A entropia – conto

O Nietzsche já dizia que a diferença do gênio pro comum não é que o gênio só produzia coisas boas. É que ele tinha o bom senso de esconder as coisas ruins. Como não sou gênio, segue um conto que escrevi em uma hora. Sem revisões.

ps.: Eu sei, eu sei, eu deveria revisar, deixar o texto descansar e só depois de ler me decidir a publicá-lo ou não. Mas eu já imagino o resultado disso (não iria publicá-lo), e realmente gostaria de colocá-lo aqui. Então ei-lo.

Entropia

Salustiano queria comê-la. E sabia o que precisava fazer. Ela estava usando um vestido simples, cabelos presos e estava sentada charmosamente apoiada sobre os cotovelos. Era o suficiente para apenas insinuar os seios. Ele sentou ao seu lado, pronto para iniciar seu discurso ensaiado mentalmente durante todos aqueles longos 37 segundos em que superou sua timidez. Mas foi surpreendido por um gesto inesperado. Adriana se inclinou levemente para trás e com uma das mãos liberadas retirou o elástico que prendia seu cabelo. Aquele movimento, por certo natural, foi maravilhoso e Salustiano ficou apenas a olhá-la por alguns segundos, mas que logo depois pareceram a ele uma eternidade e que lhe denunciara por completo seu propósito. “Mas pensando bem, não faz mal”, disse mentalmente para si mesmo. “Mostrar que estou interessado nela pode ser até bom. Vejamos no que isso dá”.

– Sabe, vi outro dia Whatever Works. Salustiano tinha mania de falar os nomes dos filmes em inglês, no original. Naturalmente não fazia isso com filmes alemães, franceses, italianos, pois não entendia lhufas dessas línguas. – Você viu?

– Não, não vi. É do Woody Allen, né?

– Sim.

– Mas então, tem uma cena que eu achei das mais bonitas da história recente do cinema. Você sabe o que é entropia? Aqui Salustiano utilizava todo o seu arsenal.

– Já ouvi falar. Acho que tem no livro do Capra, você leu?

Salustiano ficou em dúvida se mentia ou não, mas preferiu ser sincero e retomar sua linha de ataque. “A diferença para o mundo real e o meu mundo imaginário é que sempre tem um desvio que fode tudo”.

– E então, você leu ou não?

– Ah, não, desculpa. É que estava a pensar justamente na Entropia e no Capra, como deve aparecer no livro dele. Mas não, não li.

– E como deve aparecer no livro dele?

– Ah, deve ser mais uma dessas abobrinhas de gente que não entendeu direito o conceito de Entropia e fica usando ele a torto e a direito.

– E por acaso você entende? Que arrogância da sua parte. O Capra é físico, você não.

Ela fez uma cara de decepção e voltou a amarrar os cabelos com o elástico. Salustiano ficou a se perguntar se aquilo era realmente um mau sinal, ou era só coincidência entre sentimento e gestos. Resolveu então se defender.

– Veja bem, eu acho que as coisas tem que ser apropriadas, sabe? Porque o mundo é tanto discursivo quanto práxis, e acho que a gente tem que se apropriar como der do mundo, incluindo aí o vocabulário técnico-científico para extrapolar suas intenções originais. Viver no mundo é isso, claro. Inclusive eu falei de entropia justamente porque no filme do Woody Allen há uma dessas apropriações que, se num certo sentido provavelmente é aquilo que eu falei que era abobrinha, é também dessas apropriações que são maravilhosas. Então me desculpe se eu fui meio aborrecido, é ranço meu. Mas pra você acreditar em mim, que eu acredito nisso que estou dizendo, escuta a cena do filme. Quer dizer, posso falar? Você não liga que eu conte uma cena do filme, né?

– Não, pode falar. E que bom que você disse o que acabou de dizer. Me deixa mais aliviada!

Adriana abriu um sorriso, e Salustiano não pode deixar de sorrir para si mesmo, satisfeito em ver como tinha contornado um problema que ele mesmo tinha criado.

– Então, no filme tem uma moça, que é meio bobinha, meio burrinha, e ela tá namorando um velho e tal, que é físico, quase ganhou o prêmio Nobel e tal. E aí tem um jovem, bonitão, legal, sensível e tal, dando em cima dela. Aí ele pede um beijo – é mais ou menos assim, não lembro direito – e ela diz que não pode dar, por causa da entropia. Ele fica assustado, claro, como assim por causa da entropia. E ela explica que tem coisas que, uma vez feitas, não tem mais volta, e que o namorado dela falou que entropia era isso. Aquele beijo, que ela queria dar, não podia ser dado, porque é entropia pura. Não é uma maravilha essa apropriação da entropia pra falar de uma coisa tão humana quanto o desejo e o amor, e também a culpa que em geral nós carregamos nos nossos afetos?

