Opiniões contraditórias

O Dresner em post do seu blog aponta que os americanos são racionalmente ignorantes, isto é, escolhem não se informar sobre o assunto porque julgam que o custo de se informarem é maior que o benefício que pode advir dessa informação. Por isso, teriam opiniões contraditórias como: querem reduzir impostos, reduzir o déficit e manter os programas sociais. Segundo ele, uma conta que não fecha.

Deixando de lado o oxímoro que é ignorância racional e que me parece dessas idéias estúpidas dos economistas, tal como vício racional (rational addicted), todos são suicidas etc. parece-me que o Dresner se enganou aqui. Explico-me.

Quando você está negociando um objeto de tamanho fixo (como um orçamento, um bolo), é óbvio que a soma das partes tem que ser menor ou igual ao todo, mas não maior que o todo. E é nesse sentido que o Dresner argumenta que a conta não fecha: não dá para manter as guerras, os programas sociais, reduzir o déficit, não restringir a política monentária e ficar sem inflação.

Porém, quando perguntam a você se acha que o governo deveria reduzir impostos, eles não estão perguntando dentro das retrições existentes, o que o governo devia fazer. Estão perguntando se você acha, de maneira geral, que se deveria reduzir impostos. O Dresner não incluiu na restrição, por exemplo, as dificuldades no congresso e as concessões com esse poder ou ainda com o lobby etc. E ninguém está pedindo para você levar isso em conta na hora de dar sua opinião.

É como a discussão no Brasil sobre Universidade Pública, particularmente as estaduais paulistas. Se me perguntarem se o governo devia gastar mais com a USP, aumentando salários, vou dizer que sim. Se falar que devia reduzir impostos, vou dizer que sim. E se me perguntarem se devia manter os programas sociais, vou dizer que sim.

Essas são minhas preferências. É claro que eu sei que um gasto maior aqui e menor imposto implica num orçamento mais apertado. Afinal de contas, eu estudei economia uma época de minha vida e não sou tão estúpido. Mas o ponto é que se eu responder que não quero aumentar os gastos da USP, ninguém vai interpretar isso como alguém que não considera isso prioritário dada as restrições, mas que é favorável num mundo com um pouco menos de restrições. Vão interpretar que não sou favorável e pronto. Antecipando isso, prefiro falar que sou favorável.

Por fim, na cabeça de todo mundo sempre tem gastos que são possíveis de serem reduzidos. Por exemplo, eu simplesmente não gastaria mais nenhum centavo com construção de estradas, pontes, avendias, túneis e similares. Direcionaria todo esse dinheiro para construção de metrô, trens, reorganização urbana (moradia no centro). Do mesmo modo, reduziria os gastos com publicidade estatal e criaria algum imposto de poluição. Talvez a conta não feche e alguns ajustes precisam ser feitos, mas certamente é possível ter essas opiniões sem precisar apelar para ignorância racional.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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