Peso e Leveza

Outro dia conversava com uma amiga, a Tânia, e eu falava pra ela – meio ingenuamente, meio de brincadeira, mas meio sério também – mais ou menos o seguinte: o mundo é uma merda e tal, a gente tem que se solidarizar com os outros, mas tem que também pensar nas nossas coisas e meio que desencanar do mundo, ser feliz independentemente do resto do mundo. E daí que na África tem meio mundo morrendo e sofrendo, o escambau? Eu tô estudando estatística Bayesiana e tenho gostado, tenho andando com meus amigos, tenho dinheiro pra viver, em suma, tô feliz.

A Tânia não achava que eu tava falando sério (mas eu tava) e, também se não sei se por esse tipo de fala, a Paula, minha companheira, tem dito esses dias pra mim que talvez eu seja egoísta.

Minha resposta usual tem sido desde sempre remeter a um texto do Rorty (que eu tinha, empresei o livro pra não sei quem e perdi), chamado “Trotsky e as orquídeas selvagens”. Se não lembro mal, nesse texto do Rorty diz que na infância ele aprendera com os pais que havia muita fome no mundo e tal e que ele devia se solidarizar com essas pessoas e tal, lutar para acabar com as injustiças etc. Só que no verão, ele ia na casa do avô dele e adorava passar as tardes vendo as orquídeas selvagens. Porém ele se sentia culpado de ficar apreciando as orquídeas selvagens com tanta gente passano fome.

Enfim, o Rorty conclui disso que as orquídeas selvagens eram um prazer da ordem do privado, e que lutar contra a injustiça no mundo era da ordem do público, e que o homem é tanto privado quanto público e é preciso deixar espaço para os dois na vida de cada um.

Eu andava contente com essa resposta, mas a Tânia argumentou muito bem, naquela conversa, que o privado tá imiscuido no público e vice versa. Então as coisas não são tão simples assim.

Eu continuo convencido da idéia do Rorty de que, num certo sentido, o totalitarismo soviético deriva da idéia de que o homem tem de submeter sua vida privada à vida pública. Enfim, precisava elaborar a idéia, mas deixo pra depois. O ponto é que o Rorty tem razão, mas a Tânia também. Então eu tava com esse impasse na minha cabeça faz um tempo.

Aí eu li esse texto da Aline, daquele blog que tem um dos melhores nomes de blog, Godot não virá, e meio veio à mente qual é a chave correta para pensar essa questão. A chave boa mesmo é aquela que tá no livro A insustentável Leveza do Ser, do Milan Kundera, e que trata justamene do peso e da leveza.

Afinal, o que não é essa questão do privado e do público se não a leveza de um lado e o peso do outro? Mas o que o Kundera mostra no livro é que a leveza pode ser pesada, e o peso leve. Tem uma passagem no livro [1], em que o Tomás (personagem do livro) olha pra um retrato do Hitler e lembra da infância dele. As lembranças dele são felizes, mas o problema é que foi a época do Hitler e tal e ele sente quase como uma traição a quem sofreu nos campos de concentração olhar pro Hitler e ter uma lembrança feliz. Então, a leveza aí (olhar pro Hitler e ficar feliz) é pesada e o peso pode trazer uma leveza de se saber que o peso é pesado mesmo.

Então, nessa chave, que aliás me parece dialética (rapaz, eu fujo dela, mas ela sempre me persegue. Um dia eu volto a ela, que é preciso) diria o seguinte. Pro garoto de 15 anos que observava as orquídeas selvagens, essa leveza era pesada. E nós, como esse garoto, estamos em busca sempre de achar algum modo de reconciliar a leveza com o peso.

Mas talvez a reconciliação não seja possível. Aliás, a lição que tirei de minhas leituras de Hegel é que na Dialética não tem reconciliação entre esses pólos não. Inclusive, não é à toa que a ironia é uma das figuras (de linguagem?) mais próximas da dialética justamente porque ela carrega consigo a leveza e o peso, sem tentar se desvencilhar de um dos lados e ficar só com o outro.

Então, diria o seguinte, talvez meio esquematicamente demais, mas que serve como apontamento pelo menos. Queremos a leveza (ser alienado etc.), mas a leveza fica muito pesada. Mas não podemos ficar só no peso (lutando no mundo etc.). O peso tem que ser leve (curtir a luta etc.). Mas nem sempre o peso será leve e a leveza pesada. Conclusão: teremos uma luta incessante para viver na leveza, mas tendo que conviver com o peso. Reconhecer essa irreconcialidade fundamental, mas não de todo negativa (às vezes o pesado fica leve e vice-versa) é a resposta, creio, para esse dilema[2].

[1] Eu posso tá lembrando errado a passagem do livro. Mas, de todo modo, se tiver errado, a leitura errada serviu aos meus propósitos.

[2] Essa é, de resto, a leitura que eu faço do Hegel. Enquanto muita gente sempre lê o Hegel como aquele que concebeu a história como um devir cujo telos estava dado, em direção ao Estado moderno com a sociedade de mercado, e que essa modernidade resolvia as contradições ou reconciliava o conflito, minha leitura é bem diferente. Pro Hegel, a modernidade só seria a solução na medida em que ela funcionasse como uma resposta que reconhece que não é resposta, que os conflitos são irreconciliáveis e que será preciso por em questão a todo o momento as formas de processamento de conflito. Nesse sentido, a modernidade seria uma resposta mais enquanto forma que enquanto conteúdo, e isso inclusive porque sua forma era mais próxima da forma dialética, que é a única apropriada ao mundo.

ps. da nota de rodapé: Eu ainda faço um post justificando a dialética. Pra quem gosta de teoria dos jogos, justificar a menção à dialética é necessário. Adianto apenas o seguinte. É na linha do que tem escrito o Ruy Fausto.

ps.2: Quem primeiro me sugeriu essa leitura do livro do Kundera foi um amigo, o Vinicius. Valeu Vini.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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2 respostas para Peso e Leveza

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