em “publicar”.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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