O segredo dos seus olhos

Vi outro dia a “O segredo dos seus Olhos”, filme argentino que ganhou o oscar de melhor filme estrangeiro, com Ricardo Darín e dirigido pelo Campanella. Gostei muito do filme e queria comentar sobre ele aqui, mas acabei não fazendo. Agora acabei de ler o comentário da Aline sobre o mesmo filme e me motivei de novo a escrever aqui sobre ele. Principalmente porque minha leitura do filme foi diferente da dela. É óbvio que não conseguirei escrever com a competência dela, mas não importa, pois não é uma competição. Importa é que outras coisas me chamaram a atenção.

Ah, um ps.: as usual, tem spoiler.

O filme pra mim é realmente muito bom porque ele é um clássico thriller policial, mas meio sem ser, pois é também uma história de amor, mas é também uma história dos impasses que vivemos, especialmente aqui na AL, nesse caso mais especificamente na Argentina. Aliás, vale dizer uma coisa. Por esses acasos da vida, acabei vendo o filme com legenda em inglês, o que prejudicou o entendimento de algumas coisas, mas mostrou que a tradução pro inglês empobrece o filme. Traduzir pellotudo por moron, por exemplo, é ilustrativo de que as coisas são diferentes. Não é a mesma coisa. Mas enfim. Quero falar mesmo é de outras coisas.

Vendo o filme eu fiquei pensando sobre as coisas que às vezes a gente não supera, não deixa para trás. Às vezes podem ser coisas bobas, mas às vezes não. O Andrew Gelman disse uma coisa, de forma totalmente não relacionada com isso, mas que se enaixa bem, e adapto aqui. Quando eu jogo tênis, eu tenho a impressão de que se eu me esforçar muito eu posso ganhar todos os pontos do jogo. Então, tudo se passa como se cada ponto do adversário fosse resultado de um erro meu, de não ter tentado o suficiente ou de ter tomado a decisão errada. Mas obviamente isso não é verdadeiro, claro, e às vezes a gente tem de aprender a deixar passar, se deixar perder e ser derrotado pelos acontecimentos.

Então o filme, pra mim, é um pouco sobre isso. Quando a gente fica rememorando o passado, a gente não segue com a vida, mas fica reencenando em nossas cabeças todos os passos dados e o que poderíamos ter feito diferente. E isso fica passando, e passando e passando, como se fosse o mesmo filme.

Nesse sentido, é interessante que a Irene, a única personagem que aparentemente seguiu com a vida, diga no começo do filme:

Mi vida entera ha sido mirar para delante. Atrás no es mi jurisdicción. Me declaro incompetente.

Num certo nível ela diz a verdade, pois casou-se e tem dois filhos, que ama. Mas num outro nível é uma mentira, pois ela, Irene, acha o casamento amargurada e ainda espera que o Esposito se declare a ela, como vemos no começo do filme quando ele aparece e ela pergunta a ele: “preciso fechar a porta?”. E nós sabemos, depois com o desenrolar do filme,  que fechar as portas terá um significado especial para eles, significará finalmente deixar que a intimidade deles seja o aspectro central, sem que o público possa interferir aí qualquer coisa. Não é por outra razão que o filme termina com as portas se fechando. É uma sinal de que eles agora estão às portas fechadas, entre quatro paredes, como se diz, mas também de que eles superaram o passado, o que ficou pra trás. Encerraram o caso, cerraram el caso, como também se diz cerrar la puerta. Aliás, sintomático que a mesma palavra, em espanhol, se utilize para as duas situações.

E qual é a fonte de todo esse remoendo, se não a memória? E é em busca dessa memrória, de resconstruir um caso, o caso de sua própria vida, que Esposito vai atrás. E apenas quando ele puder deixar essa memória de lado, fechar esse caso em aberto, é que poderá seguir com sua vida. É interessante inclusive comparar aqui com a história de Ulisses, que é também uma referência favorita minha. Como se sabe, na Odisséia, conta-se a história de um retorno. O retorno de Ulisses à Ítaca. Mas quando ele retornar à Ítaca as coisas já não estarão mais como eles as deixou. Mas de todo modo, a passagem que quero rememorar aqui é aquela (do livro V) em que a Deusa Calypso propõe a Ulisses que ele fique com ela, que o tornará imortal. Ao que Ulisses responde que não pode aceitar, que deve voltar para Penélope, sua esposa. Calypso se sente algo ultrajada e pergunta se Penélope é mais formosa que ela, quais encantos teria Penélope que não teria a Deusa Calypso? E Ulisses responde que Calypso é uma Deua e imortal e, portanto, Penélope não poderia comparar-lhe em beleza, mas que deve voltar para sua casa mesmo assim.  Em suma, para restaurar a ordem das coisas, para reencontrar a si mesmo em sua identidade de Ulisses. E o que é a identidade de Ulisses se não aquela da sua memória?

Então, de certo modo, Esposito e sua obsessão com o passado tem a ver com a busca por encontrar sua identidade. O caso Morales é a porta de entrada de sua relação sempre inconclusa com Irene, sempre iterditada, sempre não gozada. Mas por outro lado, e é o que diz Sandoval, se essa é a paixão de Esposito, ou seja, sua identidade, o que faz dele ele mesmo, é também uma vida. Não é que essa suspensão do gozo seja simplesmente algo da ordem do não vivido, pois vive-se assim também. Talvez valha a pena inclusive comparar com a vida de Morales, que viveu uma”vida llena de nada”, cheia de nada. Aí, não havia o retorno, ele não podeia nunca retornar à casa, pois sua esposa havia sido assassinada.

E esse amor não vivido, lembra-me também um outro filme do Kar Wai, Amor à flor da Pele, que conta justamente a história do amor não consumado, e sem por isso de deixar de ser amor. Nós estamos acostumados, talvez holywoodianamente, talvez no mundo ocidental, que o amor ou é consumado ou é platônico, sendo o platônico claramente depreciativo. Mas houve um mundo antes de Platão e em paralelo ao platão (por exemplo a China sem influência ocidental), e é claro que o amor não se resume apena ao ato consumado, ao gozo. Não se pode trair a própria paixão, a própria identidade, em busca da consumação do amor. Às vezes, é preciso recusar a Deusa Calypso para retornar pra Casa, ainda que se demore 20 anos (caso de Ulisses) ou 25 anos, caso de Esposito. Claramente não se será mais o mesmo depois dessa longa jornada, mas nunca somos os mesmos, não é mesmo? E ao mesmo tempos, somos sempre os mesmos. Como diria Sandoval;

Una persona puede cambiar de nombre, de calle, de cara…pero hay una cosa que no puede cambiar… no puede cambiar de pasión.

pstu: As atuações de Ricardo Darín como Esposito e Villamil Soledad como Irene estão excellentes. As feições da Irene mostrando suas frustrações quando ouve Esposito falando em reabrir o caso Morales, quando ela esperava uma declaração de amor dele são perfeitas.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Arte e Cultura, Manoel Galdino e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s