Quando o mercado é a melhor solução

Meus amigos esquerdistas vão odiar essa, mas essa reportagem é, pra mim, o exemplo de quando o Hayek estava certo. Basicamente a reportagem diz que as sacolas de algodão, que muita gente ecologicamente correta está usando para substituir as sacolas plásticas nas compras do supermercado, são mais danosas ao meio-ambiente do que as sacolas plásticas. Isso lá no Reino Unido. Mas supõe-se que vale para o Brasil também.

Para você entenderem a natureza do problema, é preciso considerar toda a cadeia produtiva e também a cadeia de distribuição e, não só isso, mas também a lógística atual para lidar com o lixo na hora de avaliar o impacto de uma mudança desse tipo. Ou seja, é impossível para uma pessoa comum (e mesmo para cientistas e o governo) conseguir processar todas as informações descentralizadas e definir o que é mais eficiente ou melhor.

Como se sabe desde o Adam Smith e enfatizado pelo Hayek, é justamente nisso que o mercado é bom. Ele é uma instituição que processa informação descentralizada e dá sinais para as pessoas tomarem a decisão mais eficiente, produzindo um ótimo global. Quer dizer, na teoria bem teórica, pois a gente sabe que não funciona tão bem na prática não. Mas o importante é a idéia de uma insituição que por natureza processa as informações que se encontram dispersas na sociedade.

Ocorre que no caso da poluição e dano ao meio-ambiente, temos uma das famosas falhas de mercado, a externalidade. Ou seja, a informação não é processada pelo mercado, e portanto, as informações não são passadas para as pessoas tomarem decisões ótimas.O que é preciso então é que todos os dandos ao meio-ambiente sejam internalizados, para que o mercado process a informação do custo da poluição. Assim, as pessoas vão poder tomar a decisão ótima no que diz respeito ao que é melhor: usar sacola plástica ou não.

Para isso, porém, é preciso que os governos (sim, eles mesmos) criem impostos ou direitos de propriedade para que esses custos sejam internalizados. Ou seja, fazer um protocolo de Kyoto que funcione, e não aquela abobrinha.

ps.: Não, eu não acredito no mercado nem acho que a solução para o meio-ambiente vai sair de uma solução via mercado. Só acabando com o capitalismo é que conseguiremos isso. Pois a questão é de modo de produção mesmo, do consumismo, da necessidade do capital seguir acumulando para garantir sua própria existência. Mas nos caso específico das sacolas plásticas, a solução via mercado é a melhor. Pois é acima de tudo um problema informacional num ambiente complexo em que as informações não são centralizáveis facilmente.

 

 

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
Esse post foi publicado em Manoel Galdino, Política e Economia e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Quando o mercado é a melhor solução

  1. Paulo de Tarso Soares disse:

    Meu querido Maceió, confesso minha limitação para ver o que o caso das sacolas plásticas tem a ver com o acerto do Hayek! Externalidade e bem público tem a ver com Coase, Samuelson etc e tal. Além do mais, há tempos vi uma matéria na Globo News (?) dizendo que uma empresa carioca de móveis e outros utensílios, que utilizava como matéria-prima os tais saquinhos plásticos, não podia se expandir por insuficiência de matéria-prima. Isso mostra que há exatamente o contrário do que você aponta, que o mercado não está funcionando. Abraços, Paulinho.

  2. Que o mercado não funciona como os seus defensores argumentam é ponto pacífico para mim (embora não para os defensores do mercado, claro). O ponto que eu queria fazer era outro. De que é impossível saber, do ponto de vista individual, qual a melhor decisão em termos ambiental (usar sacola plástica ou não, fazer xixi no banho ou não, usar papel reciclado ou não), simplesmente porque a cadeia de impactos de cada decisão e´tão complexa que é impossível processar todas as informações e chegar a umdecisão correta, seja no nível individual ou governamental. O que o Hayek falava do mercado era em primeiro lugar dizer que o governo não conseguirá fazer esse tipo de coisa, e em segundo lugar que o mercado irá.

    Eu não fui muito claro, e o meu título foi de certo sensacionalista, no sentido de que (você tem razão) tampouco o mercado sozinho irá resolver esse problema de processar informações descentralizadas e forncer para os indivíduos a informação relevante para ele tomar a decisão ótima. O seu exemplo de que o mercado não estaria funcionando é apenas mais uma evidência. A outra questão é que com externalidade o mercado não funciona, e portanto, de nada adianta todo o argumento do Hayek.

    Tudo isso me leva a concluir(não falei no blog, pois acabei ficando com preguiçade escrever) é que qualquer que seja a sociedade que desejemos construir, é preciso tanto decisões no nível macro (para de produzir carros, por exemplo) como alguma combinação de uma insituição (como o mercado, mas não precisa ser o mercado) que processe as informações que se encontram descentralizadas. Só com decisões macro não iremos muito longe, não importa a dose de boa vontade dos decisores.

  3. Paulo de Tarso Soares disse:

    Ah, agora entendi! Um cara inteligente, bem preparado, que frequentou bons bancos escolares, como é o seu caso, cometendo o equívoco de recorrer ao sensacionalismo, gera perplexidades. O ponto é a difusão das informações, um requisito fundamental para o próprio funcionamento do mercado. Há muito oba-oba nessa questão chamada de meio-ambiente, ecológica e outros que tais. O vulgo gosta de ficar na moda e faz qualquer bobagem, desde que seja a prática (estúpida) corrente. O que se lê, ouve, vê, de besteira nesse campo é demais da conta.

    Outro dia mesmo tive uma lição daquelas sobre o tema. Não existe energia não renovável. O que vem da terra precisa de adubos e fertilizantes que não são recursos renováveis. Idem para o que vem do sol. Ao final e ao cabo tudo vai bater na mineração.

    Mas não sou pessimista. Olhe para a história e veja se, no século retrasado, se poderia imaginar o volume de produção atual? Mas também não sou tolo de achar que, porque deu certo até hoje, vai dar certo amanhã. O que me recuso é a entrar na histeria e na satanização. Afinal de qualquer forma, racionalidade não faz mal a ninguém, ao contrário produz um futuro melhor.

    Abraços,

    Paulinho.

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