– Poxa, me deu vontade de ver esse filme. Além dessa cena, é legal?

– Legal demais. Vamos ver juntos. Eu alugo e a gente combina. Só nós dois.

Salustiano olhou para Adriana. Eles sorriam. Ele sabia que rolava um clima. Ficou pensando apenas se falava a linha seguinte, ou se ficava calado só olhando pra ela, ou se já beijava logo. A linha seguinte era mais ou menos assim: “De repente rola uma entropia com a gente”. “Podia ser uma continuação excelente, pois ela podia interpretar de duas formas. Como uma brincadeira, que aliviaria um pouco a tensão do clima que rolava, mas ao mesmo tempo ajudando a reforçar o clima. Ela daria umas risadas, um pouco nervosas e não tão engraçadas, pois havia tensão, mas o efeito seria positivo. Além de cult era engraçado. Outra possibilidade é que ela encarasse como uma cantadinha um pouco agressiva, mas curtisse, e soltasse um – Quem sabe? ou por que não?, no que seria o sinal pra logo em seguida ele beijá-la, pois não ia poder perder uma brecha dessas. Mas por outro lado podia parecer meio cafona/brega e estragar o estilo cult que ele tava fazendo. Era bom não esquecer que agora há pouco ele teve que contornar umas linhas erradas que ele tinha soltado, e juntando uma coisa com a outra ia azedar o molho e virar vinagre. Mas não podia hesitar muito também não, e tinha que se decidir logo. Resolveu falar.

– Quem sabe não rola uma entropia entre a gente? Disse, com um sorriso meio cafajeste no rosto.

O problema foi que demorou muito pra falar, e ela demorou a entender. Quando ela entendeu, obviamente a possibilidade da graça tinha se esvaído, e ela também não era do tipo que era agressiva e gostava de cantadas em baladas. Ou seja, pareceu cafona/brega e ela fez uma cara do tipo, tá doido?, não to te entendendo. Salustiano percebeu que tinha feito besteira e se deseperou. “Tinha rolado uma clima, tava fácil ficar com ela, mas ele tinha falado besteira. Mas erros acontecem, como ela não percebia isso?”

Ela olhou pro lado, mostrando que realmente a vaca tinha ido pro brejo. No desespero, Salustiano me veio com essa: – olha, eu sei que rolou um clima entre a gente, e isso significa que tanto eu quanto você queríamos ficar um com o outro. Só porque eu falei uma cafonice agora há pouco não quer dizer a gente não possa ficar.

-Hã?

– Ah vá, tá fingindo? Pensa que eu não notei, naquele silêncio, que você queria ficar comigo? No mínimo você pensou, e agora dá uma de desentendida. Ah, não faça essa cara de quem não tá entendendo nada porque você tá entendendo sim. Mas tudo bem, faz parte da encenação você fazer esse joguinho e agora fingir que essa quebra de protocolo minha é só pura doidice. E eu sei que de um ponto de vista é doidice mesmo, mas é como disse antes, porque a gente não pode se apropriar do mundo de um jeito nosso, pegar as coisas que estão aí, inclusive os protocolos sociais, e virar do avesso? Salustiano tentava se recuperar no final com esse papinho cult novamente, e já começava a ter esperança de que tudo podia dar certo no final, quando ela olhou pra ele, o mirou de alto a baixo, deu um sorriso sem graça e falou que ia ao banheiro.

Ela não voltou mais àquela noite, e Salustiano ficou a tomar cachaça. Ele se consolava dizendo pra si mesmo que não ter ficado com ela era só um detalhe, porque afinal de contas ele tinha certeza que querer ela quis, e se não ficaram, que importa? Ela quis, ele também, o resto é resto.

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Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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2 respostas para A entropia – conto

  1. Paulo de Tarso Soares disse:

    Ah, tá bom, é mais um caso de auto-engano! O querer dela existe no pensamento do Salustiano, portanto, existe na prática. Existe nada! Coisa de ressentido! O tesão dele por ela é que provocou todas aquelas sensações, todos aqueles delírios, mera confusão de desejo e realidade. Se ela quisesse mesmo nada teria impedido, nenhuma bobagem pseudo intelectual teria atrapalhado..

  2. Paula disse:

    Acho que ela queria, mas não logo de cara…

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