Resenha de artigo

Um dos meus blogs preferidos é o simples “A fine theorem“. O blog é feito por um estudande de doutorado em economia e consiste simplesmente de resenha de textos (em geral papers) que o autor considera importante para ele. Tão simples quanto isso. Mas é muito bem escrito e as resenhas são um primor e exemplo de como fazê-las. Se eu um dia ficar tão bom quanto ele em resenhar papers, vou me dar por satisfeito. Assim, decidi fazer aqui umas resenhas de papers que me interessarem.

Eu começo pela metade, discutindo o paper de Wyeil e Tirole (2010) que o A fine Theorem resenhou. Como a resenha tá lá e ele tem mais competência técnica que eu, dê um pulo lá para entender melhor o paper. Eu aqui vou utilizar os resultados para discutir uma questão que me interessa.

O problema (de pesquisa) do paper é o seguinte: O que é melhor, patentes ou prêmios oferecidos pelo governo para esimulat inovação? Na verdade, o artigo oferece condições (sob certas suposições) para determinar quando um esquema é melhor que outro (ou quando ums mistura dos dois esquemas é o melhor). A idéia básica é a seguinte: você tem inovações que tem um valor social grande e outras com valor social pequeno. As patentes tem a vantagem de que, quanto maior o valor social, maior o lucro do inovador, e quanto menor o valor social, menor o lucro do inovador. Isso porque quanto maior o valor social, mais o monopolista poderá extrair excedente do consumidor (se você  não visualiza isso, é porque você não estudou microeconomia!). A desvantagem é que, ao criar monopólio, tem todos os problemas do monopólio. Os prêmios, por outro lado, não criam monopólios e geram eficiência (preço igual ao custo marginal). Por outro lado, os prêmios não vão estimular inovações cujo custo é alto, pois o governo não consegue distinguir o que é uma inovação com valor social alto ou não.

Os autores argumentam que a estratégia da Apple no iTunes e Apple Store pro iPhone é similar ao esquema de prêmios uniformes ou patentes. No caso do iTunes, o preço é o mesmo para todas as músicas (como se fosse um prêmio), independente do valor social da música. A idéia deles é que isso acontece porque a elasticidade de inovação é baixa nesse caso, isto é, a criaçã ode músicas independe da recompensa na loga do iTunes. No caso de apps pro iPhone, a elasticidade é alta e, portanto, cada criados de uma app cobra o preço que quer, tornando o lucro mais relacionado ao valor social da inovação.

Esse resultado, inclusive, formaliza um trade-off que deve ser resolvido empiricamente, não discursivamente, que é oseguinte. Tem gente que diz que inovação só tem com recompensa material, enquanto outros dizem que ela ocorre independentemente disso (cita-se muitos os artistas nesse caso). O mais provável é que haja variação setorial, o que indica que, pelo menos superificalmente, um legislação única para todos não é uma política ótima.

O que o paper aparentemente não discute (o paper tem 58 páginas, não dá pra ler tudo) é o seguinte. Dado que no sistema de patentes, o lucro é uma função crescente do valor social da patente, cria-se um incentivo para que as empresas aumentem o valor social da patente por meio de propaganda. Para ver isso, suponha que o valor social de um bem G seja uma função da qualidade do bem (q) e do gasto de propaganda feito naquele bem (p). É razoável assumir que quanto maior p, maior G, até um certo ponto, a partir do qual o efeito marginal é zero ou negativo. Do mesmo modo, o custo marginal da propaganda (Cg) deve ser uma função crescente da quantidade de propaganda (pode ter uma parte da função onde o custo marginal é descrescente, devido a ganhos de escala, mas isso não me interessa muito).

Então, é óbvio que se o lucro do monopolista é função do valor social do bem, deve haver um gasto com propaganda que é ótimo para o dono da patente. É possível então criar um modelo relativamente simples em que o monopolista gasta com inovação, mas também com propaganda. O que não é claro para mim no nível de generalidade em que estou   (assumindo algumas coisas sobre a função lucro do monopolista, custo da propaganda e efeito da propaganda sobre o lucro) é se é possível o seguinte: assumindo que a geração de produtos novos por empresas segue alguam distribuição de qualidade em que os produtos de baixa qualidade são mais comuns e que a probabilidade de produtos de alta qualidade é função crescente dos gastos de pesquisa, qual o equilíbrio de gastos da empresa com propaganda e pesquisa no sistema de patentes? E nos sistema de prêmios?

Parece-me (aparentemente) que fazer esse modelo é relativamente simples, embora responder às minhas questões possa não ser, pois envolve já muitas suposições e o nível de complexidade matemática deve ser bastante alto. De todo modo, é um pouco estranho que os modelos econômicos não enfrentam a questão dos incentivos para propaganda que as empresas enfrentam e os efeitos de bem-estar dos gastos com propaganda.

Em parte os economistas não trabalham com propaganda porque os modelos assumem que os consumidores tem as preferências formadas e informação sobre suas preferências. Mas não vejo porque não começar a modelar a propaganda como um desperdício de recursos como num jogo de soma zero entre empresas. Depois isso pode ser modificado, mas eu queria ver algo nessa linha.

ps.: Ainda sobre a questão da elasticidade da inovação, pode-se aplicar esse raciocínio para geração de pesquisas por professores Universitários. Do mesmo jeito, parece que direitos autorais incidem justamente sobre as criações cuja elasticidade de inovação é menor. Ou seja, patentes podem até ser boas, mas não direitos autorais.

 

 

 

 

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , . Guardar link permanente.

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