A solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

Li o livro do título acima semana passada. O título é uma metáfora que lembra o fato de que às vezes os números primos vêm em pares, separados apenas por números pares (5 e 7, 11 e 13, 17 e 19). Porém, esses pares vão rareando à medida que aumentamos o tamanho dos números. Pois bem, como dizia, o título é uma metáfora para a história de duas pessoas, Matia e Alice , diferentes de todos o resto, e que são como os números primos pares: diferentes, especiais (divisíveis por si mesmos e pelo 1), próximos mas sem se tocar, sempre separados.

O livro conta a história deles (e por tabela de outros relacionados a eles) da infância à vida adulta. E me parece particularmente acertado nas descrições que faz da infância e adolescência, especialmente em termos das inseguranças e crises que vivemos nesse período. Todos somos como Matia e/ou Alice e nos sentimos durante muito tempo pouco integrados ao mundo que nos rodeia, numa tentativa perene de superar essa alienação.

Os personagens são bem construídos psciologicamente e a história de suas vidas são muito bem contadas e bastante emocionantes, o que torna a leitura instigante. O estilo é simples mas eficaz, e a narrativa é coesa o bastante para prender o leitor durante toda a leitura.

A caracterização psicológica dos personagens não me pareceu tão convincente na fase adulta deles, pois eles pareciam ter os mesmos problemas da infância e adolescência, ainda que retratados em condições adultas.

A anorexia de Alice e a forma como ela lida com isso, por exemplo, é exemplar. Na adolescência, a anorexia aparece como um sintoma de alguém que se imagina gorda quando se olha no espelho. Já adulta, não temos explicação para a continuação do comportamento anoréxico nem tampouco crises existenciais da parte dela pela tomada da consciência de seu problema e sua incapacidade de lidar com ele. Quer dizer, eu esperaria que mais velha a crise passasse pela incapacidade de lidar com o problema, ainda que ele fosse reconhecido. Mas ele simplesmente passa a não ter explicação e seus problemas são antes resultados das consequências deles que da reflexão sobre eles mesmos. Como se, por exemplo, alguém com câncer tivesse apenas os problemas da doença, e não também os problemas da consciência de se saber com câncer.

Tudo bem pesado, é um livro com um começo e meio excelente e final não tão bom. É um livro que eu gostaria de ter lido na adoslecência, embora não sei se teria gostado de lê-lo, nem se teria entendido que as inseguranças e dúvidas são universais.

Além disso, há a questão da leveza e do peso (Kundera), que me é cara. O livro é claramente sobre o peso, embora eu tenha ficado durante quase todo o tempo com uma sensação de leveza. Eis um exemplo:

Mattia era propositadamente silencioso em cada um de seus movimentos. Sabia que a desordem do mundo só aumentaria, que o ruído de fundo cresceria até cobrir todo sinal coerente, mas estava convencido de que, medindo atentamente cada um dos seus gestos, sentir-se-ia menos culpado desse lento desfalecimento.

Minha impressão é que para um adulto – como eu! – o peso do livro é encarado de forma leve. Mas não sei se o mesmo seria verdadeiro para um adolescente e, portanto, o peso pode se tornar pesado. Nesse sentido, fico me perguntando se ler esse livro na minha adolescência não teria tido um impacto muito maior sobre mim, tanto mais que os jovens, como se diz, são “espíritos impressionáveis”.

Recomendo a leitura, especialmente para os mais jovens. Possivelmente para os pais pode ser iinteressante também, já que o relacionamento pais-filho é um dos temas do livro. Se alguém leu, gostaria de ouvir o que acharam.

Sobre Manoel Galdino

Corinthiano, Bayesiano e Doutor em ciência Política pela USP.
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3 respostas para A solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano

  1. Umberto disse:

    Os primos não vão “rareando”. Isso tá errado no autor.

    Ver a tabela http://doc.qt.nokia.com/3.2/primes.html.

    P. ex., a mesma distância entre 1009 e 1013 (4 posições) aparece entre 7 e 11.

  2. Achei que rareavam… Vou olhar. Valeu pela dica.

  3. Não sei se você entendeu ou eu que não. Mas o que vai “rareando ‘ é a frequencia dos primos que vem em pares (como 5 e 7, 11 e 13 etc.).

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